Quarta-feira, 31 de Março de 2010

Com algum atraso e com a sua autorização, aqui vai mais um "Estranho quotidiano", traduzido por J.L.Pio Abreu em mais uma das suas crónicas ("O mercado"), publicadas no DESTAK.

O Mercado

"O leitor já alguma vez jogou na bolsa?   Duvido que agora o faça, mas é possível que tenha cedido à tentação num momento em que todos ganhavam com isso (um "bull market"). Seguramente, andou um pouco ganancioso enquanto tudo corria bem, mas acabou por perder porque outros mais gananciosos o fintaram.

Dizem que o Mercado é o lugar onde os interesses dos cidadãos se equilibram harmoniosamente, mas não é. Apenas uma minúscula parte dos cidadãos opera directamente no Mercado. De todos, são os mais gananciosos e truculentos. São mestres do ofício de dar mais dinheiro a quem já o tem, a começar por eles próprios.

Os agentes do Mercado podem convencer-se que trabalham para fundos de pensões, dando ganhos aos reformados e aforradores que neles confiaram. No fundo, porém, estão a pensar na sua extravagante comissão. Arriscam tudo e arriscam, sobretudo, o dinheiro dos outros, sabendo que o mais que arriscam, da sua parte, é o despedimento com uma choruda indemnização. Nunca ficam pobres como aqueles que fazem empobrecer.

A população trabalhadora e pacífica sempre se sujeitou aos invasores e cúmplices locais que, sendo minoritários, eram suficientemente agressivos para imporem a sua lei gananciosa. Com a democracia, pensámos que nos livrávamos deles. Mas não. A minoria agressiva disfarça-se hoje de agentes do Mercado. Com grande sofisticação, destroem pessoas, empresas e nações. Poderão os políticos democratas lutar contra eles? Talvez não. O mais que podem, tal como dantes, é fazer acordos e enviar sinais para os acalmar". [J. L. Pio Abreu]

 - Postado por RN em 31.3.2010, O Grande Zoo



Publicado por Xa2 às 08:05 | link do post | comentar

2 comentários:
De 'milagre' neoliberal ... e pulgas-ratos a 31 de Março de 2010 às 11:34
O milagre irlandês

Li no site do Le Monde:
"O PIB irlandês teve uma queda histórica de 7,1% em 2009."

Lembrei-me da papagaiada neoliberal a dar-nos, ano após ano, o exemplo irlandês, para que nos portássemos bem, para que apertássemos os cintos.

Ouço, agora, divertido o silêncio ensurdecedor dos nossos mais sábios economeses da Neoliberália.

Mas o sorriso apaga-se, quando me lembro que é esse rebanho de idiotas que nos continua a indicar um caminho alegadamente tributário de uma imaginária ciência económica, que diga-se de passagem não tem nada a ver com tudo isto
-por RN , 26.3.2010 Grande Zoo
-------------------
Pulgas aflitas

Saltitam de desespero em desespero, carpindo um país cuja morte iminente auguram, sufocados. Usam gravatas de um azul doce e o fato é de um cinzento discreto, que quase pede desculpa por ser cor.
O olhar é liso como um gato morto, como um lago parado e sem destino. E o ar é grave. Muito grave.

O país sai-lhes da boca como uma tragédia sem remédio.
Se tivesse salvação, eles pediriam um salvador. Rigorosos, desembucham os números da nossa desgraça. A bem dizer, se o destino não tivesse sido para nós de uma bondade excessiva, há muito que teríamos deixado de existir.

Pulgas aflitas da história uivam como se uma agonia sem fundo as possuísse de tristeza.
Em melodia, vão dizendo:

o país só se salva se os POBRES deixarem de ser gastadores, se apertarem um pouco mais o cinto, se deixarem espremer ainda um pouco mais os salários.

Têm que deixar os RICOS enriquecer um pouco mais, para que com a sua infinita bondade salvem o país.
É preciso levar o pescoço à guilhotina e deixá-lo cortar e deixá-lo, cortar e deixá-lo cortar.

Pulgas aflitas, pulgas amestradas, pulgas PAGAS. Bem pagas, para deixarem comichões de desgraça em cada raio de futuro, em cada assomo de esperança, em cada ímpeto de resistência.
Pulgas realistas solidamente apetrechadas pela ciência de todos os números.
Pulgas anafadas, sem rugas, sem fome.
Pulgas de hotéis de cinco estrelas, sempre vigilantes.

Os desgraçodontes ruminam todos os nossos dias como se fossem os últimos. Choram. Levam-nos para o purgatório liso do talvez.

Portugal vai acordar amanhã. Olhará decerto com a bonomia possível para o corpo cansado das pulgas aflitas e pô-lo-á no museu, num museu de história natural.

Mas , entretanto, fazem comichão.
Postado por RN


De Zé T. a 31 de Março de 2010 às 12:12
Bom artigo...
mas discordo do final :
«...Poderão os políticos democratas lutar contra eles? Talvez não. O mais que podem, tal como dantes, é fazer acordos e enviar sinais para os acalmar". »

Os democratas (e aqueles que menos têm, os pobres, desempregados, reformados, classe média baixa, ...) devem lutar por uma vida melhor para a maioria, para a comunidade-nação.
E não devem esquecer, nunca, que:
«se não lutarem, já perderam; ... se lutarem, poderão perder ou poderão ganhar » alguma coisa, pelo menos.


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