Domingo, 24 de Maio de 2009

 

A actual crise económica e financeira mundial tem duas vertentes essenciais: a da bolha financeira mundial e a da saturação dos mercados, já aqui descrita.
Ambas as vertentes estão intimamente ligadas, pois a saturação dos mercados é um obstáculo ao investimento produtivo e, como tal, ao retorno elevado do capital, favorecendo o excesso de liquidez financeira que resultou fundamentalmente de desequilíbrios do comércio externo e de outros factores.
As imensas exportações da China e dos produtores de petróleo fizeram verter na banca mundial quantidades enormes de dólares. A exploração de muitas centenas de milhões de trabalhadores na China, Índia e outros países geraram saldos comerciais positivos de valores astronómicos que desestabilizaram de todo o sistema económico mundial, contentando-se muitos países como a China em receber papel ou contas computorizadas em vez de alimentos e bem-estar para os seus povos. Se é verdade que os países emergentes tinham a necessidade de colocar nos mercados mundiais uma grande quantidade de produtos manufacturados a baixo preço, também é verdade que o desequilíbrio foi o grande responsável pelo “crash” financeiro mundial em que a questão dos “subprime” nos EUA foi apenas o fósforo que provocou o fogo globalizado.
Para além disso, a banca nos mais diversos países foi gerando agregados monetários por via do tão útil e prático cartão Multibanco ou de crédito, o qual alargou o factor financeiro gerado pelo cheque e pelo crédito.
O nosso cartãozinho faz com que o dinheiro de um casal pobre que aufira dois salários que somam entre os mil e os dois mil euros permaneça permanentemente na banca, passando de uma conta para outra. Isto multiplicado por milhares de milhões de pessoas em Portugal e no Mundo produziu uma liquidez extraordinária e tanto mais elevada quanto mais altos os salários de certos países europeus e dos EUA, à qual se acresce a liquidez das classes mais abastadas, das empresas, da própria banca e seguradoras e, por fim, das milhares de aplicações e fundos, e a liquidez das imensas reservas em dólares dos países emergentes.
A liquidez vagabunda no Mundo passou de 12 biliões de dólares (milhões de milhões) em 1980 para 196 biliões em 2007. Atingiu assim quatro vezes o PIB mundial que em 2007 rondava os 49 biliões de dólares, sendo portanto insusceptível de ser aplicada na produção, ou seja, em 25 anos os meios financeiros internacionais cresceram três vezes mais que o valor de toda a produção de bens e serviços mundiais. Acresce ainda a liquidez nacional nos países capitalistas sem liberdade de circulação monetária para o exterior e na componente bancária nacional de cada um.
No fundo, tratou-se de uma curiosa liquidez não inflacionária porque pertence a todos e a ninguém, além de a alguns muito ricos e só parcialmente aplicada na produção e compra de bens e serviços. A liquidez aumentou também substancialmente pela via da expansão da bolha especulativa dos diversos produtos financeiros que pareciam representar valor enquanto eram procurados pelos gestores da liquidez. Com a falência do Lehmans Bank adquiriu-se repentinamente a consciência de que tudo não passava de papel sem valor e a liquidez encolheu tanto que levou muitas dezenas de bancos à falência e outros tantos a pedirem ajuda aos Estados para não falirem. Desmoronou-se um modelo capitalista financeiro e rentista. O capitalismo com rating AAA passou a um CCC.
Os mercados não foram auto-reguladores, o liberalismo económico e financeiro falhou. Os liberais acusam os reguladores de não terem actuado quando antes foram sempre visceralmente inimigos de qualquer regulação e intervenção estatal nos mercados. Hayek, o grande teórico do liberalismo puro e duro, acusava em todos os seus escritos a intervenção do Estado de ser a culpada de não vivermos num mundo ideal regulado pela “mão invisível” do mercado. O teórico americano nem queria sistemas de Segurança Social estatais com subsídios de desemprego, assistência médica, reformas, etc. quanto mais bancos centrais a regular negócios privados.
Keynes falou do “animal spirit” do capitalismo. Efectivamente, o capitalismo financeiro seguiu uma via animalesca de procura de lucro máximo sem matemática ou qualquer tipo de racionalidade. Não só lucro como também simplesmente poder. A “mão invisível” contribuiu para todos os excessos e para a crise depois de criar bolhas fantasmagóricas de dinheiro totalmente irracional. Enquanto os estados europeus do euro se auto-disciplinavam, os bancos entravam na embriaguez total da liquidez e transaccionavam entre si biliões de euros ou dólares
A liquidez permitiu operações financeiras de compra e venda de empresas por milhares de milhões de euros. Pequenas empresas adquiriram grandes grupos com créditos bancários garantidos por acções altamente cotadas nas bolas. Com a queda de todos os títulos ficaram os créditos a descoberto e muitas empresas dependentes da vontade da banca em as levar ou não à falência. Antes dessas compras e fusões, as diferentes empresas estavam em excelente situação financeira.
Relativamente aos salários praticados em todo o Mundo existe um excedente de capacidade de produção da ordem dos 20 a 30%. A economia mundial deixou de ser uma realidade, mas antes um balão insuflado que se esvazia agora. Tudo tem os seus limites, mas ninguém estava preparado para evitar o rebentamento das bolhas. Antes ganhavam os accionistas e os capitalistas de todos os lados e, muito ligeiramente, o proletariado. Não havia motivos para evitar que o balão se fosse enchendo.
Agora, a crise está em todo o lado e atingiu países desenvolvidos e em desenvolvimento. Ninguém ficou de fora da crise. Por isso ela é grave, pois os circuitos comerciais que progrediram tanto nos últimos 25 anos estão a abrandar e a provocar o desemprego em massa. Os governos atónitos pouco ou nada podem fazer, porque também os Estados podem falir e isso seria ainda mais catastrófico. Se os Estados não encontrarem compradores para os títulos de dívida pública entram em falência se não forem capazes de reduzir as despesas.


Publicado por DD às 22:08 | link do post | comentar

6 comentários:
De zé Peçonha a 25 de Maio de 2009 às 12:51
Devo estar cego
Apenas aqui vislumbro "um palavreado " redutor , egocêntrico em que só se aborda um mundo dito desenvolvido e de excessos.

Não se vê aqui uma palavra sobre os desequilíbrios mundiais. aquilo a que se pode chamar de um mundo de dois blocos: o bloco dos gananciosos e o bloco dos famintos.

Só se escreveu do primeiro bloco quando os dois estão interligados e ao excesso de uns se deve contrapor a miséria de outros.

Não li, aqui nada que possa "profetizar" uma atitude nova de equilíbrio Porquê?


De Xa2 a 25 de Maio de 2009 às 13:36
Para reequilibrar os mundos... será necessário muita união (de contribuintes/eleitores e de Estados), sacrifícios partilhados, diminuição de egoísmos e de consumos exagerados (de luxos, de recursos, de alimentos, de água, ... ).
Será necessário reduzir o conforto supérfluo, a sofreguidão, a velocidade/''fast'' , o depressa, o mais caro, o consumismo, o egoísmo, ...

será necessário reduzir, reduzir, simplificar, simplificar, ... voltar à essência das necessidades básicas e aos pequenos prazeres de uma convivência mais comunitária, partilhada, mais saudável ...

Será necessário pagar mais e melhor aos trabalhadores em todos os países ...
Será necessário reduzir a sobre-exploração e a exploração sobre o resto da Humanidade e do Planeta Terra,
Será necessário limitar, reduzir, eliminar os abusos sobre os recursos, sobre os trabalhadores, sobre as mulheres, sobre as crianças, ...
Temos de ser mais HUMANOS, mais conscientes e eficientes no nosso papel de CONVIDADOS e passantes na pequena casa que é a TERRA.


De DD a 25 de Maio de 2009 às 23:17
Os famintos são os explorados na China. Mais na China que na Índia, África, etc., onde o número de fábricas é infímo.
A Índia desenvolveu uma grande indústria informática que paga em "paridade de poder de compra" bastante bem aos seus engenheiros. Além disso, a Índia desenvolve uma grande indústria automóvel para os seus habitantes. Carros a menos de dois mil euros como o "Marata", se não me engano.


De Zé T. a 25 de Maio de 2009 às 13:19
Tudo claro ... excepto o que fazer agora.

-Deixa-se o ''espírito selvagem do mercado'' voltar a funcionar em roda livre?

-Estados concertam posições e ''apertam o sistema'', regulando-o, responsabilizando as instituições, accionistas e administradores financeiros?

-Estados vão mais longe e incriminam responsáveis, tomam conta dos ''offshores'' e dos bens escondidos dos responsáveis (financeiros, da lavagem de dinheiro, das fugas ao fisco, tráficos de droga, armas, fármacos, ...)?

-Ou, pelo contrário, o lixo tóxico é nacionalizado (i.e. os contribuintes pagam-no aos aldrabões/burlões/ mafiosos...) e os custos da crise são suportados por mais apertos sobre os trabalhadores e classes médias ?

- E os cidadãos (eleitores, trabalhadores, contribuintes, desempregados, pensionistas, ...) deixam-se (novamente) ''levar'' por palavras bonitas ?


De DD a 25 de Maio de 2009 às 23:26
O que fazer agora?
Destruir dinheiro com as consequências negativas que isso produz para os postos de trabalho, etc., mas não pode o Mundo viver de dinheiro "falso" aplicado em "lixo tóxico".
Com a palavra crise ninguém quer gastar tudo o que ganha, se o conseguir.
A principal vítima é o automóvel que emprega no Mundo mais de 500 milhões de pessoas a trabalharem.
Em 2007 foram fabricados 57 milhões de carros no Mundo e o parque automóvel ultrapassou as 700 milhões de unidades. Este ano, espera-se uma produção de uns 35 milhões de carros, o que significa muito desemprego.
Mas o que se pode fazer?
Eu não vou comprar um carro novo, porque não preciso, tenho um com seis anos e gosto muito de andar a pé e de metro, além de que a crise não aconselha a gastar muito dinheiro. O aforro dos portugueses nunca foi tão grande como este ano, o que está a reduzir çlargamente o montante do endividamento das famílias aos bancos e destes ao estrangeiro.
Não podemos pagar dívidas e gastar ao mesmo tempo mais dinheiro.
Na Europa e EUA sucede o mesmo.
A solução é keynesiana: grandes obras, pequenas obras, médias obras.


De Xa2 a 26 de Maio de 2009 às 11:33
solução? obras...

sim, mas ...
com que valores e modelos?
faltam valores, directivas e regras claras de como se vai ou pretende ''jogar'' a seguir...
foi a falta de regras ou a sua manipulação e alteração que levou/ leva ao descrédito dos políticos, dos partidos da governação, dos grandes empresários/ financeiros/ administradores e economistas advogados do neo-liberalismo...

sim, mas ...
que obras?
se temos que gastar e endividar ainda mais o país para manter o emprego ...é de toda a racionalidade que se façam boas escolhas, ... o que é mais necessário?
o que permitirá obter mais rendimento (a médio prazo...) ou mais e melhor capacidade de produção?

é que, no limite, até uma destruição (natural, artificial, militar, biológica, ...) do património colectivo servirá para a seguir fazer a reconstrução e voltar a haver ''crescimento'' significativo...
mas isto é de interesse colectivo? é racional o desperdício de recursos? é imprescindível o empenhamento das futuras gerações (roubá-las, de facto)?

é necessário fazer, resolver o problema... mas convém pensar bem para encontrar uma solução menos má.

(conhecem o que se diz da eficácia e da eficiência:
para eliminar um rato (ou formigas, ou...) em casa é eficaz destruí-lo à granada... mas tal procedimento não é eficiente ... além de que nos deixa com um problema ainda maior.)


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