Quarta-feira, 9 de Junho de 2010

Os novos engenheiros de almas

Em época de crise investe-se muito em ideias. Ainda que muitas vezes estas não sejam mais do que antigos conceitos vestidos de outra forma.

Vítor Sobral recuperou recentemente, numa crónica no "Negócios" sobre as contradições da direita portuguesa, uma citação reveladora de Margaret Thatcher: "a economia é o método; o objecto é a mudança da alma". Esta frase aplica-se na perfeição a mais uma iniciativa intelectual dos sectores neoliberais portugueses. O projecto Farol prova que o investimento em ideias prospera em épocas de crise.

Com o patrocínio da multinacional de consultoria Deloitte, alguns gestores juntaram-se a alguns economistas e advogados de negócios e produziram um manifesto e umas "conclusões preliminares" em powerpoint, como não podia deixar de ser. A comunicação social tratou de os difundir amplamente. Os lugares-comuns da novilíngua do "capitalismo empreendedor" disfarçam mal o projecto de submissão total da sociedade portuguesa a um mundo que é reduzido a uma "plataforma unificada de acção". O mundo, altamente hierarquizado e desigual, não é assim, claro.

O resto, que é o que interessa, vem por acréscimo. A "agenda do corte fiscal permanente" exprime o desejo de alinhar numa perversa concorrência fiscal, num país com uma carga fiscal abaixo da média da UE e onde os regressivos impostos indirectos, como o IVA, têm um peso excessivo. A lengalenga da flexibilidade, sobretudo no campo laboral, exprime o desejo de continuar a eliminar direitos e a transferir custos para a maioria dos trabalhadores assalariados na forma de vidas mais precárias e inseguras. Crucial é a redução do Estado a "um parceiro fiável do sector privado" e a correspondente apropriação de recursos públicos nas áreas onde está a fruta doce para os novos e garantidos negócios com muita consultoria à mistura: saúde, educação, segurança social ou infra-estruturas públicas.

Tudo isto é conhecido. Tudo isto é regressão social com consequências económicas negativas. A economia, uma certa economia em crise, é o método. No entanto, o objecto é mesmo a mudança da "alma". Inadvertidamente, o projecto Farol confirma as teses de Michel Foucault, expostas, em 1979, em "O Nascimento da Biopolítica" (livro recentemente editado entre nós pelas Edições 70).

A "governamentalidade neoliberal" pretende criar os dispositivos, as condições, para transformar os indivíduos em novos homo economicus, em sujeitos empresariais desenraizados, adaptados e conformados a um mundo reduzido a fluxos económicos, com mobilidade e concorrência incessantes.

A "educação para a globalização" do Farol sintetiza a engenharia das almas que seria necessária para a utopia do capitalismo global. Estas consultorias políticas não acabam bem para a maioria. Devemos, por isso, guardar distância destes "faróis", se não queremos afundar em definitivo...

João Rodrigues, i on line


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Publicado por Xa2 às 00:07 | link do post | comentar

7 comentários:
De Zé T. a 9 de Junho de 2010 às 10:36
Agora o PSD vem propor a limitação de reformas/ pensões, do sistema público e para-público, a 12 x IA= 5030€ , incluindo as acumuladas.
A ideia de impôr um tecto parece justificar-se ... pelas dificuldades económicas do país, pela crise.
Contudo ...

- Porquê só para os contribuintes/beneficiários do sistema público ?! ... «ou há moralidade ou 'comem' todos ! », diz o povo e com razão.

. Contra-argumenta-se que o Estado não pode interferir na liberdade contratual dos privados, em sistema capitalista. Certo.

. Mas o Estado tem a obrigação de velar pelo Bem Comum e pela manutenção do próprio Estado, especialmente numa situação económica e social de crise... (provocada por privados financeiros e especuladores, internacionais e nacionais)...
pelo que nada impede (nem o direito, nem a ética, ...excepto a vontade ou a falta dela...) que o Estado (governo/parlamento) aplique impostos progressivos áqueles que mais recebem (em pensões acima de..., em vencimentos e outros rendimentos), independentemente de serem contribuintes/ beneficiários do sistema público ou do privado.

- Porque não um tecto para aqueles que recebem (cumulativamente) mais de 10xIA= 4520€ ou até 6xIA= 2515€ .?!
. É que estes 'tectos' não são inocentes... acima de 5030€, do sistema público, são muito poucos que são abrangidos ... - o que quer dizer que esta medida se saldaria em quase nada - populismo demagógico do PSD, para ganhar votos e simpatias -,
. e quem efectivamente iria pagar/contribuir para resolver a crise seriam os pagantes do costume:
os trabalhadores por conta de outrem... que esmagadoramente ganham muito menos que os tais 5000€ e não podem fugir aos impostos (IRS, IVA, IUC, IMI, ...).


De Demagogia neo-liberal do PSD a 9 de Junho de 2010 às 10:46
Passo em falso
[Publicado por Vital Moreira, CausaNossa]

Ao contrário do que afirmou Passos Coelho, já existem limites máximos ao valor das pensões, bem como limites à sua acumulação. E foi o Governo de Sócrates que os estabeleceu (contra grandes resistências, aliás).
Deve também reccordar-se que foi o memso governo que pôs fim às subvenções vitalícias por exercício de cargos políticos.

Independentemente da possiblidade de estreitar os referidos limites,
é de desconfiar que o propósito do PSD consista em limitar as pensões do sistema público obrigatório, para depois justificar a redução das respectivas contribuições, levando as pessoas a subscrever um regime complementar de pensões.

Quem pensa que o PSD abandonou o seu projecto de privatizar parcialmente o sistema de pensões, num esquema de capitalização individual, deve desenganar-se.


De Exemplos destes ?!... a 11 de Junho de 2010 às 12:13
O EXEMPLO PRESIDENCIAL, ANÍBAL CAVACO SILVA

Actualmente recebe três pensões pagas pelo Estado:
4.152,00 - Banco de Portugal.
2.328 ,00 - Universidade Nova de Lisboa.
2.876,00 - Por ter sido primeiro-ministro.
9.356,00 - TOTAL ( 1 875 709 $ 60 )
Podendo acumulá-las com o vencimento de P. R.

Não será por este e outros (casos de acumulação de pensões chorudas...) a razão da falência da Segurança Social ???

Só os vencimentos e as reformas dos trabalhadores por conta de outrem (e em especial dos funcionários públicos) é que causam tanto mal à economia deste país ???


De . a 9 de Junho de 2010 às 11:03
um País dois Sistemas vs um Governo dois Discursos

O primeiro tem dado resultados concretos. A sociedade chinesa embora com muitos ziguezagues tem vindo a evoluir e o comportamento dos indicadores económicos é apreciável.
O mesmo não direi em outros domínios.

Um governo dois discursos também tem dado resultados concretos, com um significado muito preciso: desnorte e instabilidade.
Afinal, face a uma questão mais complicada ou sob pressão interna ou externa é de atirar moeda ao ar para se saber a posição do governo português.

É o que tem vindo sucessivamente a acontecer.
No caso mais recente das pressões de Bruxelas sobre reformas a fazer no mundo do trabalho e da segurança social, o governo aparece a falar a três vozes.
Ministros da Economia e do Trabalho a rejeitarem as pressões e a dizer que em vários aspectos estamos à frente de muitos dos países membros vs
Ministro da Finanças muito aberto a pressão comunitária com o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira a tentar fazer a ponte entre as duas posições.

A continuar assim, este tipo de governabilidade anda em voo picado e a defrontar-se com um muro.
Quase sempre dá desastre quando nos aproximamos muito do muro a grande velocidade.

Etiquetas: Pressões de Bruxelas, Respostas inadequadas
# posted by Joao Abel de Freitas, PuxaPalavra, 2010-06-9
-----------------
Vivemos acima das nossas possibilidades

O Senhor Gonçalves da Quinta da Marinha tem uma reforma de 173.000 euros por mês e, entre outros suplementos, o direito a usar gratuitamente um avião particular para passear por aí.
O Senhor Gonçalves da Brandoa tem uma reforma mensal de 173 euros e entre outras regalias o direito de assobiar e a andar a pé por aí.
O G20, os ministros das finanças da União Europeia e a Srª Merkel dizem que "andamos a viver acima das nossas possibilidades".

O Senhor Gonçalves da Brandoa que tem ouvido na televisão os economistas de serviço percebeu logo que a conversa era com ele e não com o outro.
_____________________
Etiquetas: reformas
# posted by Raimundo Narciso , PuxaPalavra, 8.6.2010


De DD a 9 de Junho de 2010 às 21:24
Depois da propaganda comunista vem a propaganda direitista capitalista


De . a 11 de Junho de 2010 às 08:51
Oh DD... - só porque têm discurso diferente, já não reconhece os seus camaradas do CausaNossa e do PuxaPalavra ?!


De Ressaca a 11 de Junho de 2010 às 11:24
É da idade.
E a 'raiva' cega!


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