Vêr-se grego, português, europeu ou em PECado ?!

O problema grego não é o défice

 Nos últimos tempos multiplicaram-se os paralelismos com a situação política, social e económica na Grécia. Quanto às intenções estamos bem esclarecidos:

como sempre, elas visam instrumentalizar mediaticamente a contestação grega como chantagem para as mesmas prescrições de sempre, conteção salarial, redução despesa pública.

Por toda a comunicação social temos assistido a jornalistas e analistas totalmente alheados do contexto grego, ao ponto de se chegar a caír no ridiculo de tratar as amplas manifestações populares como de protestos contra o défice!...

 

A verdade é que a semelhança dos dois países, infelizmente, não se fica pela questão do défice. No plano político, o povo grego libertou-se de uma ditadura militar ("dos coroneis") em 1974 e a adesão à CEE em 1981 (5 anos antes da nossa). Nos 30 anos de liberdade apenas dois partidos têm governado entre si o país (PASOK, socialistas do centro esquerda e a Nova Democracia de direita) numa lógica do centrão muito familiar. O partido comunista grego é estalinista e o mais ortodoxo da europa. O Syriza congrega toda a extrema esquerda numa coligação eleitoral.

As revoltas de dezembro de 2008 que vimos na TV aconteceram, essencialmente, devido a 3 problemas da sociedade grega.

 

 1- O assassinato de um jovem de 15 anos, Alexis, por parte da polícia grega. No bairro de Exarchia, em Atenas, onde vive uma comunidade com muitos estudantes e artistas, de anarquistas e de muita gente de esquerda, a brutalidade da polícia é quotidianamente implacável.

São efectuadas rusgas e detenções sem mandato ou razão. Apenas porque ali vive muita gente que pensa e que critica e coloca em causa a ordem (podre, diria) instalada. Assim, a policia exerce a sua função de controlo e vigilância da população.

Quando lá estivemos, em Janeiro de 2009, numa manifestação de estudantes universitários a polícia prendeu 40 pessoas que se encontravam num mercado umas horas após a manifestação ter terminado. Agrediram e prenderam elementos do corpo de advogados da manifestação e vários médicos que acorreram em auxilio das pessoas agredidas pela polícia (o mercado era em frente a um hospital).

A pretexto dos jogos olimpicos de Atenas, foi aprovado uma lei "anti-terrorista", prevista a nível europeu, que permite às forças de segurança deter qualquer pessoa por 48h sem a minima suspeita. (A Dinamarca também aprovou essa lei nos meses anteriores à cimeira do COP-15, já prevendo os protestos e usou-a para prender vários activstas). É dificil de perceber como as forças policiais têm permissão para estes abusos, no seculo XXI e em plena União Europeia.

 

2- A reforma que pretendia ser levada a cabo pelos socialistas gregos no ensino superior (e que foi impedida pelos protestos), que terminava uma alinea constitucional que proíbe a entrada da polícia e exército no espaço das universidades. É preciso perceber o que isto vale simbólicamente: o movimento estudantil grego está melhor organizado que o movimento operário e, históricamente, foi fundamental no combate à ditadura militar. Nesse tempo, as faculdades (Belas Artes é o maior exemplo) era o centro da contestação.

Retirar esta salvaguarda constitucional de independencia do meio universitário, simboliza a rejeição do mérito da luta estudantil na conquista da liberdade e significa a vontade do governo de impôr reformas pela força e não democraticamente. As manifestações que nos chegaram pela comunicação social tiveram origem na luta dos estudantes contra esta reforma constitucional, a que mais tarde se juntaram os protestos contra a violência da policia.

 

3- A juventude grega tem um futuro sombrio. Ficou-me uma ideia em conversa com um dirigente estudantil: "nós somos a primeira geração que terá uma vida pior que a dos seus pais". Como a nossa, a precariedade é também uma condição da juventude grega. Como em Portugal, também foram despejados biliões para a banca. Lá, como aqui, as medidas de "austeridade" preparam-se para congelar os salários dos mais pobres dos trabalhadores da europa. É deprimente e demagógica todos aqueles que têm tentado apropriar-se dos protestos gregos, descontextualizando-os, tentando dessa forma sustentar as mesmas politicas de congelamento de salários e de privatizações (previstas no nosso PEC) e contra as quais os gregos se estão a manifestar

 - Publicada por Zé Miranda em 2010.03.09, Profunda Ignorância


MARCADORES: , , ,

Publicado por Xa2 às 00:05 de 28.03.10 | link do post | comentar |

2 comentários:
De DD a 28 de Março de 2010 às 21:13
1- O assassinato de um jovem de 15 anos, Alexis, por parte da polícia grega. No bairro de Exarchia, em Atenas, onde vive uma comunidade com muitos estudantes e artistas, de anarquistas e de muita gente de esquerda, a brutalidade da polícia é quotidianamente implacável.

São efectuadas rusgas e detenções sem mandato ou razão. Apenas porque ali vive muita gente que pensa e que critica e coloca em causa a ordem (podre, diria) instalada. Assim, a policia exerce a sua função de controlo e vigilância da população.

Quando lá estivemos, em Janeiro de 2009, numa manifestação de estudantes universitários a polícia prendeu 40 pessoas que se encontravam num mercado umas horas após a manifestação ter terminado. Agrediram e prenderam elementos do corpo de advogados da manifestação e vários médicos que acorreram em auxilio das pessoas agredidas pela polícia (o mercado era em frente a um hospital).

É evidente que em Portugal não há nada de semelhante. Assistimos a marchas de protesto de centenas de milhares de professores e de funcionários públicos e estudantes e não houve proibições, cargas policiais ou qualquer tipo de confronto com a autoridade.

Após esse período de grandes protestos, tivemos eleições e o PS voltou a ganhar as eleições, perdendo a maioria absoluta.

Na Grécia, o partido da direita perdeu as eleições após os grandes confrontos e o Pasok não está em condições para distribuir benesses a todos.

A Grécia tem como fonte principal de rendimentos o turismo e a sua enorme marinha mercante. Esses dois sectores atravessam uma profunda crise a nível mundial e a fuga ao fisco na Grécia é muito maior que em Portugal. A realidade é que as empresas não estão tão em crise como o Estado. Muitos dos estudantes que protestavam e muitos intelectuais estão ligados familiarmente às centenas de milhares de empresas que exploram o turismo como lojas, restaurantes, hotéis, navegação para as suas muitas ilhas, etc. e quase não pagam impostos. Não têm a consciência que nada se pode obter sem que os contribuintes entrem com as verbas necessárias.

A Grécia é, como Portugal, o segundo país com maior número de habitações da Europa, nomeadamente segundas casas nas ilhas. Muitas famílias conseguem um rendimento extra com o aluguer dessas casas nas ilhas e não declaram esses rendimentos e é curioso que a posse das segundas casas não se limita às classes ricas e médias como abrange largamente as classes de cidadãos de rendimentos mais baixos que deixaram a sua ilha para irem trabalhar para Atenas e Salonika, conseguindo um pequeno pecúlio para manterem em boas condições a segunda casa que é alugada ou utilizada em períodos de férias pelos proprietários.

Tal como a Portugal, falta à Grécia uma indústria moderna e uma agricultura mais próspera.

Por outro lado, a Grécia, ao contrário de Portugal, gasta muito mais dinheiro com a defesa devido à presença contínua da ameaça da Turquia que reivindica como suas muitas das ilhas gregas habitadas apenas por gregos. Os turcos continuam a não aceitar que um território, seja qual for, pertence à sua população e não a outra que pode estar próxima mas não habita nem ocupou alguma vez um dado território.


De Talvez um dia suceda a revolta a 28 de Março de 2010 às 15:02
Tudo isto, cá como lá, não passa de malabarismos e manigâncias, por parte dos mafiosos especuladores financeiros que ainda não vai meia dúzia de anos diziam que a economia grega era um exemplo de crescimento económico, como o disseram dos chamados oásis emergentes asiáticos os famosos "tigres" lembram-se?

Estes "gurus" que se pavoneiam por tudo quanto é sito luxuoso, desde Davos a Washington continuam a não querer perceber (porque lhes não convém) que a essência do(s) problema(s) é/são o(s) desequilibrio(s) económico e sociais dentro das empresas, em cada país e no planeta. Enquanto, numa mesma sociedade se permite que “coabitem” cidadão a receber de remunerações anuais vários milhões ao lado de gente a morrer de fome não haverá, não poderá existir economia que resista.

Talvez um dia suceda a revolta dos “porcos, sujos e maus”.


Comentar post

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO