Cidadãos europeus, Uni-vos!

Financeirização?

Em artigo na “Visão”, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos pôs o dedo na ferida europeia, sem quaisquer rodeios e usando a teoria social crítica como guia para a compreensão que antecede o apelo à união dos trabalhadores europeus e dos seus diversos movimentos sociais:

“A luta de classes está a voltar sob uma nova forma mas com a violência de há cem anos: desta vez, é o capital financeiro quem declara guerra ao trabalho.”

A guerra ao trabalho reveste-se de múltiplas formas: da desregulamentação das relações laborais à erosão da provisão pública de bens sociais.

Os objectivos são claros: reduzir o peso dos salários directos e indirectos e relançar a acumulação de capital através da expropriação de bens comuns.

Os ideólogos nacionais deste processo europeu não escondem os seus objectivos. Daniel Bessa, por exemplo, defendeu na semana passada a privatização das escolas e dos hospitais. A miopia gerada pelas ideias e pelos interesses não cessa de me espantar.

Esta guerra, se for politicamente bem sucedida, apenas vai acentuar o chamado processo de financeirização das economias capitalistas maduras, ou seja, o processo de aumento da importância dos agentes, mercados e motivos financeiros.

A literatura económica sobre o domínio do capital financeiro, que circula sem entraves, tem assinalado vários padrões perversos que desembocam em sucessivas crises financeiras.

Em primeiro lugar, temos a pressão selectiva sobre os assalariados dentro de empresas cada vez mais obcecadas em criar valor para o accionista, o que tem levado a uma quebra dos rendimentos do trabalho no rendimento nacional em muitos países desenvolvidos e a um aumento generalizado das desigualdades.

Curiosamente, a satisfação dos accionistas não tem tradução nos indicadores de investimento criador de emprego.

Em segundo lugar, temos assistido, à escala europeia e mundial, à criação de desequilíbrios insustentáveis nas relações internacionais:

 modelos nacionais assentes no endividamento, que, em alguns casos, compensou temporariamente os efeitos negativos da estagnação salarial na procura, tendo como contrapartida modelos exportadores agressivos, assentes na compressão salarial permanente e cujos excedentes são reciclados pelo mercados financeiros.

Em terceiro lugar, o aumento da dependência dos trabalhadores face a um sistema financeiro naturalmente pouco transparente e cada vez mais complexo, que a erosão da provisão pública favorece, em áreas que vão da habitação à segurança social, intensifica aquilo a que o economista Costas Lapavitsas designa por “expropriação financeira” dos trabalhadores.

O aumento da presença e do controlo públicos do crédito ou a taxação das transacções financeiras são hoje a melhor forma de começar a responder, no campo das propostas, à guerra do capital financeiro.

«The ABCs of the economic crisis: what working people need to know», Fred Magdolf & Michael D. Yates

João Rodrigues, Ladrões de Bicicletas 



Publicado por Xa2 às 00:07 de 16.06.10 | link do post | comentar |

4 comentários:
De Referências político-económicas Esquerda a 16 de Junho de 2010 às 16:56
Reciprocidade

Um leitor - Vítor - pede referências sobre desigualdade económica e o chamado capital social (conceito muito elástico...). Em Portugal, o observatório das desigualdades é um bom sítio para iniciar a pesquisa.
O trabalho de Bo Rothstein do Quality of Government Institute é bastante interessante:
armadilha social e a relação entre a desigualdade económica e a erosão da confiança.

Ver também este trabalho sobre as fundações morais da confiança.
Já agora, poderá ter interesse a investigação sobre a relação entre a erosão do Estado social e o reforço do Estado penal e sobre a relação entre a desigualdade económica e a percentagem da força de trabalho dedicada a actividades de policiamento, vigilância e monitorização (“guard labour”).

E a relação entre as desigualdades, a preponderância do consumo conspícuo e a duração dos horários de trabalho?

Quando se começa a ler e a pensar sobre os impactos da desigualdade económica é difícil parar.

Publicada por João Rodrigues em 15.6.10 , Ladrões


De PSD leva a más práticas laborais. a 16 de Junho de 2010 às 16:52
Tragédia económica na zona euro

“A tragédia da zona euro é ser gerida como se fosse um colectivo de pequenos países”. O argumento de Wolfgang Münchau é macroeconómico e faz todo o sentido.

A procura de uma saída individual pelas exportações, através da compressão da procura interna, conseguida graças às políticas de austeridade, leva a um resultado colectivo potencialmente desastroso.

Esta costuma ser a orientação das chamadas pequenas economias abertas, mas tem sido nos últimos anos sobretudo a aposta do gigante alemão e tem guiado as decisões de política económica da UE.

As políticas de austeridade generalizada sabotam a recuperação e fazem com que a Europa possa cair na armadilha da recessão e da deflação, com o correspondente aumento do desemprego.

Engelbert Stockhammer, num artigo de 2008 sobre a quebra dos rendimentos do trabalho na zona euro e a subida do desemprego (ver gráfico), já tinha argumentado que, à escala europeia,
o modelo de crescimento económico tem de ser guiado pelos salários, o que requer mecanismos de coordenação salarial para evitar a corrida para o fundo nesta área, que está hoje em risco de se intensificar.

O problema, como assinala o sempre perspicaz Vincenç Navarro, não é a falta de lideres, mas sim a orientação ideológica e os enviesamentos de classe das escolhas politicas dos lideres existentes e de muitos dos aspirantes.
Escolhas ajudadas pelas regras europeias em vigor, claro.

Em Portugal, basta conhecer a proposta do PSD para alargar os tempos da precariedade e assim baixar os salários:
uma proposta que não manterá ou criará qualquer emprego, mas apenas estimulará as más práticas laborais.

Publicada por João Rodrigues em 16.6.10 , Ladrões


De Zé das Esquinas o Lisboeta a 16 de Junho de 2010 às 11:00
Se ninguém trabalhar (legalmente) onde vai o estado buscar o dinheiro para as suas despesas (orçamento)?
Eu sei que é utópica a questão, mas pretendo que sirva de relexão.
Se voltarmos ao 'gancho' ou seja à marginalidade de trabalho - aumentar a autosustentação (hortas, galinhas, etc) e de serviços (por troca/oferta), reduz-se as despesas do estado (salários) mas reduz-se também as receitas (não há IVA, IRS, IRC...).
Voltar à ruralidade pobre mas saudável e minimizar o consumo civizacional mas desnecessário à sobrevivência.
Mas tinhamos de ser todos, mas mesmo todos.
E não me venham cá com ilegalidades de trabalho porque o nosso Primeiro também já fez e assinou projectos à borla na Covilhã e ninguém disse que era ilegal.
E nos bens mesmo necessários íamos ao 'Continente' porque o 'tio Belmiro' entende e moralmente já autorizou...


De . a 16 de Junho de 2010 às 12:13
Certo,... porém essa ''simplificação ou abaixamento de nível de vida'' já não possível para muitos, especialmentes para crianças e jovens... comprometento o seu futuro.

Quanto ao 'tio Belmiro' nem pense em 'tirar sem pagar' pois o que ele diz são tretas demagógicas e cuja prática é desmentida nas suas lojas, empresas e actos.


Comentar post

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Novembro 2019

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO