ASSIM VAI ESTE PORTUGAL

 

Dois extractos de um artigo de Helena Matos no Público de 18 de Março
 Apoio psicológico –
Há alguns anos, os alunos de uma universidade portuguesa resolveram integrar nas praxes a simulação do assalto a um banco. Pressurosa, a comunicação social avisava nos dias seguintes que os ditos jovens assaltantes já contavam com apoio psicológico. Desde então, a garantia de apoio psicológico não tem faltado, seja após a queda de pontes, despiste de automóveis ou o naufrágio de embarcações de pesca. Assim, quando a segurança falha ou os serviços funcionam mal, garantem-nos não investigação e apuramento das responsabilidades mas sim psicologia, como se tudo se resumisse a uma questão de comportamentos e não de responsabilidades. Prestar apoio psicológico aos cidadãos está mesmo a tomar-se na principal vocação do Estado português: numa rua onde passo todos os dias está uma sarjeta partida há mais de quatro anos. A junta de freguesia dessa zona tem gabinetes de apoio psicológico, terapia familiar, mediação familiar, formação parental, animação cultural para combater o isolamento, apoio a vítimas de violência doméstica e de bullying. Arranjar sarjetas é que não está na sua vocação e creio que no dia em que algum carro se enfie na dita sarjeta ou que a mesma cause uma inundação nos garantirão apoio psicológico e dirão que a sarjeta nos sujeitou a bullying.
Conhecimento informal

Aqueles dilemas morais sobre o que fazer quando uma determinada informação nos coloca problemas de legalidade ou honestidade são uma recordação do tempo em que os redondos vocábulos não eram lei. Agora o conhecimento formal versus o conhecimento informal permite-nos conjugar o melhor de dois mundos possíveis: tiramos vantagem do que sabemos mas não temos de assumir qualquer responsabilidade que daí advenha. O conhecedor informal não nega que conhece, simplesmente isenta-se das consequências desse conhecimento. A hipocrisia de tudo isto só é desmontada (por enquanto, mas também isso acabará) quando algo de incontornavelmente óbvio, como um cadáver, se atravanca no meio deste universo perfeito. Veja-se o caso da acta desaparecida na Escola Básica 2+3 de Fitares relatado pelo jornal i. Nessa acta devia constar a queixa de um professor de música sobre o comportamento dos alunos. Mas, na manhã de 9 de Fevereiro, o dito professor atirou-se ao Tejo e a pessoa que redigiu a acta omitiu o relato do colega sobre o que acontecia nas aulas. Aqueles que validaram esta acta optaram, tal como quem a escreveu, por ficar na segurança do conhecimento informal sem se comprometer com os aborrecimentos do conhecimento formal. A acta falava de visitas escolares e outras coisas aprazíveis que constituem o corpus do conhecimento formal. Agora, que são conhecidos os textos que o referido professor deixou sobre os vexames a que era sujeito pelos alunos, os professores exigem uma rectificação da acta, de modo a que seja incluída a queixa do professor de música. Ou seja, exigem que passe a conhecimento formal o que todos estavam fartos de saber mas que, para consolo das consciências e sedativo do dia a dia, só se conhecia informalmente. Mas agora não só a acta desapareceu como a directora do agrupamento escolar de Fitares não autoriza a sua rectificação, enquanto a escola não receber a visita do instrutor da Inspecção-Geral de Educação. Já não é apenas uma questão de conhecimento formal e informal. É sim de não reconhecimento do direito à realidade.



Publicado por Izanagi às 10:48 de 19.03.10 | link do post | comentar |

6 comentários:
De Um Professor suicidou-se a 19 de Março de 2010 às 12:42
...
Quando a antiga equipa ministerial viu os vídeos que passaram nas televisões, com crianças e adolescentes a portarem-se nas aulas como no recreio ou num circo, a insultarem e baterem nos colegas e em professoras (jovens e idosas, para as crianças isso não conta, quanto mais frágil for a vítima, tanto melhor…), negaram a evidência e tomaram por excepção o que começava a ser uma regra.

Seis mil professores pediram, no mesmo ano, a aposentação antecipada.
E, agora, um professor suicidou-se.

Se a anterior equipa ministerial estivesse em funções talvez fizesse um inquérito aos alunos do professor suicida, para apurar se estes jovens do 9º ano, com uma idade média de 15 anos, que o empurravam, lhe davam “calduços” e chamavam “cão”, não teriam ficado traumatizados pelo acto tresloucado do seu suicídio. Não hesitariam seguramente em fazer-lhe um processo disciplinar a título póstumo.

Um Professor suicidou-se.
Antes de se lançar ao rio, escreveu no seu diário: “Se o meu destino é sofrer, dando aulas a alunos que não me respeitam e me põem fora de mim, não tendo outras fontes de rendimento, a única solução apaziguadora será o suicídio”.

A anterior equipa ministerial não é a única culpada da degradação do ensino, ela é fruto da degradação da nossa sociedade e toda a comunidade tem culpa, por se demitir das suas funções e dos seus deveres.

Talvez o desespero e a morte deste Professor façam despertar as consciências e haja uma reflexão séria sobre o estado a que chegou o nosso ensino, a nossa política e a nossa sociedade.

Eu escrevo com dor e asco. Para que os Professores que sofrem ou conhecem estas situações as denunciem e que se repensem as leis e os estatutos dos Professores e dos alunos, de modo a que os Professores possam ensinar num bom ambiente de trabalho, os alunos prevaricadores possam ser punidos com severidade e os pais responsabilizados pelo mau comportamento dos seus filhos.

PUBLICADA POR DEANA BARROQUEIRO EM 04:50 http://conversacomleitores.blogspot.com/2010/03/um-professor-suicidou-se.html


De Educação Real a 19 de Março de 2010 às 12:45
DEANA BARROQUEIRO disse...

Quando se praticam reformas do ensino com intuitos meramente económicos e para ter bons resultados nas estatísticas, sacrificando uma classe profissional e a qualidade desse ensino, paga-se no futuro um preço muito caro.

O facilitismo, a diminuição do grau de exigência, o esvaziamento de conteúdos "difíceis ou trabalhosos" dos programas, as pedagogias do lúdico (tudo tem de ser um jogo),
o regime de faltas dos alunos (podem não pôr os pés nas aulas que não reprovam) a quase impossibilidade de reter um aluno, mesmo sem aproveitamento à maioria das disciplinas,
a sensação de impunidade com que esses alunos cometem as suas agressões verbais e físicas ou ostentam o seu desinteresse pelo estudo - porque sabem, como eles mesmo afirmam, "que passam de qualquer maneira" -,
tornaram o acto de ensinar, em muitas turmas e escolas, uma tarefa impossível e de terrível desgaste para qualquer professor que, em 45 m. de aula, passa 30 tentar manter a disciplina e 10 ou 15 para "dar a matéria".

A actual Ministra da Educação, ao contrário da anterior, conhece bem a realidade das escolas, "no campo" e não no papel.
Talvez ainda haja esperança, se o Governo lhe der margem para trabalhar e não a force a seguir as pisadas de Maria de Lurdes Rodrigues.
13 DE MAR DE 2010 12:42:00


De é a mesma mão ... !!! a 19 de Março de 2010 às 12:47
Rogério Pereira disse...
Minha Cara, diz a certa altura: "A anterior equipa ministerial não é a única culpada da degradação do ensino, ela é fruto da degradação da nossa sociedade e toda a comunidade tem culpa, por se demitir das suas funções e dos seus deveres."

Não posso estar mais de acordo. Lembro que

"A mão que embala o berço, governa o mundo".

A mesma mão que coloca a cruz no boletim de voto e que assina o recibo de vencimento.

A mesma que que, com um clique envia a sua declaração de IRS às finanças...

Meu Deus, como isto é tornado tão simples quando se quer explicar um suicídio.
13 DE MAR DE 2010 23:38:00


De ambiente de trabalho... a 19 de Março de 2010 às 12:51
Catarina disse...
Cheguei aqui através do Sorumbático.
Concordo com tudo o que diz.
O laxismo, o facilitismo que há muito, muito tempo se verifica na educação, aliados a todos os outros factores já mencionados, ajudam a agravar a situação.

Desacato à autoridade. Porquê? Talvez porque a “autoridade” não se dá ao respeito, não aplica as medidas punitivas apropriadas à transgressão cometida?

Relativamente ao que o comentarista Fernando Frazão diz, talvez nunca se saiba ao certo o que realmente aconteceu, quais os problemas que este senhor teve e por quanto tempo os teve.

Apenas eu não ponho em dúvida que o ambiente de trabalho em que este professor esteve inserido, não tivesse tido um grande impacto na sua decisão final. Para já tenho um grande respeito pelos professores.

Em todas as profissões há os bons, os muitos bons, os assim assim, e por aí fora... Há alguns que são bastante dedicados à sua profissão, é aquilo que mais gostam de fazer e são bons professores:
sabem ensinar, sabem transmitir conhecimentos.
Mas acontece, que nem todos têm aquela personalidade que lhes permite dominar uma classe, sistematicamente, durante todo o ano lectivo. Deve ser muitíssimo frustrante querer fazer um bom trabalho e não ter ao seu dispor as condições propícias para o fazer.

Publicamente afirmaram, por meio dos jornais, que o professor tinha uma “fragilidade psicológica”, que “era do conhecimento público”! Eu fiquei abismada! Onde está o direito à privacidade? E se a escola (suponho eu) tinha conhecimento de que algo se passava com este professor, que fez neste sentido? Proporcionou-lhe apoio? Ajudou-o de qualquer forma?
Não me admirarei se dentro de pouco tempo, quando todos os inquéritos forem feitos e analisados, cheguem à conclusão de que afinal estas vítimas foram culpadas do que lhes aconteceu ou da decisão que tomaram. E deixam de ser vítimas.

E nenhumas medidas novas serão implementadas e tudo ficará na mesma. E passado pouco tempo, “business as usual”, como os ingleses dizem.
14 DE MAR DE 2010 04:02:00


De VALORES e intervenção para MUDAR !! a 19 de Março de 2010 às 12:56
jaime maia disse...
Caros leitores, começarei por dizer, que sou totalmente contra a "pena de morte" que na circunstância, não é o que está em análise, ...Mas também não aceito de modo algum, o suicídio.

Com o devido respeito por todos aqueles que se tenham suicidado; professores ou não, ou por aqueles que já equacionaram essa hipótese como forma de fuga para os seus problemas,penso que, todos os problemas têm uma solução, e que passa sempre por formas de agir , de acordo com os conflitos existentes; nunca pela desistência.

Quantos escriturários, empregados fabris, estudantes, mulheres mal tratadas pelos seus maridos, técnicos disto ou daquilo, não sofrem e sentem a pressão dos seus chefes,maridos, colegas, por vezes mal formados, levando-os ao desespero e, não é por isso que se suicidam.

Para concluir, penso que o suicídio é uma forma de incapacidade do suicida, de conseguir gerir os problemas e as dificuldades que surgem durante o exercício das suas funções.
No caso concreto que é apresentado neste blog, acredito que se tivesse havido mais ajuda ou interesse em estender a mão ao infeliz protagonista, talvez se tivesse evitado um desfeixo tão perturbador.

...quero deixar bem sublinhado que estou plenamente de acordo, quando se diz que cada vez mais se vão perdendo os valores da ética e da moral, pilares fundamentais para em qualquer sociedade se poder evoluir e viver em Paz, Amor e Humildade, formas elementares para a evolução da Humanidade!

Algo está mal é certo, por isso devemos cada vez mais interferir em todas as áreas da sociedade em que estamos inseridos, de forma a não deixarmos que os mais fracos possam cometer este tipo de atos.

Vivemos ou não em democracia?
Não é ela precisamente que nos dá a soberania, enquanto povo, para podermos mudar as coisas! Então estamos à espera de quê ou de quem para o fazer?


De marcadores a 19 de Março de 2010 às 14:58
Vou aqui postar parte de um artigo da Médica Psiquiatra, Mestre em Psiquiatria e saúde Mental Dr.ª Ana Matos Pires e que saíu no Joranal Público de hoje:

"Bullying não significa 'violência em meio escolar', daí que me pareça forçada a relação que alguns estabeleceram entre o suícidio de um homem (professor) na Ponte 25 de Abril...

... O suícidio é um comportamento complexo que, de todo, não pode ser atribuído a um factor causal único...

.. Não existe uma taxa aumentada de suícidio nos professores por comparação com a população em geral..."


Comentar post

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO