A Visita Papal

             Numa época em que a Igreja Católica atravessa uma das suas mais graves crises morais, a dos incontáveis casos de pedofilia por parte de padres a quem tinham sido confiadas crianças, o Papa Bento XVI visita uma pequena nação tida como uma das mais católicas e com a confiança que vem ter com uma população afável, capaz de receber qualquer visitante estrangeiro da melhor maneira e altamente tolerante. Curiosamente, é também de Portugal que saem o menor número de casos de pedofilia eclesial.

 

            Bento XVI tinha pois a certeza de ser bem recebido e de saber que os meios de comunicação não iriam criar problemas. As multidões iriam ter com ele, até por estarem num País em que pouco ou nada acontece. Além disso, o governo e a presidência da República estavam na disposição de organizar a melhor das recepções possíveis.

 

            O bom povo português, tolerante e tão católico como pouco praticante, mas sempre disponível para aceitar actos religiosos como sejam a encomendação da alma de um ateu por parte do diácono ou uma missa funerária, baptismo, casamento católico, etc. Há padres e diáconos dispostos a dizerem umas palavras simpáticas em casamentos que oficialmente nem são verdadeiramente católicos por os dois nubentes não o serem. Enfim, o português pode ser agnóstico, ateu ou crente não praticante, mas aceita a Igreja Católica no seu seio e o crente praticante está maioritariamente longe de fundamentalismos exagerados e é minoritário na população. Menos de 30% dos portugueses vão regularmente à missa.

 

            O Papa Bento XVI não tinha mesmo melhor país no Mundo para visitar, até porque, não obstante a chamada crise económica, Portugal não é um país de miséria. Os grandes bairros de barracas sem saneamentos básicos e cheios de detritos desapareceram quase totalmente, as aldeias quase despovoadas não são pobres, pois onde não há gente não pode haver pobres nem ricos. A maior parte da população vive em condições difíceis, mas de classe mais ou menos média. Os poucos pedintes que vejo nas ruas são drogados ou estrangeiros, particularmente romenos e geralmente alcoólicos. Alguns são meus vizinhos porque vivem no pequeno jardim da praceta que habito.

 

            Para além disso, apesar das leis tolerantes, o povo português é talvez aquele que na Europa mais se aproxima da ética cristã, isto em termos comparativos. A maior parte dos jovens alemães, espanhóis e franceses queixam-se que as meninas portuguesas são menos acessíveis que as suas congéneres europeias.

 

            O ateísmo militante é praticamente inexistente em Portugal e os políticos laicos, republicanos e até ateus respeitam a Igreja Católica e as outras confissões. Não há um problema religioso em Portugal, apesar dessa malvadez que foi a lei do casamento entre homossexuais, condenado pela Igreja e um pouco ridicularizado pelo bom povo que não se sentiu muito ofendido por isso como já não se tinha ofendido com a lei do aborto.

 

            Enfim, o Papa Bento XVI necessitava de uns bons banhos de multidão e nada como o bom povo português para os proporcionar com toda a segurança e conforto.

 



Publicado por DD às 21:33 de 12.05.10 | link do post | comentar |

3 comentários:
De Mudar o presente, mudar o Destino a 14 de Maio de 2010 às 17:39
Fátima e Futebol continuam a ser o nosso Fado !


De Milagres a 14 de Maio de 2010 às 15:50
O homem foi-se embora com Portugal no coração;

Com a alma purificadas dos pecados da igreja;

E com os cofres cheios.

Ainda há quem não acredite em milagres, mas lá que los ay, los ay...


De Hominídeos a 13 de Maio de 2010 às 10:21
Fé e negocio quer na visita papal como no recinto de Fátima.
Na primeira são explorados o povo e pobres de espírito, no segundo enchem as algibeiras os aproveitadores, oportunistas que exploram os primeiros.
E assim vai o mundo, desde os primórdios e assim continuará, para o futuro, neste mundo de hominídeos .


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