De Regabofe ? para quem ?! a 23 de Abril de 2010 às 15:48
Isto foi um regabofe?
Por João Rodrigues, Arrastão

A selectiva pressão dos mercados financeiros ainda liberalizados reforça a posição dos que falam como se tivesse ocorrido um regabofe salarial nos últimos anos em Portugal. Isto diz muito sobre as pessoas que difundem esta tese e muito pouco sobre a economia portuguesa. Geralmente, quem fala sobre custos salariais “excessivos” e defende a necessidade de cortar salários faz parte da bem remunerada elite económica portuguesa e cai no erro de pensar a olhar para o umbigo. É que estamos num país onde cerca de 40% dos trabalhadores leva para casa 600 euros líquidos ou menos. Este discurso traduz o enviesamento, o autismo social, típico de sociedades desiguais e que se manifesta, como o Daniel Oliveira já várias vezes notou, noutras assimetrias discursivas: angústia opinativa pela limitação dos regressivos benefícios fiscais, que vai ser travada pelo bloco central em formação, e relativa indiferença face aos tectos, geradores de pobreza, para as prestações sociais.

Enfim, em Portugal, a evolução geral dos salários reais tem andado alinhada com a evolução da produtividade, como é suposto, mas essa média disfarça o aumento do leque salarial, ou seja, o aumento das desigualdades salariais. Fragilizem os sindicatos e a negociação colectiva e aumentem a precariedade com pacotes laborais sucessivos e ficamos trancados nisto: “Uma medida da relação entre os 10% melhor e pior remunerados revela que os primeiros ganham 5,3 vezes mais que os segundos em 2006. Portugal era o segundo país da UE onde este desnível era mais acentuado, vindo depois da Letónia. Em comparação, na Dinamarca (o país com maior igualdade) este indicador era de 2,3.” Os resultados económicos destes “incentivos” são magníficos, já se vê.

De resto, o estudo da CGTP – Os salários, as políticas macroeconómicas e as desigualdades – é um exemplo de sensatez: a economia sacrificial que se reforça, assente na compressão do poder de compra dos salários, reduz a procura interna. Esta tarefa é facilitada pelo aumento do desemprego, pelo discurso dominante e pelas modificações previstas no subsídio de desemprego e nas políticas sociais. Dado que este fenómeno é comum aos países europeus, numa verdadeira economia de baixa pressão salarial e de erosão do Estado social, o resultado perverso está à vista num ciclo vicioso que junta estagnação económica e regressão social: é a economia que corta pernas, para recorrer à apta expressão de Rui Tavares. O mercado interno europeu não parece grande saída para as nossas exportações. A UE está institucionalmente desenhada para favorecer esta desgraça. Isto não é teoria da conspiração, mas o resultado de uma análise crítica das estruturas de constrangimento que foram criadas e que têm de ser reformadas.


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