Para lá das utopias constitucionais

Se a ideia de introduzir na Constituição limites para défices e dívidas públicas fosse por diante, seria ainda pior para os mais pobres

Nos intervalos do bloco central, o PSD tem andado numa azáfama constitucional. Trata-se, qual plano inclinado, de levar até às últimas consequências políticas, ou seja, até à Constituição, a lógica da erosão do Estado social e da fragilização das classes populares presente na perversa política de austeridade permanente com escala europeia. É isto que está por trás da ideia, que circula por aí, de dar dignidade constitucional a limites totalmente arbitrários, como os que proibiriam um défice orçamental superior a 3% do PIB ou uma dívida pública superior a 60%.

Limites que nenhum governo democrático em tempos de crise aguda do capitalismo maduro poderá cumprir sem gerar ainda mais desemprego e exclusão. Por muito que isto desgoste os moralistas das finanças públicas, os défices e a dívida são a consequência do andamento da economia. Por exemplo, a incensada e muito liberal Irlanda, que tinha uma dívida pública de 25% do PIB em 2007, ultrapassará os 77% em 2010. É o colapso da magia do mercado a gerar os défices que nenhuma Constituição trava.

Para não ficar atrás na utopia liberal, o jurista Diogo Leite Campos, eminente ideólogo da direcção de Passos Coelho, defendeu que a passagem de um Estado democrático para um Estado totalitário só poderia ser impedida com a fixação legal de um limite para a carga fiscal.

Que tal 40% do PIB, já que estamos no domínio dos números mágicos?

Leite Campos já tinha demonstrado o seu conhecimento profundo do país ao afirmar que auferir menos de 1000 euros por mês equivale a ser miserável.

Agora demonstra desconhecer que os Estados democráticos mais avançados, com as economias mais competitivas e solidárias - da Dinamarca à Suécia, passando pela Finlândia -, têm em comum, entre outras coisas, uma carga fiscal superior a 40%. A carga fiscal "elevada", longe de ser uma ameaça à democracia e às liberdades amplamente partilhadas, ajuda a efectivá-las. Por muito que isso custe a quem cai no último escalão do IRS.

Este é, de resto, um padrão bem identificado:

as democracias mais participadas, com movimentos sindicais fortes, com maior igualdade salarial antes de impostos e confiança mais elevada nas instituições, tendem a ter Estados sociais universais mais redistributivos e impostos mais elevados e progressivos.

Escolhas políticas que espevitam a inovação económica e ajudam a competitividade das nações. É que os empresários não têm alternativa. Têm mesmo de ser bons.

O país pode escolher:

em vez de constitucionalizar utopias liberais que acentuam a prepotência e a indolência empresariais, mais vale seguir os bons exemplos. Definitivamente, as obsessões constitucionais alemãs, que podem bem provocar uma crise europeia, não são a referência...

João Rodrigues, ionline


MARCADORES:

Publicado por Xa2 às 00:07 de 30.06.10 | link do post | comentar |

9 comentários:
De « 8 e 80 » a 30 de Junho de 2010 às 14:53
MOITA FLORES PRESIDENTE DA CAMARA DE SANTARÉM

Quando tomei posse como presidente da Câmara de Santarém fui confrontado com a quantidade de prendas que chegavam ao meu gabinete.
Era a véspera de Natal. Para um velho polícia, desconfiado e vivido, a hecatombe de presuntos, leitões, garrafas de vinho muito caro, cabazes luxuosos e dezenas de bolos-rei cheirou-me a esturro. Também chegaram coisas menores. E coisas nobres: recebi vários ramos de flores, a única prenda que não consigo recusar.

Decidi que todas as prendas seriam distribuídas por instituições de solidariedade social, com excepção das flores.

No segundo Natal a coisa repetiu-se. E então percebi que as prendas se distribuíam por três grupos. O primeiro claramente sedutor e manhoso que oferecia um chouriço para nos pedir um porco. O segundo, menos provocador, resultava de listas que grandes empresas ligadas a fornecimento de produtos, mesmo sem relação directa com o município, que enviam como se quisessem recordar que existem. O terceiro grupo é aquele que decorre dos afectos, sem valor material mas com significado simbólico: flores, pequenos objectos sem valor comercial, lembranças de Natal.

Além de tudo isto, o correio é encharcado com milhares de postais de boas-festas que instituições públicas e privadas enviam numa escala inimaginável. Acabei com essa tradição. Não existe tempo para apreciar um cartão de boas--festas quando se recebe milhares e se expede milhares.

Quanto às restantes prendas, por não conseguir acabar com o hábito, alterei-o. Foi enviada nova carta em que informámos que agradecíamos todas as prendas que enviassem. Porém, pedíamos que fosse em géneros de longa duração para serem ofertados ao Banco Alimentar contra a Fome. Teve um duplo efeito: aumentou a quantidade de dádivas que agora têm um destino merecido. E assim, nos últimos dois Natais recebemos cerca de 8 toneladas de alimentos.

Conto isto a propósito da proposta drástica que o PS quer levar ao Parlamento que considera suborno qualquer oferta feita a funcionário público. Se ao menos lhe pusessem um valor máximo de 20 ou 30 euros, ainda se compreendia e seria razoável. Em vários países do mundo é assim. Aqui não. Quer passar-se do 8 para o 80. O que significa que nada vai mudar. Por isso, fica já claro que não cumprirei essa lei enquanto funcionário público. Enquanto autarca aceitarei prendas que possam ser encaminhadas para o Banco Alimentar. E jamais devolverei uma flor que me seja oferecida.

Francisco Moita Flores, Professor Universitário


De Pessoas 'ensanduichadas no limbo'. a 30 de Junho de 2010 às 11:03

Famílias portuguesas no "limbo".

Um estudo coordenado pelo ISCTE revela como vivem as famílias portuguesas que se consideram num "limbo", em trajectória social descendente. Estão um degrau acima do limiar da pobreza e representam quase um terço da população.

São gente vulgar. Não estão classificados oficialmente como pobres, a maioria ainda não perdeu o emprego, têm filhos a cargo e uma dificuldade comum em conseguir chegar ao fim do mês sem percalços de maior.

Um estudo da Tese - Associação para o Desenvolvimento, que será hoje apresentado em Lisboa, mostra quem são e omo vivem estas "famílias-sanduíche" - uma noção aplicada a agregados que beneficiam de "demasiados recursos para aceder a prestações sociais", mas que experimentam particulares dificuldades" em conseguir responder às despesas usuais.

Os adultos que integram estes agregados ganham por mês entre 379 e 799 euros - estão por isso acima do limar da pobreza, uma linha que separa quem ganha mais ou menos do que 60 por cento do rendimento médio - e representam 31 por cento dos agregados residentes em Portugal. Outros 20,1 por cento estão classificados como pobres.

Maria, licenciada, de 33 anos, figura entre os primeiros. Diz sobre ela própria que é "uma pessoa em stand-by". Reside em Lisboa - a maioria das famílias-sanduíche habita em áreas urbanas - é trabalhadora independente, sente-se "injustiçada". Os estudos valeram-lhe de pouco: ir às vezes ao cinema ou ao teatro, comprar um livro são gestos que entraram para a categoria dos "luxos". Maria é um dos 54 entrevistados que dão corpo ao estudo coordenado pelo Centro de Estudos Territoriais do ISCTE, em parceria com a Gulbenkian e o Instituto da Segurança Social. Nem todos pertencem às chamadas famílias-sanduíche. Este estudo sobre as necessidades em Portugal foi também procurar saber como vivem, entre outros, adultos que vivem em regime de sobreocupação, que aumentaram as suas qualificações ou que passaram à reforma recentemente.

Um quinto dos inquiridos tem dificuldades no pagamento das contas da casa, 12 por cento não tem dinheiro para comprar todos os medicamentos de que precisa. Para 21 por cento das famílias-sanduíche a capacidade para suportar despesas inesperadas é inexistente. Mas isto é o que sucede também com 21,5 por cento do total de agregados portugueses. Gente normal, portanto. Como o são também Vera, de 35 anos, e Henrique, de 38, ela com um bacharelato, ele doutorado a viver de bolsas sucessivas e incertas. Vera diz sentir a vida "hipotecada".

No geral, estas pessoas estiveram mais anos na escola do que os seus pais, têm mais qualificações do que eles, mas sentem que estão "numa trajectória social intergeracionalmente descendente". "Fazer planos é algo que a generalidade considera inglório", frisam os autores. Apesar da sua experiência, continuam a considerar que uma maior qualificação é indispensável para garantir uma melhor qualidade de vida e é essa a sua principal aposta no que respeita aos filhos. Um factor que acaba por acrescentar mais insegurança ao seu quotidiano - receiam não ter capacidades financeiras para "proporcionar aos filhos a formação necessária".

Para os investigadores, os casos observados confirmam a necessidade de se pôr fim aos regimes laborais que são propiciadores de pobreza - caso dos "falsos recibos verdes". Subscrevem também uma recomendação já feita pela Assembleia da República em 2008 com vista à "definição de um limiar de pobreza "em função do nível de rendimento nacional e das condições de vida padrão na nossa sociedade". A linha dos 60 por cento é uma medida europeia, com variações consoante o rendimento médio auferido pelas populações. Em Portugal, as pessoas em risco de pobreza vivem com cerca de 360 euros, na Dinamarca este limite situa-se nos 900 euros.

A taxa de pobreza é calculada já depois das transferências dos apoios sociais para as famílias. Sem estes, abrangeria 40 por cento da população em Portugal.

- por Alvarez, 28.6.2010 , http://alvarez-sud-express.blogspot.com/2010/06/familias-portuguesas-no-limbo.html


De . a 30 de Junho de 2010 às 10:57
"O FASCISMO FINANCEIRO"

É já a segunda vez que este blog regressa ao Prof. BOAVENTURA SOUSA SANTOS.

É um nome a reter.

Tem-nos sempre oferecido uma análise isenta e rigorosa, mas igualmente sempre empenhada, sobre este país, esta europa, este mundo.

O seu pensamento é um contributo incontornável de que a nossa cidadania política não pode abdicar nem escamotear .
Há pois que estar atento à sua obra.
E não apenas àquela que, dispersa, nos vai deixando pelos sites, jornais e revistas, como é o caso do texto que, com a devida vénia, aqui se transcreve, há já algum tempo publicado na " VISÃO" de 06 de Maio de .2010 :

«
Há 12 anos publiquei, a convite do Dr. Mário Soares, um pequeno texto (Reinventar a Democracia ) que, pela sua extrema actualidade, não resisto à tentação de evocar aqui.Nele considero que um dos sinais da crise da democracia é a emergência do fascismo social. Não se trata do regresso ao fascismo do século passado. Não se trata de um regime político, mas antes de um regime social. Em vez de sacrificar a democracia às exigências do capitalismo, promove uma versão empobrecida de democracia que torna desnecessário e mesmo inconveniente o sacrifício. Trata-se pois de um fascismo pluralista e, por iso de uma forma de fascismo que nunca existiu. Identificava então cinco formas de sociabilidade fascista, uma das quais era o fascismo financeiro. Retomo o que então escrevi.
O fascismo financeiro é talvez o mais virulento. Comanda os mercados financeiros de valores e de moedas, a especulaçãofinanceira global, um conjunto hoje designado por economia de casino. Esta forma de fascismo social é talvez a mais pluralista na medida em que os movimentos são o produto de decisões de investidores individuais ou institucionais espalhados por todo o mundo e, aliás, sem nada em comum senão o desejo de rentabilizar os seus valores. Por ser o fascismo mais pluralista é também o mais agressivo, porque o seu espaço-tempo é o mais refractário a qualquer intervenção democrática. Significativa, a este respeito, é a resposta do corretor da bolsa de valores quando lhe perguntavam o que para ele era o longo prazo : " Longo prazo para mim sõ os próximos dez minutos ". Este espaço-tempo virtualmente instantâneo e global, combinado com a lógica de lucro especulativa que o sustenta, confere um imenso poder discricionário ao capital financeiro, praticamente incontrolável apesar de suficientemente poderoso para abalar, em segundos, a economia real ou a estabilidade política de qualquer país

A virulência do fascismo financeiro reside em que ele, sendo de todos o mais internacional, está a servir de modelo a instituições de regulação global crescentemente importantes, apesar de pouco conhecidas do público. Entre elas, as empresas de rating, a empresas internacionalmente acreditadas para avaliar a situação financeira dos Estados e os consequentes riscos e oportunidades que eles oferecem aos investidores internacionais. As notas atribuidas - que vão de AAA a D - são determinantes para as condições em que um país ou uma empresa de um país pode aceder ao crédito internacional. Quanto mais alta a nota, melhores as condições.

Estas empresas têm um poder extraordinário. Segundo o colunista do New York Times, Thomas Friedman, " o mundo do pós guerra fria tem duas superpotências: os EUA e a agência Moody's . A " Moody's é uma dessas agências de rating, ao lado da Standard and Poor's e Fitch Investors Services. Friedman justifica a sua afirmação acrescentando que " se é verdade que os EUA podem aniquilar um inimigo utilizando o seu arsenal militar, a agência de qualificação financeira Moody's tem poder para estrangular financeiramente um país, atribuindo-lhe uma má nota"

Num momento em que os devedores públicos e privados entram numa batalha mundial para atrair capitais, uma má nota pode significar o colapso financeiro do país. Os critérios adoptados pelas empresas de rating são em grande medida arbitrários, reforçam as desigualdades no sistema mundial e dão origem a efeitos perversos: o simples rumor de uma próxima desqualificação pode provocar enorme convulsão no mercado de valores de um país.. O poder discricionário destas empresas é
... »
http://bento-machado.blogspot.com/2010/06/o-fascismo-financeiro.html


De Pornografia salarial a 30 de Junho de 2010 às 10:49
Pornografia Salarial

O Banco Privado Português causou sérios prejuízos aos seus depositantes.
Em Abril foi decretada a sua falência.
Muitos clientes, portugueses com algumas poupanças, perderam anos de trabalho que tinham depositado neste banco.

Nos dez anos de 1999 a 2008 o seu Presidente recebeu mais de doze milhões de euros de prémios e retribuições.
Em 2008, ano em que este banco entrou em dificuldades e que solicitou ajuda ao Estado e ao Banco de Portugal, o seu Presidente recebeu três milhões de euros. Segundo o próprio beneficiário estas verbas já são liquidas, livres de impostos.

Esta é mais uma história do nosso capitalismo financeiro, revelador da ambição excessiva que contagiou algumas elites.
Num banco em risco de falência o seu presidente recebeu um montante absurdo, “prémio” pela sua gestão.

Somos um dos países mais desiguais de toda a Europa.
O Presidente da República veio no 25 de Abril condenar, mais uma vez, as remunerações excessivas de alguns gestores, nomeadamente quando estão à frente de empresas de capitais públicos.
Mas não nos bastam as palavras de condenação. São precisas politicas e medidas que combatam a actual situação.

Alguns defendem que estes salários se justificam porque se trata de gestores extraordinários, que se não forem devidamente remunerados irão trabalhar para o estrangeiro.
Por não poderem receber o que merecem em Portugal, Ronaldo joga no Real Madrid e Mourinho treina o Inter.
Portugal é um país de dez milhões de habitantes que não pode ter um campeonato tão competitivo como aquele que se verifica em países mais ricos, mais populosos e com maior mercado.

São os melhores do mundo e a sua saída para o estrangeiro não prejudica Portugal. Até nos beneficia e nos envaidece como povo.
António Guterres também tem um elevado cargo internacional e Durão Barroso é o “número um” a nível europeu.

Estes portugueses que trabalham no estrangeiro são uma excelente propaganda das nossas qualidades humanas e trarão para o nosso país grande parte dos ordenados que auferem.
Seria absurdo proibi-los de mostrar todo o seu génio fora de Portugal.

Se alguns dos gestores nas nossas empresas públicas, que estão a beneficiar de salários escandalosos, for trabalhar para outro país, porque lhes pagam mais, penso que lhes devemos desejar os maiores sucessos.

Se alguns se fartarem de trabalhar em empresas do Estado talvez optem por ter iniciativas empresariais próprias, onde criarão riqueza e novos ordenados. Portugal bem precisa de livre iniciativa.

O pior que lhes podemos fazer é satisfazer todos os seus desejos materiais, acomodando-os, impedindo-os de revelar todo o seu potencial.
Precisamos da sua inquietude para se tornarem mais criativos.

Nós queremos os melhores à frente dos destinos do País.
Queremos escolher o melhor Presidente da República e o melhor Primeiro-ministro.
Mas todos sabemos que estes elevados cargos não devem ser remunerados com valores escandalosos.
É um principio moral e ético de sociedade tolerar diferenças, premiar qualidades, mas também impedir excesso de desigualdades.

É inadmissível que o mesmo povo, que deve escolher os melhores para as suas chefias de Estado e de Governo, venha depois permitir que simples gerentes de empresas participadas pelo Estado sejam remunerados com salários verdadeiramente pornográficos.

Está na altura de acabar com esta situação.
Àqueles que detêm o poder temos de exigir medidas e não simples palavras bonitas.

(Publicado no Diário de Coimbra em 18.05.2010), Esquina do Tempo, 17.5.2010 ,
http://carlosvferreira.blogspot.com/2010/05/pornografia-salarial.html


De . a 30 de Junho de 2010 às 10:22
Gzero
Vinte, noves fora nada, foi o resultado do G20.

Nem taxa sobre as transacções financeiras nem imposto especial sobre os bancos.
Neste aspecto a senhora Merkel (com a Europa a reboque) parece não ter sido nada persuasiva.

O mesmo parece já não se poder dizer da prioridade ao défice e à dívida.
Aqui contra (quase) todos a senhora Merkel diz ter marcado pontos.

No entanto, vejamos bem o que é que o G20 concluiu quanto ao défice:
reduzir para metade até 2013 sem dizer como.
E o importante era dizer como, coordenar a estratégia, escolher entre a via Merkel da sangria desatada ou a via Obama da redução faseada pelo crescimento.

O G20 não disse como. Afinal até quanto ao défice o G20 decidiu zero.

-por José M. Castro Caldas, em 28.6.2010, Ladrões de b.


De 'consultores' comprados... a 30 de Junho de 2010 às 10:13
Consultor do capitalismo de desastre
-por João Rodrigues*, em 15.03. 2010, http://www.ionline.pt/conteudo/51088-consultor-do-capitalismo-desastre

É conveniente que se esqueçam como a crise começou: das desigualdades à especulação. A memória é perigosa, mas frágil.

Quando o Estado social enfraquece, aumenta o número de presos .

Vários estudos mostram que quanto maior é a desigualdade de rendimentos, maior é o peso da população prisional e mais intensos são outros problemas sociais.
Grandes oportunidades de negócio à vista. Peguem então num país já de si desigual.
Fragilizem, com planos ditos de estabilidade, o seu fraco Estado social e o que resta das regras que protegem uma parte dos trabalhadores e dos grupos sociais mais vulneráveis.
Do subsídio de desemprego ao pagamento de horas extraordinárias, passando pelo rendimento social de inserção, ainda há muito que erodir. Já está? Muito bem.
Um novo aumento do desemprego e da precariedade, que se segue à contracção da procura popular, ajuda a esfarelar solidariedades e a reduzir custos salariais.
É violento e dá uma trabalheira política, bem sei, mas têm de convir que a luta de classes que precede os vossos negócios nunca foi um chá dançante.

Arranjem bodes expiatórios:
dos imigrantes aos pobres, passando pelos funcionários públicos ou pelos sindicatos.
Estes últimos são perfeitos para a intervenção de alguns intelectuais públicos que servem de vossos idiotas úteis.
Aliás, não se esqueçam de os contratar para estarem sempre na televisão, num monólogo de economia do choque e do pavor.

É bom que as pessoas tenham medo e se isolem nos seus tempos ditos livres.
Lembrem-se que a depressão é outra boa oportunidade de negócio.

Também é conveniente que as pessoas esqueçam como esta crise começou:
do aumento das desigualdades à especulação financeira sem freios, depois de décadas das vossas liberalizações. A memória é perigosa, mas frágil.

E podem evitar prejudiciais mobilizações se conseguirem que as alternativas socialistas e democráticas tenham pouca visibilidade.

Depois é continuar a imitar o modelo do capitalismo de predação, ou seja, os EUA, a terra dessa liberdade:
construir prisões e investir na segurança e nos condomínios privados, excelentes negócios em sociedade fracturadas.
Quase um em cada cem adultos na prisão, como nos EUA?
Talvez seja demasiado ambicioso, mas lembrem-se que o enfraquecimento do Estado social é o reforço do Estado penal.

Entretanto, mobilizem mais economistas convencionais:
é preciso exaltar as virtudes da grande empresa, perdão, do mercado.
Aliás, digam sempre "os mercados" num tom ameaçador.
É que ainda há monopólios que podem arrebanhar a bom preço ou com bom financiamento público: dos correios à REN.

O Estado financia e vocês gerem os novos equipamentos ditos públicos - as tais prisões, por exemplo -, como acontece nos EUA ou em Inglaterra.

De facto, as parcerias público-privadas são um dos grandes negócios que ainda se pode expandir neste capitalismo de crise em crise, como já vos disse várias vezes...

*Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
..............comentários: .........
José Ferreira

E se privatizarmos as prisões, melhor ainda.
E se for possível, como nos EUA, subornar uns tantos juízes para condenar mais pessoas a penas de prisão, então estaremos num perfeito paraíso...

.......
Carlos Rodrigues

(...)à especulação financeira sem freios, depois de décadas das vossas liberalizações.(...)
É a ausência do Estado como entidade responsável e fiscalizadora.
O deixa andar o mercado livremente, como gostam de afirmar os neoliberais, cuja definição de mercado livre é consoante os seus interesses.


De . a 30 de Junho de 2010 às 10:17
Amin

“Sem Estado não há moeda.” A crise europeia numa frase.
O economista Samir Amin escreve sobre os problemas da zona euro. Continuo a achar que,
mesmo tendo em conta todas as dificuldades, a prioridade política à esquerda deve ser dada a uma saída por cima.
Uma saída que crie os mecanismos políticos de governação económica:
de um orçamento europeu com peso à dívida pública europeia e a um BCE que financie os Estados, passando por mecanismos de coordenação salarial e de política industrial que impeçam a corrida salarial para o fundo e que permitam que os países com défices persistentes possam suspender algumas das regras do mercado interno.

Caso contrário, temos mesmo de nos preparar para o colapso do euro.
Amin continua em boa forma intelectual e política. Pena que o mesmo não se possa dizer de alguns
economistas, convertidos em bem pagos consultores da nossa lumpemburguesia, que o liam avidamente nos idos de setenta, mas que nos anos oitenta e noventa passaram a pôr o carro à frente dos bois…

-por João Rodrigues, 29.6.2010, Ladrões de b.


De . a 30 de Junho de 2010 às 10:02
Entre os especuladores e a lumpemburguesia?

- por João Rodrigues*, 08.03.2010 http://www.ionline.pt/conteudo/49975-entre-os-especuladores-e-lumpemburguesia

Adam Smith já nos tinha alertado no século XVIII:
cada vez que os capitalistas de um mesmo ofício se reúnem para conversar, geralmente é para conspirar contra o público.
Adam Smith não tinha visto nada. Alguns grandes especuladores nos mercados cambiais, que desde a abolição dos controlos de capitais se têm entretido a ganhar dinheiro à custa da devastação das economias, encontraram-se recentemente para jantar em Nova Iorque, segundo o "Wall Street Journal". No menu estava a aposta na desvalorização do euro e, qual profecia auto-realizada, a eventual implosão da zona euro.

Saber que à frente da Comissão se encontra um neoliberal da estirpe de Barroso e que o BCE é dominado por fanáticos do monetarismo que hesitam em dar todo o apoio a quem se encontra em dificuldades deixa-nos ainda mais apreensivos.

No entanto, sigamos os apelos ao optimismo e concentremo-nos nas boas notícias nacionais.
Em tempos de desemprego e de salários em atraso, não são só os bancos que apresentam lucros elevados:
as empresas que controlam o sector da energia ou as auto-estradas também. A fraude que domina o debate económico dá vivas ao empreendedorismo.

Trata-se, na realidade, de antigas empresas públicas privatizadas de forma míope pelo bloco central dos interesses para reconstituir grupos económicos com bases industriais subalternas, com reduzida consciência nacional e que operam em sectores que, dadas as suas características quase naturais, dão sempre grande poder de mercado:
infra-estruturas públicas, muita distribuição, imobiliário, especulação financeira, pouca indústria e demasiada liquidez investida no estrangeiro.

Oscilam entre a expropriação financeira de outros sectores (perguntem aos verdadeiros empresários o que se passa na assimétrica relação com a banca, por exemplo), o rentismo fundiário, a captura de reguladores e de pessoal político, mais importação do que exportação:
uma lumpemburguesia criada por más políticas e que deu origem a uma economia dependente.
Perante a pressão da crise muitos salivam pela fruta doce: os serviços e as infra-estruturas públicas, da saúde aos aeroportos.

A economia portuguesa está então entre a espada dos especuladores desabridos e a parede de betão que abafa a burguesia empreendedora.
Como sair daqui?
Com política industrial selectiva, controlos de capitais à escala europeia, serviços e equipamentos públicos protegidos de predações privadas e maior controlo público da banca, à mistura com instituições europeias e Estados nacionais (com a Alemanha à cabeça) que assumam as suas responsabilidades.

Aliás, dada a importância dos mercados do Sul da Europa e o peso dos seus títulos de dívida no sector financeiro das grandes economias europeias, a "solidariedade" europeia traduz-se na protecção do seu smithiano interesse próprio...

* Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
........
António Geraldo Dias comenta:

O CAPITAL ESPECULATIVO ganha a dianteira do capital financeiro e retira do circuito económico recursos desviando-os para a especulação, exacerbando os riscos de sobrevivência económica.

A especulação é o acto de negociar instrumentos financeiros – divisas, acções, títulos, derivados financeiros- com o objectivo de fazer dinheiro.
O capital especulativo sai fora do circuito produtivo e é o próprio circuito do capital-dinheiro a suster a actividade do capital especulativo.

O capital especulativo não é reinvestido na contratação de novos trabalhadores, mas em mercados cambiais, de divisas, de títulos e derivados.
O que começou como uma actividade de substituição de riscos privados transformou-se numa actividade de alto risco para toda a economia, à medida que cada vez mais recursos estão sendo desviados, da criação de emprego, de planos públicos de reformas ou de saúde, para alimentar a orgia especulativa.

Quanto às empresas há as que são capazes de criar dinheiro financeiro e conseguir privatizações, concessões, projectos, requalificações, e outras que não são... e que acabam ou sendo compradas ou absorvidas por aquelas. http://ensaiosimperfeitos.blogspot.com


De 'banqueiros crocodilos''... a 30 de Junho de 2010 às 09:37
Afinal os bancos ganham pouco. Temos de os ajudar

Mário Crespo, Medina Carreira e Nuno Crato debatem a situação bancária em Portugal com o presidente da Associação Portuguesa de Bancos António Sousa.

Quem tiver paciência pode ver e ouvir o que disseram com um clic aqui em baixo.
Quase só falou António de Sousa o que em certa medida salvou a conversa. Mas ele não estava ali para
pôr a nu as habilidades do "sistema financeiro" com os "produtos tóxicos" e outras actividades mafiosas.
António de Sousa não foi ali
explicar como os bancos e o sistema financeiro esbulham (roubam é o termo) a riqueza criada por quem trabalha;
como podem levar à falência países inteiros ou a crises tão graves como a que o mundo vive desde 2008.
Crises pagas invariavelmente pelas classes médias e os trabalhadores.

António de Sousa explicou que afinal os bancos ganham muito pouco. Com os bens próprios e que, coitados a maior parte dos (fabulosos) lucros vem de aplicações financeiras, dividendos, etc. (..!!.....)

Fez-me lembrar Álvaro de Campos em
"Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...) .......... " ( Texto e video com poema dito por João Villaret)

Os bancos, segundo António de Sousa, pobrezinhos ganham muito pouco (excepto, naturalmente, o que ganham (e colocam) na algibeira (offshores) onde trazem mais dinheiro.
Sim que o banco não é parvo nem romancista russo, aplicado, e romantismo, sim, mas devagar...).


Comentar post

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO