De Cidadão e Historiador a 31 de Março de 2010 às 17:08
Um domínio historiográfico de 130 anos
por JOSÉ MATTOSO, Historiador


É impressionante o facto de a História de Portugal de Herculano ter permanecido como uma obra que dominou o medievalismo português durante cerca de 130 anos. Este facto representa talvez mais o nosso atraso historiográfico do que o valor (inegável) da obra. É uma das manifestações mais claras da dificuldade com que se impôs entre nós a historiografia científica.
Com efeito, sem negar o talento de Herculano na reconstrução dos factos a partir dos indícios documentais devidamente seleccionados e criticados, tem de se reconhecer que muitas das suas concepções de base são contestáveis. Por exemplo, o igualitarismo social dos concelhos. De resto, confundindo a história social com a história institucional e ignorando o sentido feudal do exercício do poder, propõe interpretações inaceitáveis de alguns factos, das cartas de foral e de outros textos jurídicos. As suas ideias municipalistas, no entanto, permaneceram até perto da nossa época como justificação de concepções políticas em termos de descentralização do poder estatal. Na História da Inquisição dá largas a um anticlericalismo faccioso.

Não se pode negar, no entanto, o valor literário da obra de Herculano, nomeadamente dos seus romances e narrativas históricas. É preciso também recordar a importância dos Portugaliae Monumenta Historica, que permanece o mais importante conjunto de fontes medievais portugueses até hoje publicado. Iniciado em 1856 (o mesmo ano em que saiu o último volume da História de Portugal) foi por ele dirigido até 1873, e, depois disso, continuado sob a responsabilidade da Academia das Ciências, mas de forma muito irregular, tanto do ponto de vista crítico como do ponto de vista da selecção das fontes.


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