Abril: vulcão e cinzas ...

...

 Nas últimas décadas houve e continua a haver retrocessos e inúmeras restrições e distorções ao sistema democrático. A defesa da liberdade permanece. Mas os seus contornos tornaram-se menos nítidos. Regressaram as carências básicas (e o desemprego) e perderam-se de vista os valores e a ética democrática. O próprio humanismo está sob ameaça. A cidadania plena é, para milhões de cidadãos, uma falácia.

O panorama de crise que hoje se vive só vem sublinhar estas deficiências.  

 ... 

Hoje em dia começam a surgir na Europa novas teorizações acerca do hibridismo entre democracia e autoritarismo (Michel Camau, 2009), ou seja, as democracias liberais sofrem enormes pressões das oligarquias, dos interesses privados, de poderosas organizações que operam na sombra pervertendo os valores éticos à custa do atrofiar constante da esfera pública e corroendo a acção das instituições democráticas.

 

As decisões são-nos impostas sob processos top-down e prescinde-se dos mecanismos de diálogo e de consensualização. A cultura dos “tecnoburocratas” (e nepotistas) lança sobre todos os activismos o estigma da ineficiência, do idealismo e até do conservadorismo, combatendo as vozes que insistem em reivindicar a participação ou exigir decisões colegiais (veja-se o que está a acontecer com a gestão das escolas e das universidades... e das empresas participadas).

O pluralismo e o debate de ideias era um requisito da cidadania. Mas hoje é letra morta.

A ética republicana, com tanta tradição na Europa e nas correntes sociais-democratas, não passa de um slogan sem significado. Quem pretender pô-la em prática não só é objecto de escárnio como corre riscos de ver a vida dificultada.

 

As sementes de Abril medraram ou apodreceram. O Abril da utopia socialista já desapareceu há muito.

O Abril da igualdade foi combatido desde a primeira hora, e a que existiu apenas durou escassos momentos.

«A paz , o pão, saúde (, a Justiça)... só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir...», essas notas voluntaristas da célebre canção do Sérgio Godinho (e J.Mário Branco, Fausto, Zeca Afonso, ...) continuam a fazer sentido, ... Aqueles cravos vermelhos, pousados em paz nos canos das G3 dos soldados, brilharam num radioso dia se Sol, enquanto o 25 de Abril de 2010, é ... cinzento. É a metáfora dos dias que correm.

Não precisamos de novos amanhãs que cantam, nem da promessa de um Sol que brilhará para todos...

Mas mantemos a certeza de que a história não chegou ao fim.

E, como dizia o Chico, haverá por aí alguma semente esquecida no canto de um jardim...

Elísio Estanque – Boa Sociedade     ''35 anos de democracia - 25 de Abril cinzento...''



Publicado por Xa2 às 00:07 de 25.04.10 | link do post | comentar |

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