Poder, marketing, ideologia e 'consentimento'

Stout is out

As marcas de cerveja já nos habituaram à piada brejeira fácil, como se apenas o universo de consumidores de cerveja se resumisse a homens com mentalidade machista. Mas, ocasionalmente, alguns reclames ultrapassam todos os limites do mau gosto. Foi assim com a campanha do "orgulho heterossexual" da Tagus, que deve ter agradado imenso aos skinheads do PNR, e é assim com a nova campanha da Stout.

Para publicitar a nova garrafa de abertura fácil, a Unicer lá foi buscar a piada brejeira. Nada de novo, ainda me lembro de anunciarem as primeiras garrafas de abertura fácil, da Cristal, com um reclame que exibia umas costas com um soutien e dizia "se tudo fosse tão fácil de abrir como uma Cristal...". Mas esta campanha consegue ir ainda mais longe.

Mostrando um torso (porque a cara é irrelevante) de uma mulher magra, de seios inchados pelo Photoshop, e vestida com um roupão, a Super Bock diz que "é só puxar". Melhor ainda, para que não sobre dúvidas quanto ao conteúdo da mensagem, a Super Bock esclarece que o prazer é todo meu, não fosse aquele torso feminino revelar-se como um ser capaz de ter desejo, prazer e vontade própria.

A campanha é, obviamente e acima de tudo, insultuosa para as mulheres, reduzidas a bonecas insufláveis. Mas é também insultuosa para os homens, reduzidos a Cro-Magnons que conquistam fêmeas dando-lhes uma mocada e arrastando-as pelos cabelos para a sua caverna.

 

Este é um exemplo claríssimo de como a publicidade não se limita a informar os consumidores, ao contrário do que defende a ortodoxia económica. O marketing, é uma "engenharia do consentimento", para usar a expressão de Edward Bernays, o percursor das relações públicas que esteve por detrás das campanhas que puseram as mulheres a fumar e convenceram os cidadãos dos EUA que o governo da Guatemala que ousou enfrentar a poderosa United Fruit era um alvo terrorista a abater. O marketing é, portanto, um meio de produção de ideologia, valores, concepções e representações e de criação de modas, hábitos e rotinas. Faz parte da superestrutura, para usar um termo cunhado por um velhinho barbudo cujos ensinamentos foram banidos das faculdades de economia, e serve para legitimar e perpetuar a ideologia dominante.

Assim se recalcam as desigualdades de poder entre homens e mulheres. Não há reclame com homens objecto, a la Coca-Cola Light, que anule isto.

  - Publicada por kandimba em 2010.03.01 Profunda Ignorância



Publicado por Xa2 às 00:07 de 27.03.10 | link do post | comentar |

3 comentários:
De marcadores a 29 de Março de 2010 às 10:45
Ainda mais uma achega.
O concurso "O Preço Certo".
Vejam a receita de sucesso que o popular Fernando Mendes trouxe ao formato internacional do programa.
- Escolha criteriosa das assistentes, personalizada na 'famosa' Lenka ;
- Escolha quase sempre criteriosa de as vestir/despir;
- Constantes chamadas de atenção para a sexualidade delas;
- Procura da cãmara em captar pequenos pormenores dos seus corpos quando focam os prémios - líbido;
- Vejam os olhares e sorrisos do público, quer no masculino quer no feminino;
- E, sendo um concurso com uma linguagem algo brejeira, ao modo da chamada revista à Portuguesa, nunca chega ao 'mau gosto'.
Claro que este é um produto ganhador da RTP, que até faz de 'almofada' ao Telejornal e que graças às características especiais e inteligência do do seu apresentador deveria servir de estudo nas escolas de marketing.
Um abraço!


De marcadores a 28 de Março de 2010 às 21:14
Tudo, quase tudo o que aqui se diz é verdade. Só que em publicidade o contrário também pode ser verdade.
Porque a publicidade, neste caso, são estórias/parábolas para vender. E o fundamental é que vendam o produto que está aser publicitado.
Qual é o interesse de fazer um anúncio muito 'bom', politicamente correcto, com lindas e pensantes frases e, depois, o que o consumidor lembra é a estória e não lembra o produto pretensamente publicitado? Logo não compra.
Publicidade não é arte, educação, cinema..., é vendas.
E boa publicidade é a que fvende.
Com bom gosto? Claro, se possível, mas não é fundamental.
E depois depende do consumidor. Se ele se semtir ofendido, não compra.
E imagine o amigo, que o produto que refere foi estudado para o segmento de mercado onde moram os energúmenos, machistas, broncos, que salivam quando vêm uma gaja boa e dizem palavrões, então se calhar o anúncio está bem feito porque antige o alvo, o seu target.
E isso de usar as mulheres semi nuas, com soutiens que lhes pucham as mamas para cima, saias com racha até ao pescoço, etc. acha que é exploração da ima gem da mulher? Ou é ingénuo ou anda muito distraído. Não frequenta estes ambientes oferecidos e exebicionistas da noite e da nova society.
Não concorda? Paciência. Não compra stout.
Haverá muitos que comprarão. E isso é a prova de que a publicidade estava certa independentemente do que pensamos nós dois.
Se assim não for, a Agência está despedida e a cervejeira lixada porque gastou o seu dinheiro e não teve retorno ao seu investimento.
Mas filosoficamente, estou de acordo consigo.
Mas também precisava de ter mais 20 cm de altura para disfarçar os quilos que tenho a mais.
Só que a vida é injusta e pelos vistos as gajas boas só são para quem bebe cerveja preta.


De Zé T. a 29 de Março de 2010 às 10:03
Concordo com ambos (post e comentário) e vou continuar a preferir a cerveja preta...


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