De . a 30 de Junho de 2010 às 10:02
Entre os especuladores e a lumpemburguesia?

- por João Rodrigues*, 08.03.2010 http://www.ionline.pt/conteudo/49975-entre-os-especuladores-e-lumpemburguesia

Adam Smith já nos tinha alertado no século XVIII:
cada vez que os capitalistas de um mesmo ofício se reúnem para conversar, geralmente é para conspirar contra o público.
Adam Smith não tinha visto nada. Alguns grandes especuladores nos mercados cambiais, que desde a abolição dos controlos de capitais se têm entretido a ganhar dinheiro à custa da devastação das economias, encontraram-se recentemente para jantar em Nova Iorque, segundo o "Wall Street Journal". No menu estava a aposta na desvalorização do euro e, qual profecia auto-realizada, a eventual implosão da zona euro.

Saber que à frente da Comissão se encontra um neoliberal da estirpe de Barroso e que o BCE é dominado por fanáticos do monetarismo que hesitam em dar todo o apoio a quem se encontra em dificuldades deixa-nos ainda mais apreensivos.

No entanto, sigamos os apelos ao optimismo e concentremo-nos nas boas notícias nacionais.
Em tempos de desemprego e de salários em atraso, não são só os bancos que apresentam lucros elevados:
as empresas que controlam o sector da energia ou as auto-estradas também. A fraude que domina o debate económico dá vivas ao empreendedorismo.

Trata-se, na realidade, de antigas empresas públicas privatizadas de forma míope pelo bloco central dos interesses para reconstituir grupos económicos com bases industriais subalternas, com reduzida consciência nacional e que operam em sectores que, dadas as suas características quase naturais, dão sempre grande poder de mercado:
infra-estruturas públicas, muita distribuição, imobiliário, especulação financeira, pouca indústria e demasiada liquidez investida no estrangeiro.

Oscilam entre a expropriação financeira de outros sectores (perguntem aos verdadeiros empresários o que se passa na assimétrica relação com a banca, por exemplo), o rentismo fundiário, a captura de reguladores e de pessoal político, mais importação do que exportação:
uma lumpemburguesia criada por más políticas e que deu origem a uma economia dependente.
Perante a pressão da crise muitos salivam pela fruta doce: os serviços e as infra-estruturas públicas, da saúde aos aeroportos.

A economia portuguesa está então entre a espada dos especuladores desabridos e a parede de betão que abafa a burguesia empreendedora.
Como sair daqui?
Com política industrial selectiva, controlos de capitais à escala europeia, serviços e equipamentos públicos protegidos de predações privadas e maior controlo público da banca, à mistura com instituições europeias e Estados nacionais (com a Alemanha à cabeça) que assumam as suas responsabilidades.

Aliás, dada a importância dos mercados do Sul da Europa e o peso dos seus títulos de dívida no sector financeiro das grandes economias europeias, a "solidariedade" europeia traduz-se na protecção do seu smithiano interesse próprio...

* Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
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António Geraldo Dias comenta:

O CAPITAL ESPECULATIVO ganha a dianteira do capital financeiro e retira do circuito económico recursos desviando-os para a especulação, exacerbando os riscos de sobrevivência económica.

A especulação é o acto de negociar instrumentos financeiros – divisas, acções, títulos, derivados financeiros- com o objectivo de fazer dinheiro.
O capital especulativo sai fora do circuito produtivo e é o próprio circuito do capital-dinheiro a suster a actividade do capital especulativo.

O capital especulativo não é reinvestido na contratação de novos trabalhadores, mas em mercados cambiais, de divisas, de títulos e derivados.
O que começou como uma actividade de substituição de riscos privados transformou-se numa actividade de alto risco para toda a economia, à medida que cada vez mais recursos estão sendo desviados, da criação de emprego, de planos públicos de reformas ou de saúde, para alimentar a orgia especulativa.

Quanto às empresas há as que são capazes de criar dinheiro financeiro e conseguir privatizações, concessões, projectos, requalificações, e outras que não são... e que acabam ou sendo compradas ou absorvidas por aquelas. http://ensaiosimperfeitos.blogspot.com


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