A classe média e a estabilidade social

A classe média e a estabilidade social

"Numa sociedade em que cada um tenha algo a guardar e pouco a tomar, será difícil a ocorrência de revoluções violentas" (A. Tocqueville). Para o autor de A Democracia na América, nas sociedades democráticas, em comparação com as velhas aristocracias, os pobres seriam em pequeno número e, além disso, não estariam "ligados por laços de uma miséria irremediável e hereditária, enquanto que os ricos, além de pouco numerosos, não permitem que os seus privilégios atraiam os olhares..." (Idem).

Esta noção de "classe média", relativa à pequena burguesia proprietária dos EUA do século XIX, mudou profundamente ao longo do século XX. Nas sociedades industrializadas do Ocidente, e na Europa em particular, a importância social e política da "nova classe média assalariada", sobretudo a partir da II Guerra Mundial, conferiu-lhe um outro significado, relacionando-a não só com o fenómeno da "mobilidade social" mas também com o papel do Estado. Porém, a relação directa entre a "classe média" e a "luta de classes" - ou, para usar uma linguagem menos conotada, o conflito estrutural - tem permanecido ao longo dos tempos. Enquanto o progresso económico (e tecnológico) pareceu infindável, pensou-se que o crescimento dos white collar seria igualmente ilimitado. No sector privado ou à sombra do Estado social, o imparável reforço da classe média era a garantia da coesão social. Quanto maior a classe média menor a conflitualidade. Isto porque a mobilidade social não se refere apenas a trajectórias de "subida", mas cria a ilusão de subida.

Em Portugal, não obstante a comprovada pequenez da classe média, as subjectividades colectivas trataram de a ampliar artificialmente. Assim, a nossa história recente diz-nos que, mais do que as oportunidades oferecidas aos que tinham "mérito", a mobilidade inseriu-se nos processos de rápida recomposição da estrutura social - sobretudo enquanto foram precisos novos profissionais para alimentar o sector público -, gerando o chamado "efeito escada rolante". Se a família X se via a si mesma em processo de subida era porque se comparava com a condição de origem (ou dos seus antepassados), isto é, era mais fácil ver quem estava para trás do que "os de cima", embora estes subissem a um ritmo igual ou maior. Apesar de tudo, os movimentos ascendentes, se bem que "de curto alcance", tiveram algum significado até ao início da década precedente. Sendo subjectivamente ampliados, funcionaram como ideologia adaptativa, e com isso contribuíram para a relativa estabilidade social. Inseridos nas camadas mais baixas da classe média, esses sectores puderam sonhar com o conforto de um status de pequena burguesia acomodada e consumista. Mas, verdadeiramente, nunca consolidaram a sua posição, antes se viram rapidamente estrangulados com tanta dívida, e estão hoje à beira de um novo "deslizamento" para as franjas dos estratos mais baixos da sociedade. Com a agravante de terem ampliado os índices de privação relativa (e, portanto, o descontentamento e potencial revolta).

Enquanto os estratos superiores funcionaram como "classe de serviço", sendo recompensados pelo seu papel de apaziguadores da conflitualidade (e de veículos da ideologia tecnocrática), os estratos "médios-baixos" não passaram de "zonas tampão" de carácter transitório. É verdade que o estatuto da nova classe média também resultou de conflitos. As lutas sindicais na área da educação são apenas um exemplo disso, entre outros. Todavia, se até recentemente essas lutas foram sobretudo de natureza corporativa, é possível que no futuro elas aumentem em amplitude e intensidade. Se a pobreza no nosso país não é propriamente um fenómeno raro, no actual quadro de crise económica e de fortes medidas de austeridade, com o congelamento de carreiras e remunerações, os ataques à administração pública, o crescimento do desemprego e da precariedade, em suma, com o recuo do sector público todos estes segmentos saem fortemente penalizados. Pode, por isso, ser desastroso pôr a classe média a pagar a factura da crise ou fazer aprovar um PEC que a toma como seu alvo principal. Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

 

- por Elísio Estanque, em jornal Público, 10-04-2010 , via http://www.caocomotu.net/ 11.4.2010



Publicado por Xa2 às 00:07 de 16.04.10 | link do post | comentar |

5 comentários:
De Ribeiro a 25 de Outubro de 2010 às 19:08
INFELIZMENTE só após me ter cheagado a factura é que pesquisei o número. Meu Deus, para alterar um voo, a TAP cobrou-me 65,00€ e ainda Lucrou mais 3..40€ pelos LONGOS 28 MINUTOS que me fez passar ao telefone até conseguir o meu desidrato. VÃO ROUBAR PARA A ESTRADA...


De Ribeiro a 25 de Outubro de 2010 às 19:07
INFELIZMENTE só após me ter cheagado a factura é que pesquisei o número. Meu Deus, para alterar um voo, a TAP cobrou-me 65,00€ e ainda Lucrou mais 3..40€ pelos LONGOS 28 MINUTOS que me fez passar ao telefone até conseguir o meu desidrato. VÃO ROUBAR PARA A ESTRADA...


De Ressaca a 16 de Abril de 2010 às 10:50
Exemplos da e na GALP:
Uns gananciosos, estes trabalhadores
A Administração que suga quase três por cento dos lucros da Galp nos seus próprios salários e benefícios acusa os funcionários de falta de solidariedade por quererem um aumento.
Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
9:00 Terça-feira, 13 de Abril de 2010
A Galp propôs aos seus funcionários um aumento de 1,5 por cento. Os trabalhadores vão fazer uma greve. O presidente do conselho de Administração, Ferreira de Oliveira, acusou os trabalhadores de "falta de solidariedade para com o futuro da empresa".
Alguns dados:
1 - Ferreira de Oliveira recebeu, em 2009 , quase 1,6 milhões de euros, dos quais mais de um milhão em salários, 267 mil em PPR, quase 237 mil euros de prémios de desempenho (mais de 600 mil em 2008) e 62 mil para as suas despesas de deslocação e renda de casa. É um dos gestores mais bem pagos deste país.
2 - Os sete administradores da empresa (ex-ministros Fernando Gomes e Murteira Nabo incluídos) receberam 4,148 milhões de euros. Mais subsídio de renda de casa ou de deslocação, no valor de três mil euros mensais. Os 13 administradores não executivos receberam 2,148 milhões de euros. Entre os administradores não executivos está José António Marques Gonçalves, antigo CEO da petrolífera, que levou para casa uma remuneração total de 626 mil euros, incluindo 106 mil de PPR e 94 mil de bónus. No total, os 20 gestores embolsaram 6,2 milhões de euros, 2,9% dos lucros da companhia.
3 - Os trabalhadores pedem um aumento de 2,8 por cento no mínimo de 55 euros. Perante estas exigências de aumento, a administração que recebe estes salários diz que, tendo sido estes dois últimos dois anos "de crise", elas são "impossíveis de satisfazer".
4 - A Galp não está em dificuldades. Os lucros ascenderam, no ano passado, a 213 milhões de euros. No ano anterior foram de 478 milhões de euros. A empresa vai distribuir dividendos pelos accionistas. Mas ao contrário do que tem acontecido nos últimos cinco anos os trabalhadores ficam de fora. "Não é possível distribuir resultados que não alcançámos", diz Ferreira de Oliveira, que, tal como o resto da administração, não deixou de receber o seu prémio pelos resultados que não alcançou.
Os factos comentam-se a si mesmos. Por isso, ficam apenas umas notas:
A administração que suga (com uma grande contribuição do seu CEO) quase três por cento dos lucros de uma das maiores empresas nacionais acusa os trabalhadores de falta de solidariedade por quererem um aumento de 2,8 por cento. E que a greve "não defende os interesses nem de curto nem de longo prazo dos que trabalham e muito menos dos que aspiram a vir a trabalhar" na Galp.
De facto, ex-ministros pensarão duas vezes em escolher aquela empresa para dar conforto à sua reforma se os trabalhadores receberem 2,8 por cento de aumento. De facto, um futuro CEO que precise de receber mais de sessenta mil euros para pagar a sua renda de casa e deslocações (que um milhão nem dá para as despesas) pensará duas vezes antes de aceitar o cargo se os funcionários que menos recebem tiverem um aumento de 55 euros mensais. De facto, gestores que recebem prémios por "resultados não alcançados" não aceitarão dirigir uma empresa que distribui dividendos quando os lucros baixam.
A ganância destes trabalhadores desmoraliza qualquer homem de negócios mais empenhado. Assim este País não vai para a frente. A ver se os trabalhadores da Galp percebem: todos temos de fazer sacrifícios.


De Zé T. a 16 de Abril de 2010 às 12:12
palavras para quê ?! ... é + um 'gestor/ administrador' 'portugalês' a sugar / vampirizar a empresa, os trabalhadores, os consumidores, o Estado e a economia deste 'rectângulo futebolês' !!


De Burlas e prémios de gestores !! a 16 de Abril de 2010 às 09:41
CUIDADO COM O NÚMERO DE TELEFONE DE APOIO AO CLIENTE TAP

Este é o nº de telefone de apoio ao cliente da TAP 707205700. Cuidado.
Mal estabele a ligação está a pagar e bem. PAGA... mesmo que não seja atendido. E pode estar longos minutos sem saber no que se mete.
Caí na armadilha mas NUNCA MAIS, meus senhores.
Precisei confirmar o código de uma reserva on line da TAP e nunca pensei que aquele liga e desliga com uma gravação de fundo, informando insistentemente que estava na lista de espera do atendimento, atingissem o montante de uma passagem aérea Funchal/Lisboa num voo da Easy Jet.

A taxa telefónica aplicada a este número do cliente TAP é um escândalo, ainda por cima quando, na maioria das vezes, para não dizer quase todas, não somos atendidos, nem à primeira, nem à segunda, nem à terceira, etc, etc. A linha está alegadamente sempre ocupada o que faz com que o cliente repita e repita e pague e pague.

A defesa do consumidor anda a dormir. Os partidos, também. Andamos todos anestesiados. Tontos. Parvos e Imbecis. Aceitamos esta porcaria toda sem pestanejar, como se fossemos condenados por uma mão invisível que nos amarfanha.
Já fiz todos os actos de contrição que tinha a fazer. E não tenho de fazer mais nenhum "Mea Culpa" a não ser que me cale. Acho que chegou a altura de fazer alguma coisa. A denúncia é pouco. A isto chama-se roubo. Mesmo que esteja regulamentado (dá-me vontade de rir este verbo: regulamentar!), um serviço destes - marcação de viagens, informações de voo, devem ser disponilizados gratuitamente pela companhia. Ninguém lhes pediu. Foi ela que o criou para melhorar a relação com o cliente. Uma ova! Criou foi mais uma fonte de receita.

Volto a repetir o número: 707 205 700.
E não se esqueçam que, afinal, este não é um número de prestação de serviços gratuito.
É uma linha de solidariedade para ajudar ao pagamento dos prémio de desempenho dos gestores das duas empresas públicas: TAP e PT.
Etiquetas: nª de apoio ao cliente 707205700, TAP

# posted by Lília Bernardes, em PuxaPalavra, 15.4.2010


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