Sem palavras. A bem da situação

Num tempo muito antigo as frases tinham sujeito, predicado e complemento directo. A presente realidade portuguesa criou-nos uma outra forma de falar em que umas pessoas alegadamente praticam umas acções que jamais se provam, sendo que essas acções, sem responsáveis nem beneficiários identificáveis, acabam invariavelmente a prejudicar o país em milhões de euros. Ou seja, na vida de todos nós diz-se que o João comeu o bolo, a Maria comprou um carro, etc. Na vida pública e política, e quando os euros se começam a contar por milhões, as frases não só deixam de ter esta ordem como se aboliu a voz passiva. Assim, se é válido concluir que se a Maria come o bolo, logo o bolo foi comido pela Maria, jamais se pode dizer que sendo A acusado de corromper B, B teria de ser corrompido por A. Igualmente na vida política se aboliu o complemento indirecto. Na nossa vida é claro que quem dá ou paga, dá ou paga uma coisa a alguém. Assim, as criancinhas aprendem que o Luís pagou o livro ao Miguel. Mas se em vez do Miguel e do Luís se tratar de dinheiros públicos, pagando campanhas partidárias, campos de golfe ou pareceres em vez de livros, quem paga nunca assume que pagou e quem recebe raramente é identificável.

 

Assim, sem passiva nem complemento indirecto chegamos ao desaparecimento do determinativo. Por outras palavras, toda a gente diz que cumpre ordens mas nunca se percebe de quem. A transposição da nossa perversão moral para a forma como nos exprimimos levou ainda a que o complemento circunstancial de lugar se tenha tornado num caso de polícia: actas de contratos desaparecem de edifícios públicos sem que alguém perceba como. Ou seja, uma empresa ou um pobre condomínio tem de ter um livro de actas. Mas as actas dos grandes negócios do Estado, como compras de material militar, ou até as decisões do Conselho de Estado sobre a descolonização, essas desapareceram e desaparecem de edifícios oficialmente seguríssimos e vigiadíssimos sem que ninguém explique como foi possível.

 

Neste ficar sem palavras nem sintaxe se encerra grande parte do nosso presente drama: o que acontecerá se nomearmos aquilo que nos rodeia? Sem palavras nem frases sempre vamos sobrevivendo.

 

Público

 


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Publicado por Izanagi às 09:00 de 16.04.10 | link do post | comentar |

16 comentários:
De DD a 16 de Abril de 2010 às 19:47
A Justiça quer levar a tribunal uns administradores da Taguspark por corromperem o Luís Figo no sentido de este aparecer numa campanha do PS, mas não têm a coragem de acusar Figo de ser igualmente corrupto.
Ora, só pode haver quem corrompa se houver corrompido ou a lógica é uma batata.
A justificação peregrina de que Figo não sabia que a Tagusparque é uma empresa pública é mesmo de juízes estúpidos a julgarem que toda a gente é estúpida.
Em direito algum há desculpa para o desconhecimento, mas os juízes falam em financiamento ilegal do PS, o que aconteceria com a Tagusparque pública ou privada.
Se o Figo tomou o pequeno-almoço com o Sócrates a troco de dinheiro, foi comprado e tratou-se de um financiamento ilegal da campanha do PS. Se o fez de livre vontade na completa independência de uma contrato publicitário, então não há corruptores nem corrompido. Saliente-se que Figo é imagem de muitas campanhas publicitárias.

Agora falam também numa eventual compra da TVI pela Tagusparque e na continuação do crime de a PT comprar 35% da TVI. Crime de "atentado ao Estado de Direito", o que nunca podia ser praticado no âmbito de um estudo feito por dois administradores de uma empresa que é maioritariamente privada, apesar da participação do Estado.


De DD a 16 de Abril de 2010 às 21:43
Em direito algum não há desculpa para o desconhecimento....


De Zé das Esquinas o Lisboeta a 17 de Abril de 2010 às 09:26
Evidentemente. Certissimo.
Perdeu-se a noção de idoneidade que estava inerente a determinado exercício de funções.


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