Repartir custos (e os lucros/ benefícios) ?!

Sacrifícios, palavras e sereias

Os sacrifícios devem ser repartidos com equidade por todos. Quem não concorda ?

Há depois um problema de efectivação dessa equidade: aonde está o repartidor imparcial de sacrifícios ?

Há depois outros problemas.

Primeiro, o modo de medir os sacrifícios, que permitirá apurar se eles realmente são repartidos com equidade, pode ser um método estruturalmente viciado pelo modo como encara a realidade. Portanto, mesmo quando ele indicar que tudo está equilibrado, devemos ver bem, se ele em si próprio não estará de facto a beneficiciar uns e prejudicar outros, pelo uso de uma medida objectivamente distorcedora. É preciso, por isso, dede logo ter-se a certeza, à partida, de que se encontrou um critério de medida justo. Sem isso, não é possível ter sequer a noção do que seja uma equidade autêntica.

Em segundo lugar, um pequeno sacrifício, pedido a quem vive uma vida já difícil, é sempre um acréscimo de sofrimento, subjectivamente muito doloroso. Um imenso sacrifício, aferido objectivamente pelo volume das prestações, que seja exigido a quem vive na abundância, não representa qualquer sofrimento subjectivo para essas pessoas.

Em terceiro lugar, há uma hipocrisia profunda na atitude dos que aceitam, como única possível, uma sociedade que produz o empobrecimento dos pobres e o enriquecimento dos ricos, ou seja, uma sociedade essencialmente iníqua, mas que, ao mesmo tempo, põem os olhos em alvo, propugnando a sua sede de equidade e de justiça, alardeando medidas que sufocam os já sufocados e que, beliscando ao de leve os privilégios dos poderosos, fazem disso um argumento legitimador de todos os sofrimentos que causem nos outros.

Por isso, o essencial não é uma cosmética de pseudo-equidade, para dar uma aparência de realidade à mistificação do "todos unidos para salvar o Portugal". O essencial está em apontar um caminho de saída ( e querer percorrê-lo) desta fábrica de desigualdades e de injustiça que é o tipo de sociedade actual. A imperfeição injusta, com que necessariamente temos que enfrentar as crises actuais, seja a menor possível, não pode continuar a reproduzir-se, de crise em crise, até à implosão final.

Sejamos, pois, tão justos quanto possível, no imediato, sem escondermos que o máximo de justiça possível, no curto prazo, envolverá sempre um peso acrescido de sofrimento para os mais fracos e mais pobres. Mas mostremos determinação na luta por uma nova sociedade, em que a justiça estrutural seja uma realidade. Não confundamos a necessidade de sobrevivência de um sistema de desigualdade estrutural entre o capital e o trabalho (com subaltermidade deste), com a necessidade de sobrevivência digna de todos os cidadãos que são Portugal.

E, desde já, comecemos por sair da armadilha ideológica onde se finge um justicialismo absoluto na parificação dos subalternos, como preço para se poderem garantir os privilégios estruturais dos dominantes. Por exemplo, fazendo cruzadas contra todas as disparidades entre os rendimentos, que possam ser ou parecer salários, mas esquecendo que há muita gente que vive de lucros (de lucros bem mais chorudos do que os altos salários) que, afinal, bem vistas as coisas, são fruto, no essencial e principalmente, do trabalho de muitos emuitos que vivem bem pior.

Não há sociedades parcialmente justas, há sociedades justas ou injustas. Por isso, é indispensável olhar com desconfiança para muitos dos discursos tonitroantes que arrasam o presente, já que eles oferecem muitas vezes para o futuro novas raízes das dificuldades que hoje estamos a enfrentar.

Atravessamos um tempo de hipocrisia.

Ouvem-se, cada vez mais, maviosos cantos de sereias; mas não nos iludamos, muitos deles apenas ocultam a sofreguidão melíflua das hienas. 

Rui Namorado, O Grande Zoo



Publicado por Xa2 às 08:07 de 15.06.10 | link do post | comentar |

5 comentários:
De DD a 17 de Junho de 2010 às 23:28
Mais um que não percebe nada de economia internacional. Não sabe que há duas diferenças de classes, as internas entre mais ricos e mais pobres e a gigantesca mundial que são os capitalistas chineses que exploram o seus trabalhadores a 50 cêntimos à hora e com isso destruíram os postos de trabalho portugueses e europeus menos evoluídos sob o ponto de vista tecnológico.
Não são as pensões ou reformas e ordenados do Cavaco, Sócrates, Zeinal Brava, etc. que provocam o fecho das fábricas de calçado, têxteis, etc.
A produção nacional de calçado chegou em tempos quase aos 100 milhões de pares de sapatos. Não são pois os ricos que os vão calçar, mas os trabalhadores portugueses e europeus. Só que os chineses produzem mais barato porque os seus trabalhadores chegam a ganhar 5% do que ganham os portugueses e isso nada tem a ver com os gestores da PT ou seja de que empresa for, porque o principal mercado da produção nacional está no estrangeiro. Somos excessivamente poucos para consumirmos 100 milhões de pares de sapatos por ano. Também não consumimos os mais de 50 milhões de pneus que a Continental (ex-Mabor) exporta por ano e que poderá um dia deslocalizar-se para a China, produzindo pneus 90% mais baratos.
Os economistas e intelectuais têm uma enorme dificuldade em perceber a realidade porque, geralmente, não trabalham na produção. Quase sempre são professores, portanto, teóricos que leram uns textos para os comunicar aos alunos e não vão às fábricas e não estudam os mercados reais.


De Ressaca a 15 de Junho de 2010 às 14:52
«Uma obscenidade tradicional da classe dirigente, em especial da classe dirigente democrática, é fingir que participa nas dificuldades do povo»
- Vasco Pulido Valente (Público)


De A hipótese da rua a 15 de Junho de 2010 às 11:23
por João Rodrigues, Publicado em 24 de Maio de 2010 http://www.ionline.pt/conteudo/61280-a-hipotese-da-rua

O bloco central parece convencido de que as responsabilidades da brutal crise económica e internacional são dos trabalhadores

Esta crónica não pode deixar de ser um apelo: participe na manifestação convocada pela CGTP para o próximo sábado, dia 29 de Maio, às 15h00, entre o Marquês de Pombal e os Restauradores, em Lisboa.
A aposta é simples e racional:

na ausência da "pressão da rua" convencionalmente desdenhada, é sobre a esmagadora maioria dos trabalhadores assalariados - do público e do privado, mais ou menos precários, empregados ou de-sempregados - que continuará a recair todo o fardo da crise de um sistema económico cada vez mais disfuncional.

Aliás, o bloco central parece estar convencido de que as responsabilidades pela brutal crise económica internacional são dos trabalhadores, dos direitos que uma parte deles conquistou e do Estado social que as suas lutas fizeram surgir.
Estranhamente, a lógica das medidas de austeridade nunca é anunciada:
usar o desemprego de dois dígitos, a redução dos direitos sociais, sobretudo no subsídio de desemprego, e a austeridade orçamental, em geral, para favorecer a aceitação pelos trabalhadores mais vulneráveis de reduções substanciais do seu poder de compra.
Julgam que assim se promoverá uma recuperação económica assente nas exportações devido à redução dos custos laborais.
A enésima rodada de redução dos direitos laborais dá uma ajuda a este projecto económico de compressão do mercado interno.

Esquecem-se alguns detalhes nacionais e europeus:
os salários reais em Portugal têm crescido, em média, de acordo com a evolução da produtividade, como aliás deve ser, mas as desigualdades salariais abissais tornam as médias enganadoras;
os Estados sociais das periferias ainda são relativamente frágeis, quando comparados com os do centro da Europa;
a crise, que explica o descalabro das finanças públicas, é o resultado das políticas de liberalização económica e do correspondente crescimento das desigualdades;
os governos europeus, devido em parte ao desenho politicamente enviesado da construção europeia, estão apostados nas mesmas receitas de austeridade orçamental que condenam o conjunto da economia europeia e, logo, as exportações e as finanças públicas nacionais.

Neste contexto, o movimento sindical revela uma aguda percepção do desastre em curso, organizado por elites nacionais e europeias que fazem de tudo para agradar a "mercados" cada vez mais irracionais e, em última instância, incompatíveis com a escolha democrática.

A capacidade de resistência social e de protesto é a única variável que pode baralhar os cálculos dos que querem fazer desta crise uma oportunidade para dar novo fôlego a utopias de mercado fracassadas e injustas.
A manifestação da CGTP é uma hipótese para todos os que sofrem o impacto das medidas de austeridade fazerem ouvir a sua voz em face da insensatez económica e da insensibilidade social de quem nos governa.
De Lisboa a Bruxelas, passando por Berlim...


De Zé T. a 16 de Junho de 2010 às 13:37
Algumas achegas e Propostas para SAIR da CRISE:

1- Devemos aproveitar o nosso local (por contraposição ao exagerado global) , os nossos recursos e factores que nos diferenciam, os nossos valores... as nossas PESSOAS.

2- Precisamos de uma grande classe média (e não o seu dizimar), precisamos que os consumidores tenham (emprego e) dinheiro para consumir e dinamizar o mercado interno (produção, comércio, ...),
sendo um ERRO a aposta exclusiva na exportação (até porque os outros países também se fecharam, também preferem os seus produtos internos, e ou têm capacidade produtiva a preços ´muito mais baixos que os nossos ... pelo que é impossivel competir com eles - a não ser que queiramos/aceitemos ser e trabalhar como ESCRAVOS, sem direitos).

3- Em vez de esmagar os salários, os trabalhadores (os empregos, e de fazer 'downsizing' ou falências fraudulentas), as Pessoas, os empresários e dirigentes devem procurar a Solução (na melhoria e correção de falhas) nos processos de trabalho, na (des)organização, na tecnologia (e inovação), nos consumos (excessivos e desperdícios), nos fornecimentos (e exagero de intermediários e de comissões/custos), ... e nos exagerados bónus/regalias dos administradores.

4- A crise financeira internacional empolou (revelou e agravou) a crise económica e estrutural que Portugal tem desde há muito (para além das falhos de transparência e de complexidade burocrático-legislativa, e do bloqueio do sistema judicial, da falta de Justiça).

5- A flexibilidade é uma exigência de racionalidade mas não pode ser sinónimo de discricionariedade, arbitrariedade, cedências injustificadas, abusos e assédios, invasão da vida privada e familiar - como a generalidade dos patrões portugueses fazem/querem fazer (ainda mais).

6- O sindicalismo (e leis que defendam os trabalhadores) é uma necessidade (porque os trabalhadores não têm a mesma capacidade/poder de negociação que as empresas) e uma conquista do desenvolvimento humano, e é uma parte da solução para sair da crise.
Mas tem de existir mais e melhor sindicalismo, bem preparado, responsável, exigente, com as empresas (o que as obriga a melhorar), mas inteligente (não burocrático) e unido.
Deve ser criado um leque salarial (em vez dos 10 a 20 vezes que existia há duas décadas, hoje existe uma variação de 100 a 200 vezes entre aqueles que ganham menos e mais, na mesma empresa !!) tanto para remunerações fixas como para remunerações variáveis.
O sindicalismo deve unir-se e exigir uma situação para os trabalhadores sindicalizados (tal como na França, Alemanha, ...), para que haja interesse na sindicalização e melhor defesa dos interesses dos trabalhadores - caso contrário, os sindicatos estiolam (ficam sem recursos e sem membros) e não conseguem representar e defender devidamente os trabalhadores e a contratação colectiva, a segurança e a higiene no trabalho.

7- Temos que reverter as disfunções da União Europeia e a zona Euro devem afirmar a sua União, sem egoísmos (e nacionalismos chauvinistas), com liderança de melhor qualidade, com solidariedade, com transferências (não só comerciais mas também financeiras) entre Estados/regiões e com um orçamento comum.
O estado da Califórnia está 'calmo' (e não foi atacado pelos especuladores e agências de rating) apesar de ter uma situação financeira bem pior que Portugal, e tal acontece porque está integrado numa UNIÂO cujo orçamento (federal) é 60% dos EUA (o resto é dos Estados).
Os bancos podem financiar-se no BCE a 1% mas os Estados da UE não o podem fazer e têm de pagar juros muito mais altos - isto tem de mudar.
Vamos discutir ''soberanias'' quando meia dúzia de especuladores põe os Estados a tremer e os podem levar á falencia ! - isto não é aceitável, a UE tem de mudar e tem de criar a sua própria agência de 'rating', o seu contolo de contas estatais, e um orçamento comum e solidário.


De . a 15 de Junho de 2010 às 11:08
Fórum Manifesto: Universidade de Verão

No Tempo de Todas as Crises

18 a 20 de Junho
Abrantes : Pousada da Juventude
Participação Livre

PROGRAMA
18 de Junho, Sexta, a partir das 15H | acreditação

21H | conferência de abertura
Francisco Louçã
- Economista, Deputado, Instituto Superior de Economia e Gestão.

19 de Junho, Sábado 10h30 – 12h30
Seminário:
De Wall Street a Atenas

Eugénia Pires – Research on Money and Finance, London School of Oriental and African Studies.

15h – 17h
Seminário:
Pleno Emprego. Mas como?

António Casimiro Ferreira - Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

17h30 – 19h30
Seminário:
Ou serviços públicos, ou a selva

José Maria Castro Caldas - Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

20 de Junho, Domingo 10h30 – 12h30
Workshop de Encerramento:
A Crise de Alternativas

13h - Piquenique na Barragem de Castelo de Bode

Participação - Entrada Livre, limitada a 60 inscrições (enviar e-mail para veraouniversidade@gmail.com)

Estadia (2 noites com P.A.) - 20€ (5€ para jovens e estudantes)

- Transferência para o NIB: 0036 0143 9910 0014 7015 0 (Montepio)

- Enviar e-mail para
veraouniversidade@gmail.com,
confirmando pagamento com dia e hora de transferência.

- A reserva da Estadia só será confirmada depois de efectuado o pagamento.

Deslocação -
Para oferecer ou apanhar boleia enviar e-mail para veraouniversidade@gmail.com com telemóvel, cidade, dia e hora de partida e regresso.

Organização Fórum Manifesto
Centro de Estudos Sociais e Políticos


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