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De Dieta Mental e informação selecta... a 7 de Julho de 2010 às 12:56
A Obesidade Mental - Andrew Oitke

Por João César das Neves - 26 de Fev 2010

O prof. Andrew Oitke publicou o seu polémico livro «Mental Obesity»,
que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais
em geral.

Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o
conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema
da sociedade moderna.

«Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos
do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada.

Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação
e conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.»

Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de
preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que
de hidratos de carbono.

As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos
tacanhos, condenações precipitadas.

Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada.

Os cozinheiros desta magna "fast food" intelectual são os jornalistas
e comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas
e realizadores de cinema.

Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as
revistas e romances são os donuts da imaginação.»

O problema central está na família e na escola.

«Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se
comerem apenas doces e chocolate.

Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a
dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados,
videojogos e telenovelas.

Com uma «alimentação intelectual» tão carregada de adrenalina,
romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam
depois uma vida saudável e equilibrada.»

Um dos capítulos mais polémicos e contundentes da obra, intitulado "Os
Abutres", afirma:

«O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de
reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das
realizações humanas.

A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e
manipular.»

O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade
fervilhante, para se centrarem apenas no lado polémico e chocante.

«Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais.»

Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura.

«O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades.

Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy.

Todos dizem que a Capela Sistina tem tecto, mas ninguém suspeita para
que é que ela serve.

Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam porquê.

Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto».

As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras.

«Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes
realizações do espírito humano estejam em decadência.

A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a
cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil,
paradoxal ou doentia.

Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo.

Não se trata de uma decadência, uma «idade das trevas» ou o fim da
civilização, como tantos apregoam.

É só uma questão de obesidade.

O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos.

O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos.

Precisa sobretudo de dieta mental.»


De Xa2 a 7 de Julho de 2010 às 11:54
A escritora Matilde Rosa Araújo faleceu, aos 89 anos, após doença prolongada, na sua residência, em Lisboa.
Deixa mais de 20 livros para a infância, entre os “O Livro da Tila”, nome pelo qual era conhecida entre os amigos. No próximo mês de Outubro será editado o conto “Florinda e o Pai Natal”.

O corpo da autora está em câmara ardente na Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). O funeral da escritora é quarta-feira, às 15h, no Cemitério dos Prazeres.

As mensagens de pesar pela morte de Matilde Rosa Araújo apontam para as diferentes facetas da escritora.

Cavaco Silva sublinha a obra literária e a acção cívica sobre os direitos das crianças, dizendo que Matilde Rosa Araújo "ganhou o respeito dos seus pares e de todos os inúmeros leitores de diferentes gerações que apreciaram os seus livros".
Em mensagem disponível no site da Presidência da República, Cavaco Silva refere prestar "homenagem a uma mulher merecedora do respeito de todos os que acompanharam o seu percurso pessoal e profissional".

A ministra da Educação prefere destacar o "efeito extremamente importante na sensibilidade dos professores e na forma como os livros são lidos na sala de aula" e apontar a "grandeza de alma extraordinária", por quem "tinha a maior admiração".
Segundo Isabel Alçada, Matilde Rosa Araújo "deu um contributo maravilhoso para a nossa literatura e para a forma como os adultos se relacionam com as crianças".

Também o Ministério da Cultura veio lamentar a morte de Matilde Rosa Araújo, salientando que a escritora "revolucionou a literatura infanto-juvenil através de uma escrita singular".
Uma nota dos gabinetes da ministra Gabriela Canavilhas e do secretário de Estado Elísio Summavielle refere que a autora "criou e povoou o imaginário de inúmeras crianças portuguesas e que influenciou inequivocamente gerações de escritores contemporâneos de literatura para a infância e juventude".
É a sua "cidadania activa, profundamente empenhada nos direitos das crianças, que deixará imensa saudade e que continuará a ser recordada por todos quantos a conheceram e os muitos mais que leram a sua escrita", acrescenta o texto.

Cidadã activa, bondosa e fonte de humor

O presidente do Centro Nacional de Cultural também sublinha a faceta de "educadora e formadora, defensora dos direitos das crianças de um modo muito persistente e pioneiro".
Guilherme d'Oliveira Martins aponta que Matilde Rosa Araújo "começou a introduzir o tema da necessidade de ver as crianças como titulares de direitos e de cidadania desde muito cedo", tendo a sua obra espelhado preocupação "com os temas que lhe eram queridos, como a educação pela literatura e a defesa da língua portuguesa".
"Era uma pessoa fantástica e deixa muitas saudades", disse Oliveira Martins a propósito da sócia do Centro Nacional da Cultura, concluindo: "A sua morte faz-nos sentir que há mesmo pessoas insubstituíveis. De facto, as pessoas são irrepetíveis."

A escritora Adélia Carvalho, autora da biografia romanceada de Matilde Rosa Araújo, destaca a experiência de partilha e proximidade. "É uma grande perda como pessoa e como profissional, que levantou problemas muito sérios para as crianças", acrescentando que "são poucas as pessoas que puseram o dedo na ferida".

Ana Maria Magalhães, autora de livros infanto-juvenis, destaca o legado de Matilde Rosa Araújo, composto por "belíssimos livros para crianças, belíssimos poemas e um rasto muito singular de doçura e simpatia".
"Pouco dias depois de publicarmos o nosso (com Isabel Alçada) primeiro livro, "Uma Aventura na Cidade", recebemos um cartão a felicitar-nos pela alegria do nosso livro para as crianças. Ficámos surpreendidas e encantadas, pois ainda éramos professoras primárias desconhecidas", contou, acrescentando que o contacto manter-se-ia ao longo dos anos.

Luísa Ducla Soares, de 71 anos, refere-se à autora de "O Livro da Tila" e "O Cantar da Tila", como "uma espécie de mãe" para os autores da literatura infantil em Portugal. "É uma espécie de mãe que nos morre porque ela encontrava sempre uma forma de ajudar os escritores mais novos, não só no sentido intelectual como afectivo", recordou a escritora à agência Lusa.
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http://tv1.rtp.pt/noticias/index.php?t=Corpo-de-Matilde-Rosa-Araujo-em-camara-ardente-na-SPA.rtp&ar


De Xa2 a 7 de Julho de 2010 às 11:59
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"Às vezes era tão boa, tão benévola, que até era difícil ser júri de prémios literários com ela porque encontrava algo de positivo até nas coisas más", notou Ducla Soares, que ainda aponta a "fonte de graça e humor" da amiga.

Ensino, direitos das crianças e literatura infantil

A escritora, que nasceu em 1921, em Benfica, teve uma carreira ligada ao ensino, à defesa dos direitos das crianças e à literatura infantil. Foi aluna de Jacinto do Prado Coelho e Vitorino Nemésio e colega de Sebastião da Gama, Luísa Dacosta, David Mourão-Ferreira e Urbano Tavares Rodrigues.

Licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, com uma tese sobre jornalismo, Matilde Rosa Lopes de Araújo foi professora do primeiro curso de Literatura para a Infância na Escola do Magistério Primário de Lisboa e do ensino técnico profissional em Lisboa, Barreiro, Portalegre, Elvas e Porto.

Colaboradora assídua da imprensa nacional e regional, Matilde Rosa Araújo publicou em "A Capital", "O Comércio do Porto", "República", "Diário de Lisboa", "Diário de Notícias", "Jornal do Fundão" e nas revistas "Távola Redonda", "Graal", "Árvore", "Vértice", "Colóquio/Letras" e "Seara Nova".

A defesa dos direitos das crianças foi cultivada através da publicação sobre o interesse da infância na educação e sobre a utilidade da literatura infanto-juvenil na formação dos mais novos. Foi fundadora do Comité Português da UNICEF e do Instituto de Apoio à Criança.

Criação literária

A intensa actividade literária - escreveu cerca de 40 obras para crianças e adultos - granjeou-lhe o reconhecimento do público adulto e infanto-juvenil, com traduções no estrangeiro, e diversos galardões. Os seus livros versam a infância dourada, a infância agredida e a infância como projecto.

O seu primeiro livro, "A Garrana", é uma novela sobre a eutanásia, editada em 1943, dois anos antes de concluir a licenciatura. Com esta obra, Matilde Rosa Araújo venceu o concurso "Procura-se um Novelista" do jornal "O Século".

O percurso como escritora de literatura infantil foi iniciado em 1957, com "O Livro da Tila", construído nas viagens de comboio entre Lisboa e Portalegre, onde dava aulas e se tornou amiga de José Régio. Os poemas foram musicados por Lopes Graça.

Da sua produção para crianças contam-se:
"O palhaço verde", "História de um rapaz", "O cantar da Tila", "O sol e o menino dos pés frios", "Balada das vinte meninas", "O reino das sete pontas", "História de uma flor", "O gato dourado", "As botas do meu pai", "As fadas verdes", "Segredos e brincadeiras", "A saquinha da flor" e "Lucilina e Antenor".

O inédito "Florinda e o Pai Natal" será editado a título póstumo, em Outubro, pela Calendário, de acordo com fonte da editora. A obra conta com ilustrações de Maria Keil, com quem colaborava. Gémeo Luís e João Fazenda são outros ilustradores das obras de Matilde Rosa Araújo.

Entre os livros de contos e poesia para adultos destacam-se: "Estrada Sem Nome", "Praia Nova", "O Chão e as Estrelas" e "Voz Nua".

Sobre a escritora foi publicada a biografia romanceada "Matilde Rosa Araújo - um olhar de menina" (2009), por Adélia Carvalho e ilustração de Marta Madureira. É uma narrativa com fragmentos da vida da escritora, em particular da infância, complementada com personagens da sua obra literária.

Carreira pautada por distinções

A estreia literária valeu a Matilde Rosa Araújo o seu primeiro galardão, antevendo uma carreira pautada por distinções: Grande Prémio de Literatura para Criança da Fundação Calouste Gulbenkian (1980 - em ex-aequo com Ricardo Alberty); Prémio para o Melhor Livro Estrangeiro da Associação Paulista de Críticos de Arte de São Paulo (1991 - por "O Palhaço Verde"); Prémio Gulbenkian do melhor livro para a infância publicado no biénio 1994-1995 (1996 - pela obra de poesia "Fadas Verdes").

A autora foi nomeada pela secção portuguesa do IBBY (Internacional Board on Books for Young People) para a edição de 1994 do Prémio Andersen, considerado o Nobel da Literatura para a Infância.

Foi condecorada a 8 de Março de 2003, no Dia da Mulher, pelo Presidente Jorge Sampaio.
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De Xa2 a 7 de Julho de 2010 às 12:00
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Sócia da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) desde Dezembro de 1969 e cooperadora desde Fevereiro de 1992, foi distinguida com o Prémio de Consagração de Carreira em 2004 pela sua "obra de particular relevância no domínio da literatura infanto-juvenil".

"É uma generosidade muito grande por uma carreira que me deu mais a mim do que eu dei a ela", afirmava nesta altura, dizendo ainda que "os jovens lhe ensinaram uma espécie de luz da vida", porque "o seu olhar é de uma verdade intensa e absoluta". Em 2005 recebe a Medalha de Honra da cooperativa.

Em sua honra foi designada a Escola Básica 2/3 de São Domingos de Rana e a Biblioteca Municipal de Alcabideche. Matilde Rosa Araújo também foi homenageada através da criação dos prémios literários nas localidades de Cascais e Trofa.

A Câmara Municipal de Cascais anunciou, esta terça-feira, a atribuição da Medalha de Honra do município à escritora, explicando este acto pela forte ligação que a autarquia "tinha e tem", em virtude de a escritora ter vivido "em Cascais durante muitos anos e a sua obra era muito apreciada por jovens e professores de todo o concelho".


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