Pregoeiros e mercadores

O estado da economia, alguns aspectos a ter em conta e que são determinantes para a evolução/recessão:

O primeiro aspecto diz respeito ao nível de emprego, factor-chave para a definição da temperatura da economia em qualquer período ou circunstância. No caso português este indicador é catastrófico não só pelo seu numero, a rondar os seiscentos mil desempregados, como pela sua natureza, a entrar profundamente na classe média se não mesmo média-alta.

O segundo aspecto (interligado como o anterior) é o investimento ou, no caso actual, a falta dele. Quando a taxa de investimento, que os economistas chamam de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), diminui acentuadamente provoca desemprego, diminuição do Produto Interno Bruto (PIB) e são menos as receitas de impostos a arrecadar pelos cofres públicos. É um período destes que agora estamos a atravessar.

Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), significa o aumento da capacidade produtiva de um país, é o investimento que os empresários fizeram, principalmente em máquinas, equipamentos e material de construção, ou seja, se está aumentando esse tipo de investimento significa que os empresários estão confiantes quanto ao futuro da economia, se as empresas comprarem mais máquinas, por exemplo, isso significa que elas se estão preparando para produzir mais bens de consumo (roupa, calçado, restauração, viaturas, electrodomésticos, etc.) e bens de indústria ou bens duradouros.

E se os empresários não quiserem arriscar e se acomodarem no facilitismo das vantagens de aplicação dos seus lucos empresariais em aplicações especulativas financeiras através da colocação em contas offshore por mais que alguns arautos do investimento privado digam que não é ao estado que compete dinamizar a economia como sairemos da crise em que tais pregoeiros nos colocaram?

Perante tão grave crise de ética e de valores sociais, nenhum Estado nem governantes, de algum bom senso, podem deixar, em livre arbítrio, à iniciativa privada a resolução destes problemas económico-sociais.



Publicado por Zé Pessoa às 00:06 de 17.03.10 | link do post | comentar |

12 comentários:
De Antes pelo contrário a 17 de Março de 2010 às 14:02
Paulo Portas já é primeiro-ministro e usa o nome de José Sócrates

Em defesa do PEC, os spin doctors do Governo exploram o ódio social a desempregados e a quem recebe o rendimento mínimo. Dou voz a socialistas incomodados com a chegada de Paulo Portas ao poder.
Daniel Oliveira (www.expresso.pt) , 17.03.2010

Não escrevo este artigo para encabular o PS e mostrar divisões internas. Até porque, com toda a sinceridade, acho que a tradição do PS, e falo apenas da mais recente, centrista e moderada, está nas frases que se seguem. O Governo, esse, parece que, para defender o seu PEC, adoptou definitivamente o discurso já não apenas da direita liberal, mas da abjecta insensibilidade social e populismo de Paulo Portas. Fico apenas aliviado por saber que pessoas de quem discordo mas pelas quais tenho respeito político não se conformam com esta nova deriva.

Sobre as privatizações, várias vozes no Partido Socialista se fizeram já ouvir, acordando a consciência de esquerda do torpor em que parecia viver, deixando nas mãos da direita o discurso ideológico sobre o PEC. O que tinha a dizer sobre o tema está no último Expresso em papel. Deixo-vos agora com Manuel Alegre e Ana Gomes:

"Não há constrangimentos de Bruxelas que justifiquem a privatização da REN e dos CTT. (...) Tenho muita dificuldade em compreender a privatização de serviços públicos como os Correios ou a REN". Manuel Alegre

"Quero juntar a minha voz à daqueles que não compreendem que se contemple a privatização de empresas que trabalham em sectores de interesse estratégico ou de interesse geral e que no fundo são monopólios que ao serem privatizados gravemente afectarão a protecção dos consumidores. Estou a falar de empresas como a REN, os CTT, a Galp. Do meu ponto de vista é errado que o Estado prescinda da posição que deve aí ter. E é igualmente errado que prescinda nestas condições em que obviamente nunca venderá por bom dinheiro". Ana Gomes

Mas depois da sua adesão definitiva ao discurso liberal (que tentou casar de forma trapalhona com com um discurso de esquerda sobre as deduções), o Governo parece estar decidido a ir mais longe e salta directamente para a propaganda da direita populista.

Para vender os cortes em despesas sociais (200 milhões) o Governo soprou para imprensa os 30 milhões que vai cortar, em tempo de crise, administrativamente, tal como o CDS/PP vem defendendo, no Rendimento Social de Inserção. O destaque que preferiu dar aos cortes no Rendimento Social de Inserção é fácil de explicar. Paulo Portas já o compreendeu há muito tempo: o ódio social vende bem. E agora quem o vende é o mesmo partido que se bateu por esta prestação.

Socorro-me de Paulo Pedroso e Pedro Adão e Silva, destacados militantes do Partido Socialista:

"No corte das prestações sociais, o Rendimento Social de Inserção tem direito a uma evidenciação especial e que lá está apenas para que o Governo do PS diga - qual Portas - que os malandros dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção também vão pagar. De facto, a despesa com os mais pobres vai diminuir em 200 milhões entre 2011 e 2013, dos quais 30 milhões serão no Rendimento Social de Inserção. Os outros 170 milhões porque não se evidencia onde são? Estigma é estigma e quem escolheu este símbolo no PEC fez uma escolha clara sobre como quer tratá-lo. Que a factura dos pobres seja tão pesada em plena crise económica e em situação de risco de crise social não consigo aceitar, nem por nada. Repare-se que em 2011 o Estado vai buscar mais aos pobres do que ao adiamento das infraestruturas e que vai, afinal e para minha surpresa, buscar a estas prestações mais do que à famosa nova taxa de IRS de 45%. (...) Hoje sinto-me particularmente feliz por não ter sido candidato a deputado nesta legislatura." Paulo Pedroso
...


De Direita no Governo; Belmiro na Presidênc a 17 de Março de 2010 às 14:05

Direita já tem primeiro-ministro e usa o nome de J.Sócrates

Em defesa do PEC, os spin doctors do Governo exploram o ódio social a desempregados e a quem recebe o rendimento mínimo. Dou voz a socialistas incomodados com a chegada de Paulo Portas ao poder.
...

"Não posso deixar de considerar chocante o plafonamento da despesa com o rendimento mínimo prevista no PEC. Há certamente muitas dimensões em que é possível (e é necessário) aprofundar a fiscalização e as condições de atribuição e renovação da prestação, mas uma coisa radicalmente diferente é fixar administrativamente, sem se perceber com base em quê, um tecto para a despesa. Fica assim provado que o programa eleitoral do PS foi uma brincadeira e que o Governo incorporou as críticas mais ferozes ao Rendimento Social de Inserção (ou seja, o que era a demagogia recente de Paulo Portas passou a ser a norma do executivo - o que, por exemplo, fere a identidade política do PS, desde 1995 com António Guterres, designadamente a prioridade ao combate da pobreza mais severa)." Pedro Adão e Silva

Na mesma linha, o Governo, mais uma vez ao bom estilo populista de Paulo Portas, passou, na defesa dos cortes no subsídio de desemprego, para a comunicação social, que há cerca de 12 mil empregos por ocupar que os malandros dos desempregados não querem.

É claro que na maior parte desses empregos, como foi dito nas notícias, se paga o salário mínimo. É claro que muitos dos empresários que se queixam gostavam de ter trabalhadores, necessariamente mais qualificados, pagos, pelo seu desespero, muito abaixo do que seria normal. E é claro que uma das razões porque temos subsídio de desemprego é, para além da solidariedade social, para impedir este tipo de exploração em momentos difíceis na vida das pessoas. É claro que em muitos casos há uma desadequação entre a oferta e à procura, como é natural.

Sim, temos de combater abusos que existam. Não, não podemos tratar os desempregados como potenciais mandriões que não querem trabalhar. Vale a pena recordar que estes desempregados são pessoas que, como nós, contribuíram durante anos, através de descontos para a Segurança Social que retiraram dos seus salários, do seu trabalho, para poderem receber o subsídio que num momento em que fiquem desempregados. Um dia poderemos ser nós.

A ver se nos entendemos: o subsídio de desemprego não é uma esmola ou um favor. É um direito pelo qual pagamos todos os meses. Devemos ser rigorosos. A entregar esse dinheiro mas também na forma como nos referimos aos que já estão na pior situação. E é claro que estamos a falar de 12 mil pessoas em meio milhão de desempregados. E é a esse meio milhão que os cortes no subsídio de desemprego vão ser aplicados. E é sobre esse meio milhão que se deixa cair esta suspeita insultuosa, apenas para ganhar uns apoios a esta medida. Mais uma vez deixo as palavras de outro (desta vez um economista que não é militante partidário), que explica melhor do que eu os perigos do populismo.




José Sócrates já lançou, para se salvar, lama sobre os professores. Lama sobre os funcionários públicos. Lama sobre os jornalistas. Lama sobre os juízes e os procuradores. Agora chega a vez dos pobres e dos desempregados. Quando chegarão os imigrantes para poder finalmente fazer companhia a Paulo Portas sem se sentir diminuído no seu populismo?



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