Não ter acesso, estudar e emigrar

Estudar Medicina fora do País

Acabo de ler que estão cerca de 1000 estudantes a estudar medicina fora de Portugal (em Espanha) e que, juntando a República Checa, o segundo país com mais estudantes portugueses e, depois os restantes onde portugueses estudam medicina, se atinge o número 2500 que é só duas vezes e meia os que estudam em Portugal.

Isto tudo por um numerus clausulus que ninguém compreende excepto a corporação Ordem dos médicos.

Depois faltam os médicos pelo país todo. E vêm muitos de todos os lados.

Eu não sou contra esta permutação. Até achava altamente positivo se as razões fossem naturais com base em acordos, porque a troca de saber é sempre muito positiva.

A questão é que isto tem na origem e já há muitos anos um erro de base em que todos perdem.

Perde o País porque gasta muito mais na formação dos médicos.

Perdem as famílias porque têm a mais um dispéndio financeiro para que os filhos estudem.

Perde o SNS porque não tem médicos suficientes e presta assim um serviço insuficiente e perde o doente porque tem uma medicina de pior qualidade.

Se este problema está diagnosticado e é claro o erro, porque não se o resolve?

Este problema não é de agora. Atravessou muitos governos, incluindo os de Cavaco Silva. Teve 10 anos no governo e saúde e justiça é o que se vê.

Tudo seria fácil se ao longo dos anos se algum ministro da saúde tivesse mesmo defrontado os loby's que os há e que impedem por interesses próprios que esta situação se resolva calmamente e é certo para bem de todos.

João Abel de Freitas, Puxa Palavra

 

Não há dúvida de que os médicos (OM e profs.Fac.Med.) usaram do poder que têm tido para limitar a formação de médicos e, assim, manter privilégios.

Agora, há outras "coutadas", por exemplo o licenciamento de farmácias, aliás, actividade mais rendosa que a profissão de médico, ainda que não pareça.
A falta de concorrência eleva os custos e não incentiva o progresso, a melhoria da qualidade.
A falta de Estado interventivo e esclarecido, com meios para enfrentar lobies, leva o país para a dicotomia dos muito ricos/muito pobres, ao desenrasque e à exploração desenfreada, à falta de uma larga classe média que eleve a generalidade da população para um patamar superior de bem-estar, tolerância, paz e segurança.
O que temos vindo a assistir em Portugal, há décadas ou séculos, é ao reduzir da classe média em favor duma minoria de privilegiados (de velhos e novos nobres, novos-ricos aproveitadores das 'revoluções' dinásticas de XIV, XVII, liberal, republicana, militar-democrática) e
do «escorraçar» (para a emigração ou para trabalhos subalternos) dos valores existentes, de todos aqueles que têm capacidade e mérito mas não os «padrinhos/ cunhas/ nepotismo» que lhes permita ultrapassar a «barreira à entrada» na profissão, na indústria, no sector da actividade dominado por poderosos lobies monopolistas ou cartelistas.
Zé T.


Publicado por Xa2 às 13:07 de 14.06.10 | link do post | comentar |

6 comentários:
De feromoni a 15 de Junho de 2010 às 12:23
Este texto bonito. escrever é uma terapia natural que nos ajuda não só para lançar luz sobre os problemas, mas também para superar


De DD a 14 de Junho de 2010 às 22:51
Portugal tem 36.600 médicos ao serviço do Estado (SMS), o que dá 3,6 médicos por mil habitantes.
A Organização Mundial de Saúde considera como valor óptimo os 3 médicos por 1.000 habitantes e a Suécia tem cerca de 3,3 por mil e a União Europa tem à volta de 3.
Não se pode dizer que haja poucos médicos em Portugal; o País tem mesmo um dos maiores números mundiais de médicos por mil habitantes.
Numa situação não crítica seria aconselhável instalar mais faculdades de medicina ou alargar as existentes, mas no momento de grande aperto financeiro acho que podemos manter este valor quase recorde a nível mundial.


De Zé T. a 15 de Junho de 2010 às 10:16
Não sei se temos médicos a mais (média de licenciados por mil habitantes, comparada com a média de outros países de referência).
Mas sei, todos sabemos das incongruências ,má distribuição, deficiências de serviço e elevados custos que pagamos e sofremos.

Também nos dizem que a média de alunos por docentes é cerca de 14 alunos (também bastante boa a nível europeu) - mas todos sabemos por experiência própria e dos nossos filhos que as turmas rondam entre os 18 (se tiverem vários alunos NEEs) e os 28 alunos !!
ora isto não é compatível com ensino de Qualidade .

O simples barulho gerado, para não dizer o mau comportamento (as brincadeiras, a 'hiperactividade', agressões verbais e físicas) é impossível de controlar (sem adequados meios de coacção familiar-educativa, escolar, legal e social)

e quem ''paga'' são as crianças que querem e têm direito a aprender... mas que lhes é negado por alguns colegas pior comportados ou demasiados alunos por turma
(para além dos prejuízos que causam aos docentes, aos pais e aos contribuintes) !!

Resumindo:
1- as médias (mesmo quando não manipuladas por critérios de exclusão ou de diluição num universo mais amplo) são ... aquilo que são !! - um come o frango todo e outro não come nada mas, em média, dois comem meio frango cada !
Acrescente-se que existem outras medidas de tendência central por vezes bem mais ajustadas: desvio padrão, mediana, ...

2- Os Estados não devem abdicar do seu poder de REGULAÇÂO e de se afirmarem como defensores do BEM COMUM (medido e aplicado pela vontade LIVREmente expressa pela maioria da população e sem atropelar os DIREITOS do HOMEM ), da JUSTIÇA, Segurança e Paz. - mesmo que para tal tenham de coagir/ impedir grupos ou indíviduos de abusarem (directa ou indirectamente) da força bruta ou de artifícios legais ou processuais para extorquir, abusar ou condicionar a liberdade e o uso dos legítimos bens e direitos de outros concidadãos, porventura em situação de maior fragilidade física, económica, educacional, ...


De Anónimo a 15 de Junho de 2010 às 17:12

ora isto não é compatível com ensino de Qualidade .

Eu não tive a sorte de frequentar uma escola com turmas com menos de 28 alunos, como o Zé T.
Mas não foi por isso que o meu ensino perdeu qualidade, e suponho que não foi por Zé T. ter frequentado uma escola com menos de 28 alunos que a qualidade do seu ensino foi superior.


De Zé T. a 16 de Junho de 2010 às 11:56
Caro Anónimo,
Por experiência directa directa frequentei turmas de 24 a 28 alunos, em tempos, quando as faltas/falhas de comportamento eram duplamente penalizadas (pelo próprio sistema escolar e pela família)
pelo que eu e a maioria dos meus colegas éramos ''fortemente motivados'' a não prejudicar os colegas e a não pôr em risco o desenrolar das aulas e a capacidade dos docentes... - quanto a outros factores sobre a Qualidade, observei várias e diferentes situações, pelo que não me pronuncio aqui .

Pelo que, apesar do elevado número de alunos por turma (às vezes com alunos de diferentes anos), o comportamento em sala de aula era bom ...
e o resultado das aprendizagens era 'apenas' influenciado pela capacidade intelectual... do aluno ... e pela capacidade económica familiar para lhe permitir prosseguir estudos e de alguns apoios ou reforços em livros e/ou em explicadores.

Porém, actualmente, é muito diferente a realidade educativa, os meios, regulamentos, autoridade e a capacidade de actuação das famílias, dos docentes, da organização das escolas públicas... e da própria sociedade, seus valores e prioridades.

Por experiência como encarregado de educação e como representante na Assembleia de Escola/ Conselho Geral, em vários anos e várias escolas de vários ciclos, pude observar e comprovar que existe altíssima correlação entre comportamento (mau, perturbador, dificultador das aprendizagens) e nº de alunos por turma;

sendo que as turmas com muitos alunos (isto é +de 20 alunos ''normais'', pois se existirem 1ou2 NEEs -alunos com necessidades educativas especiais/deficientes- a 'perturbação/esforço' equivale a +4a8 alunos 'normais' na turma)

ou com alguns alunos 'mais difíceis'/pior comportados (por características pessoais e/ou associação a dificuldades/problemas familiares ou socio-económicos, não-acompanhamento adequado, semi-abandono, alcool, drogas, pertença a 'gangs' pro-criminosos...)

'estragam' qualquer turma e inviabilizam ou abaixam o nível das aprendizagens (do processo de ensino-aprendizagem), prejudicando os alunos ''normais'' ... e impedindo ou limitando o acesso/usufruto ao Ensino / conhecimento mesmo para aqueles que o pretendam e se esforçam.

claro que se os alunos 'dificeis' forem muitos ou se a maioria dos alunos vierem de um meio familiar e socio-económico 'deprimido/complicado' ... o resultado será muito fraco ... uma desgraça geral !!

- e só a imposição ministerial (transmitida irformalmente às direcções regionais e aos directores das escolas e destes aos docentes, impondo ''percentagens de aprovações de 95% a 98%'' ( !! ) sob velada ameaça de penalização dos docentes e de medidas e processos burocráticos que de facto impossibilitam as reprovações ou 'retenções' de alunos - que, de facto, não estudaram, não aprenderam, não estiveram presentes nas aulas, não fizeram os trabalhos de casa, têm resultados paupérrimos nos testes gerais, ... - e obrigar a fazer planos e mais planos de 'recuperação', e testes ''diferenciadores'' e de baixíssimo nível ... para mascarar/esconder a realidade e apresentar números/ estatísticas/ médias que fazem 'parecer' que se está em zona de sucesso...


De Zé das Esquinas o Lisboeta a 14 de Junho de 2010 às 16:16
Claro que há óbvios interesses corporativos e falsear a concorrência. Ainda mais obtuso é estes números limitativos de vagas num mercado da UE de livre circulação de pessoas e bens e onde os cursos de medicina tirados nos outros países da UE são aqui reconhecidos.
Mas às vezes o tiro sai pela culatra, pois tirar os cursos lá fora é, regra geral, formar melhor e mais competentes profissionais, quer de medicina quer de outros cursos.
Tenho ouvido inúmeros estudantes que pelo Erasmus têm a oportunidade de ter uma experiência educacional de 6 ou de 12 meses numa universidade da verdadeira europa e vêm de lá com a opinião de os cursos serem a sério e o grau de exigência muito maior. Quem é bom mesmo e esteve lá fora só completa cá o seu curso se a isso for obrigado ou não tiver capacidade económica para lá ficar.
Há males que vêm por bem. Teremos melhores médicos num futuro próximo quer sejam os de portugal que os foram tirar a Espanha ou à Rep. Checa, quer pela livre circulação dos jovens médicos da UE e não só que para cá vêm trabalhar.


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