Os mercados exultam, nós devíamos estar preocupados

O gigantesco plano de socorro engendrado esta madrugada nos corredores de Bruxelas parece estar a ter os efeitos desejados. Um plano gigantesco, complexo, bem parecido com aquele que, sem demora, foi posto em prática aquando do colapso financeiro pós-Lehman Brothers. O risco da dívida dos países do sul cai a pique e as bolsas exultam da maneira hiperbolizada que lhes é típica. Nada que não tivesse sido defendido neste blogue há muitos meses:

o problema é europeu e só a União Europeia o pode resolver, garantindo que nenhum país cai numa situação de não-pagamento. Mais, o BCE vai mesmo começar a compra títulos de dívida pública, de forma a corrigir “anomalias” nos mercados. Parece que tínhamos razão.

 

Mas, se os ataques conjuncturais tiveram solução (a ver vamos, que as modas nos mercados financeiros são tudo menos previsíveis), os problemas estruturais mantêm-se. A forma como estas garantias foram cozinhadas sublinha as fragilidades institucionais da EU. O grosso das garantias foi organizado através de um “veículo especial” para o qual os estados contribuem. A acção da UE, enquanto tal, fica reduzida ao alargamento dos empréstimos nos meros (salvo seja) 60 mil milhões de euros, já que o orçamento europeu (garantia nestes empréstimos) não chega para mais. Pior, todo este gigantesco plano precisou da participação do FMI como garante de credibilidade.

 

Se um plano como este tivesse sido organizado há uns meses atrás, obviamente a sua escala não teria de ser a mesma.

Todavia, desenganem-se se acham que foram as eleições na Alemanha as responsáveis por este atraso. Mais importante foi deixar países como Grécia e Portugal à beira do abismo de forma a impor as mais draconianas condições. Isso, e o crescente nervosismo dos bancos alemães. E aqui chegados percebemos o enorme problema estrutural com o qual Portugal, a Grécia e a Espanha se deparam.

Num contexto de magro crescimento económico, os cortes anunciados (e aparentemente agravados pelo aumento do IVA, corte do 13 mês, etc) é inevitável o prolongamento da recessão nestes países. Mais desemprego, maior dificuldade em reduzir défices e dívida.

O The Economist chama-lhe mesmo experimentação económica. Nos raríssimos casos em que planos drásticos de cortes da despesa pública foram seguidos por crescimento económico, como o Reino Unido nos poucos saudosos anos Thatcher, estes países beneficiaram de desvalorizações monetárias promotoras da competitividade externa e reduções drásticas das taxas de juro (promovendo o consumo interno). Nada disto está ao dispor dos países do sul no contexto do Euro.

Os resultados dos cortes precoces na Irlanda não auguram nada de bom. Enquanto que o resto da Europa começava a crescer marginalmente no último trimestre de 2009, a economia irlandesa afundou 2,9%.

Publicada por Nuno Teles em 10.5.10, Ladrões de Bicicletas



Publicado por Xa2 às 13:07 de 12.05.10 | link do post | comentar |

6 comentários:
De O Triunfo da Política a 13 de Maio de 2010 às 01:44
David Stockman The Triumph of Politics, Harper Row, Nova Iorque, 1985
È um livro surpreendente, que revela a falta de transparência da vida político-partidária e acusa de parasitismo daqueles que passam a vida a apregoar que estão na política por patriotismo e com sacrifício pessoal, pois poderiam estar muito melhor se se tivessem dedicado a actividades do sector privado – mesmo quando se sabe que, antes de entrarem na política, não tinham obra nem dinheiro.


De 'Ratings', corruptos e bancos-fantasma.. a 12 de Maio de 2010 às 15:18
A ameaça-fantasma
por Paul Krugman*, Publicado em 30 de Abril de 2010

É fácil fingir que a crise financeira foi provocada por erros inocentes, mas não foi. É o resultado de um sistema corrupto, em que as agências de notação têm grandes responsabilidades

Analisemos a Subcomissão Permanente de Investigações do Senado (EUA). O seu trabalho relativo à crise financeira parece-se cada vez mais com o da Comissão Pecora, que contribuiu para promover a regulamentação financeira nos tempos do New Deal.
Nos últimos dias, as escandalosas mensagens de correio electrónico provenientes de Wall Street divulgadas pela subcomissão têm feito os cabeçalhos dos jornais.
Essa é a boa notícia; a má é que a maioria dos cabeçalhos se debruçou sobre as mensagens erradas.

O facto de os empregados do Goldman Sachs se vangloriarem do dinheiro que tinham ganho com a manipulação dos títulos do mercado imobiliário é feio, mas não constitui um delito em termos jurídicos.

As mensagens de correio electrónico em que nos devemos deter são as dos funcionários das agências de avaliação do risco de crédito (credit rating agencies), que atribuíram uma classificação AAA a centenas de milhares de milhões de dólares de activos duvidosos que se viria a perceber mais tarde serem quase todos lixo tóxico.
Não se pense que se trata de uma hipérbole. Longe disso:
dos títulos hipotecários subprime classificados com AAA em 2006, 93% - 93 por cento! - foram agora considerados lixo.

O que essas mensagens de correio electrónico revelam é um sistema profundamente corrupto.
Um sistema que a reforma financeira, nos termos actualmente propostos, não poderia consertar.

As agências de notação de risco de crédito começaram a sua actividade como empresas de estudo de mercado:
faziam avaliações de dívidas institucionais e cobravam esse serviço a pessoas que estudavam a hipótese de comprar essas dívidas.
Porém, com o tempo, foram-se transformando em empresas de cariz muito diferente:
passaram a ser contratadas por quem vendia as dívidas para aporem nelas o seu selo de aprovação.

Essas certificações começaram a desempenhar um papel vital em todo o nosso sistema financeiro, especialmente no que diz respeito a investidores institucionais como os fundos de pensões, que só compravam títulos se viessem acompanhados da cobiçada classificação AAA.

Era um sistema na aparência digno e respeitável. E contudo criou enormes conflitos de interesses.
Os emitentes da dívida - que eram, cada vez mais, instituições de Wall Street que vendiam títulos por elas criados através de um esquema de partir e repartir e baralhar e tornar a dar direitos existentes sobre, por exemplo, hipotecas subprime - podiam optar entre várias dessas agências de notação, por isso podiam encaminhar os seus negócios para aquelas em que tinham mais probabilidades de obter uma opinião favorável e ameaçar preterir os que se esforçavam por trabalhar com responsabilidade.

Actualmente, quando olhamos o que aconteceu, é claro como água que havia grandes probabilidades de isso corromper todo o processo.
E corrompeu.
A subcomissão do Senado concentrou as suas investigações em duas das maiores agências de classificação de risco de crédito, a Moody's e a Standard & Poor's;
o que descobriu veio confirmar as nossas piores suspeitas.

Numa mensagem de correio electrónico, um funcionário da S&P explica que é preciso marcar uma reunião para "debater os critérios de ajustamento da avaliação de títulos caucionados por bens imobiliários, dada a ameaça constante de perder negócios".

Noutra mensagem, alguém reclama por ter de utilizar recursos "para 'trabalhar' os números relativos ao subprime e aos títulos de hipoteca A alternativos, de modo a manter a quota de mercado".
Claramente, as agências de notação estavam a distorcer as suas avaliações para agradar aos clientes.

A existência dessas avaliações distorcidas,...


De 'Ratings', corruptos e bancos-fantasma . a 12 de Maio de 2010 às 15:21
A ameaça-fantasma
por Paul Krugman*, Publicado em 30 de Abril de 2010
...
A existência dessas avaliações distorcidas, por seu turno, levou a que o sistema financeiro assumisse riscos muito maiores que poderia com segurança enfrentar.
Paul McCulley, da Pimco, o investidor em obrigações (que inventou o termo "bancos-sombra" para designar as instituições não regulamentadas que estiveram no cerne da crise), descreveu recentemente esse processo nos seguintes termos:
"bancos- -sombra com um crescimento explosivo, não sujeitos a regulamentação, numa festa desregrada com as agências de classificação de risco financeiro, em que entram com BI falsos."

Mas então o que se pode fazer para evitar que isso volte a acontecer?

A proposta de lei agora nas mãos do Senado tenta abordar o problema dessas agências, mas na generalidade é muito branda nessa questão particular.

A única disposição que poderia ser eficaz é a que torna mais fácil processar judicialmente as agências que se escusassem, "consciente ou imprudentemente", a tomar as medidas correctas.

No entanto, é óbvio que isso não basta, dados os montantes em jogo - e o facto de Wall Street poder pagar advogados muito, mas mesmo muito bons.

O que é preciso é uma mudança fundamental nos incentivos das agências de classificação.
Tem de se fazer alguma coisa para acabar com a natureza fundamentalmente corrupta do sistema em que o emitente da dívida é quem paga a respectiva avaliação.

A proposta de Matthew Richardson e Lawrence White, da Universidade de Nova Iorque, é um bom exemplo de como as coisas poderiam funcionar. Richardson e White sugerem que se crie um sistema em que as empresas emitentes de obrigações continuariam a pagar às agências de rating a avaliação dessas obrigações, mas em que seria a Securities and Exchange Commission (a Bolsa), e não a instituição emitente, a escolher a agências de rating que se encarregaria de fazer a avaliação.

* Economista Nobel 2008 ; Exclusivo i/The New York Times


De OCULTO na casca Laranja a 12 de Maio de 2010 às 15:07

O oculto sabor das laranjas

O PSD acha que se devem reduzir em 2,9 % os salários dos políticos e dos gestores públicos.

Não recebo qualquer salário como político, nem como gestor, pelo que poderia em tese respirar fundo e aplaudir freneticamente.

Não aplaudo. Cheira-me a cortina de fumo para ocultar algo de realmente gravoso para milhões de portugueses e que os lordes laranja se devem estar a preparar para defender .

Não aplaudo. Estamos perante um descarado afago do que há-de mais rasteiro no discurso justicialista de ódio aos políticos e a tudo o que tenha o mais ligeiro perfume público.

Receio que o PS e os outros partidos europeus da IS se estejam a deixar conduzir docilmente para um inútil sacrifício político no altar da defesa de um sistema injusto e sem futuro.

Não seria melhor concentrarmo-nos na correcção da injusta distribuição de rendimentos entre capital e trabalho?

Ou vamos limitar-nos a dançar mansamente ao som da música dos especuladores, blindados pelas ordens e directivas dadas pelos grandes senhores do dinheiro e fielmente executadas pelos seus mandatários do PPE ?
Postado por RN , 12.5.2010, O GrandeZoo


De ...cozinhados uns ... e nós fritos !?!! a 12 de Maio de 2010 às 14:51
De 3 Fs ... preparai-vos... a 12 de Maio de 2010
3fs

Preparai-vos que em breve tereis o terceiro F (ou o 4º F....)

Depois de Jesus ter levado o Glorioso à varanda da República, na Praça do Município, vistes hoje Ratzinger, Benedictus XVI, em carne e osso e na Praça do Comércio a apelar à fé, e vereis por fim, lá para o fim da semana, depois de tantas e tão fortes emoções, o f. que aí vem.

Não sei se vos cuidais do coração mas ide-vos preparando pois quer-me parecer que, à excepção de uma mão cheia de gestores públicos e semi-públicos, todos vós ireis ter no Natal um sapato grande demais para tão curtas prendas.

Rezai, pois!

Pode ser que o Verão ainda traga um milagre da África do Sul que vos encha de consolo e vos faça esquecer, ou vos evoque para a misericórdia, na remissão dos pecados de quem nos mete a mão no bolso e coloca o pouco que lá encontra no bolso de outros.

Louvados sejam !
LNT, [0.172/2010], A Barbearia do sr.Luis 11.5.2010


-----PSD e PS à beira do entendimento...

"É o governo que governa", é a máxima que reina na entourage do maior partido da oposição - escreve o Diário Económico e que Sócrates também faz questão de sublinhar.

Esta máxima beneficia o PSD perante o país. Nesta base, vai aprovando as medidas negociadas com o governo, ditadas de Bruxelas. PS e PSD a fazerem o jogo claro de Bruxelas. E assim estrategicamente vai cozendo o PS em banho-maria. Muito por sua culpa assinale-se. Quando chegar a altura eleitoral o caldo está soberbamente cozinhado.

O PSD para dar mais credibilidade à máxima de que "é o governo que governa" vai aqui e ali apontando alguma medida diferenciadora. Uma que muito me sensibilizou é a que preconiza um corte nos salários dos políticos e gestores públicos de 2,9%. Como é que os abrangidos vão poder viver com menos 2,9%?

Temos de ter uma lista dos abrangidos para quando formos ao supermercado adicionar às nossas compras uma caixa de sardinha para lhes enviar.
Etiquetas: Entendimento PS/PSD, Medidas Gravosas

# posted by Joao Abel de Freitas @ PuxaPalavra 12.05.2010

----Vem aí a quinta-feira "negra"

A comunicação social sobretudo a económica aponta para a próxima quinta feira, como o dia do anúncio de medidas muito duras por parte do governo com interferência no abaixamento do poder de compra das pessoas.

Será já o aumento dos impostos que Teixeira dos Santos se cansou de apregoar como possível, lá por Bruxelas? Será o imposto sobre o trabalho? "Malha-se" sempre nos mesmos, para usar uma expressão tão querida de Augusto Santos Silva.

O PS tem, na realidade, uma vocação especial para este tipo de trabalho, penalizador das camadas sociais.
Etiquetas: aumento de IVA? Corte nos salários?, Medidas duras

# posted by Joao Abel de Freitas @ 11.5.2010

----- Afinal, quando haverá PEC?

Todos os dias, o país muda de PEC. Cada saída à Europa dos nossos governantes um novo PEC. Com este processo tão diferentes da Grécia que éramos, mas as medidas começam a aproximar-se.

Dentro em breve será o aumento dos impostos, depois o corte nos salários. Já há propostas na mesa.

Parece é que nada sobra para aquelas actividades em que a crise até aumenta os lucros.

O País entrou por uma via sem rumo.
Etiquetas: Novo PEC? Aumento de Impostos? Corte nos salários?

# posted by Joao Abel de Freitas


De . a 12 de Maio de 2010 às 14:46
Gonçalo Leite Velho disse...

Há pouco tempo o NYTimes chamava a atenção para a mesma experimentação que está a ocorrer no Báltico, sobretudo na Lituânia e Letónia.

Estes países curiosamente saíram da "ordem do dia" com a questão da Grécia, mas o que está a ocorrer por lá merece sem dúvida a atenção, até porque demonstra que mesmo os países fora da zona euro estão hoje condenados a não poderem desvalorizar a moeda.
A razão é simples:
como a taxa de juro em euros era mais baixa, muitos cidadãos destes países fizeram empréstimos indexados ao euro, logo desvalorizar a moeda significaria o incumprimento de muitas famílias e um agudizar da crise.

10 de Maio de 2010 20:19 , Ladrões de Bicicletas


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