O Senhor Inquisidor Mor

             Se a Santa Inquisição não tivesse sido banida, o senhor Inquisidor Mor era cardeal do Santo Ofício com o seu ar seráfica de quem sabe de antemão que o crime de saber existe e só o fogo pode purificar a sociedade daqueles que sabiam que a Terra gira em torno do Sol, entenda-se o fogo em que o prevaricador deve ser queimado lentamente para que do inferno oiçam os seus gritos e venham buscá-lo para a figueira eterna. Mas, se a PIDE ainda existisse, o Inquisidor seria inspector-chefe com a missão de provar aquilo que o chefe sabe que sabe e se fosse alemão dos anos trinta seria um Obergauleiter da Gestapo destinado a demonstrar que determinada personagem sabe que tem sangue judeu e, como tal, não pode deixar de ir para a Câmara de Gás. Se, pelo contrário, fosse russo, teria encontrado provas de que todos os bolcheviques que fizeram a Revolução de Outubro, à excepção do José, não passavam de traidores porque sabiam que o que o José sabia que não deviam saber.

 

            Mas, chamemos-lhe simplesmente Inquisidor porque é numa Comissão de Inquérito ou Inquisição que funciona e aí esforça-se por confirmar um crime de bruxaria tentada, o Primeiro-ministro tinha de saber aquilo que não aconteceu e deve ser condenado em público.

 

            O senhor Inquisidor Mor, de nome João Pedro Furtado da Cunha Semedo, agarrou-se ao trabalho que é como dizer aos livros e aos papéis. Não quer voltar a sofrer a derrota de não ter conseguido provar que Victor Constância merecia a fogueira lenta no Largo de S. Domingos. Em vez disso, foi nomeado vice-cardeal no Vaticano do Euro na cidade de Francoforte, isto a propósito de um confesso muito bem tratado pelo senhor Inquisidor, um tal Oliveira e Costa, que foi ouvido com muita paciência a falar dos livros que lê e da música que ouve. Segundo o senhor Inquisidor, o confesso merecia todos os santos perdões se tivesse demonstrado que o vice-cardeal merecia a fogueira. Não aconteceu assim, o confesso vai a tribunal e daqui a dez ou vinte anos, se ainda estiver entre os vivos, ouvirá a sentença, pois parece que os senhores da Justiça já não acreditam que os mortos possam ouvir seja o que for e dão então por terminado o processo com o fim da vida do prevaricador não confesso.

 

            É um tal José Sócrates, mas não filósofo, que o senhor Inquisidor quer levar para a fogueira ali bem junto à Ginjinha, frente á Igreja de São Domingos, para gáudio dos engraxadores que deixam uns sapatinhos a brilhar por dois euros e meio.

 

            O senhor Inquisidor consulta sempre a sua bíblia ou caderninho de capa negra em que está traçado o esquema de guerra para levar os confessos a acusarem os alvos, os que nasceram predestinados para morrer na fogueira em auto de fé transmitido pela televisão, culpados do gravíssimo crime de saberem que ganharam eleições, coisa que nunca foi do conhecimento dos amigos do senhor Inquisidor.

 

            Nas suas inquisições, o senhor Inquisidor João Pedro Furtado da Cunha Semedo não se preocupa que o povo não perceba nada do seu latim e ninguém sabe do que está a falar e que perguntas são aquelas. Ele sabe da experiência de séculos de inquisição continuada com os interrogatórios públicos da Santíssima Inquisição, da NKVD, da Gestapo ou da PIDE que nada daquilo deve ser entendível e, muito menos, claro. Os inquisidores proferiam as suas sentenças em latim, mesmo que os prevaricadores do ser e estar no Mundo nada soubessem de línguas mortas e que interessava se estavam também destinados a morrer como o latim. O essencial é que fique a suspeita no ar que o alvo sabia o que outros sabiam e que sabiam que não sabiam se sabiam que podiam saber o que não sabiam que pudesse ser sabido e que fosse susceptível de ser sabido por quem podia saber ou não saber mas que no entender do senhor Inquisidor deveria saber que sabia o que ele sabe que sabe mas não sabe se outros devem saber, nomeadamente o povo.

 

            Para a fogueira da Inquisição ou para a Câmara de Gás bastava ter sangue judeu ou outra coisa qualquer, mesmo que o visado não o saiba, mas não é isso o importante, pois basta que o senhor Inquisidor João Pedro Furtado da Cunha Semedo saiba que é assim e que se sabe e que tudo se sabe pois saber é próprio do saber ser e que tudo tem de ser sabido de modo a que se saiba que a santa fogueira é o único meio de eliminar o saber de que na opinião do senhor Inquisidor não deve ser sabido ou a ser sabido deveria ser confessado com o arrependimento sincero de saber o que sabiam os outros pois saber é a mais terrível das armas que os humanos têm à face da terra. O saber, segundo o senhor Inquisidor, deve ser condenado nas catacumbas das salas suturnas da Santa Inquisição do Palácio de São Bento.

 

            Passados que foram 36 anos da Revolução dos Cravos, nós, um povo de malucos, elegemos a Santíssima Inquisição num palácio erguido em homenagem a um tal Bento porque sabia que não sabia para condenar os que sabiam que outros sabiam que o senhor Inquisidor sabe que sabiam e demonstra que saber o que sabe é condenar os que sabiam tudo o que se sabe.

 

            Criámos a democracia inquisitorial e entrámos na época negra da caça às bruxas que sabem o que outros sabiam que sabem e não devia saber que sabiam por a nova Inquisição achar que saber o que outros sabiam que sabiam é o mais nefando dos pecados contra o Deus do Saber do Santo Inquisidor Jão Paulo da Cunha Semedo. Só Deus sabe e só o seu Inquisidor Mor pode saber que sabe.

 

            Ainda não chegámos a Meca, para lá caminhamos. Há dias um “bruxo” da televisão libanesa em peregrinação à pedra santa e negra de Meca foi condenado pelos inquisidores à morte por decapitação porque assim mandou Alá e Maomé, o seu profeta que o tenho nas suas boas graças, deu a conhecer ao santo povo. O dito “bruxo” sabia o que outros só iriam saber muito tempo depois e para isso nada como cortar logo a cabeça, a sede do saber.

 

 

 



Publicado por DD às 18:47 de 01.05.10 | link do post | comentar |

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