Crise, entre a demagogia e o exemplo.

Há quem afirme que a situação espanhola possa ser mais grave que a portuguesa. Contudo ninguém se sente capaz de o afirmar a pés juntos sendo a verdade mais geral e comum aquela que cada um, que cada família, cá e lá sofra é, também, a mais real.

Também reais, tudo indicam, são as diferenças na tomada de medidas a começar pelo Congresso de Deputados espanhóis que acordou reduzir o salário base de todos os deputados em 10 por cento, como medida de combate ao défice. E do presidente do Congresso será reduzido em 15 por cento, conforme foi divulgado pela Lusa.

Na mesma senda contractiva, a federação espanhola de municípios (FEMP) acordou cortar os salários de todos os alcaides e presidentes camarários entre 0,25 e 15 por cento, dependendo do valor base que recebam os autarcas. Ora aqui está bem espelhado o que é o “princípio da igualdade”.

Uma medida semelhante deverá ser aprovada em Itália, cujo pacote de medidas de austeridade, que inclui o corte de salários em 10% dos ministros e altos cargos públicos, está em debate em Conselho de Ministros.

Por cá, embora o nivel salarial dos deputados seja próximo do espanhol, o corte é de 5% nos salários dos políticos, medida que consta do programa de austeridade aprovado e anunciado, na sequencia do entendimento entre Coelho e Socrates, que foi, na verdade, exigido pelo PSD e que primeiro-ministro admite ser contra acrescentado, mesmo, que não passa de uma medida demagógica «É uma medida com a qual não concordo, mas não era por isso que não iria haver acordo. Não concordo porque acho que não tem grande efeito orçamental. O PSD advoga que tem um efeito simbólico. Pode ser, mas dá às pessoas a ideia que políticos ganham muito, e isso não é verdade», terá acrescentado Socrates.

A nosso ver outros cortes se deveriam processar, em vez de serem castigados os que foram excluídos do trabalho, como sejam nos ministérios, nomeadamente em viaturas e combustíveis; nas autarquias, Empresas Publicas e municipalizadas; nos supérfluos, quando não mesmo sumptuosos, gastos da Assembleia da República, redução do orçamento da Presidência da República que, neste caso concreto, constitui um paradoxo dado que, enquanto a casa real espanhola tem orçamento de 8,9 milhões, o orçamento da Presidência da República Portuguesa é de 20,7 milhões de euros.

Vale bem a pena discursos de moralismo balofo quando os exemplos são o que são. É caso par dizer “se tiverem fome vós e/ou os vossos filhos roubem quem já antes fez o mesmo”.

Nunca legisla bem e, certamente, governa muito mal o político que tome medidas para serem aplicadas a outros e não a si mesmo. Quando se exige a outros determinados comportamentos já antes, quem os mande aplicar, os deveria ter experimentado de modo a demonstrar que são exequíveis, a não ser assim além de demagogo torna-se num mentiroso, num hipócrita se não mesmo num ladrão.



Publicado por Zé Pessoa às 14:56 de 19.07.10 | link do post | comentar |

5 comentários:
De Menos Estado ou - sacanço ?!! a 22 de Julho de 2010 às 14:53
Minutas de contratos com isenções/créditos fiscais

...estava a dar uma vista de olhos pelo Diário da República e deparei-me com a resolução do conselho de ministros RCM 51/2010 de 21 Julho. Resolvi verificar se a minuta era divulgada. Claro que não. Mas há uma informação que me surpreendeu.

Afinal o objectivo é tão só isentar determinadas empresas de IRC e mesmo Imposto de Selo e IMI.
Verificamos que os créditos sobre o IRC que o governo concede a essas empresas é elevado (entre 5 e 15 MILHÕES de Euros para cada empreendimento/ sociedade),
ou seja, durante muitos e muitos anos, ( já que normalmente quando apresentam lucros, os mesmos são exíguos) não pagarão IRC, o que de alguma forma legitima a Banca a pagar apenas parte do que pagam os pequenos empresários.

Esta decisões serão do conhecimento dos deputados eleitos por nós?
Não quererão questionar em conjunto algum (uns) dos deputados eleitos pelo partido onde votámos sobre qual o espaço temporal dessas isenções e quais as contrapartidas para o Estado e quais os benefícios dessas medidas para a generalidade dos contribuintes?
...

E são estes grandes empresários ( !! ) que reivindicam menos impostos, menos Estado, menos despesa Pública, menos salários para a FP, menos aumentos aos trabalhadores, ... ? !! ? !!! !!!!


De . a 20 de Julho de 2010 às 14:39
Ex-ministro de Sócrates propôs número de deputados variável ( votos em branco corresponderem a mandatos/deputados/ cadeiras vazias na AR.)

Por Nuno Simas, Público 13.7.2010

Campos e Cunha quer contar voto em branco na AR e "gela" PSD

Villaverde Cabral desafia a moção de censura e fica sem resposta.
Hernâni Lopes sugeriu cortes de 20 por cento nos ordenados

Partidos PCP e BE: PSD quer "destruir" princípios da Constituição

Comentários
Anónimo , amadora. 14.07.2010 13:03

gostei...
gostei principalmente de duas ideias: lançar uma moção de censura ao governo para clarificar a politica nacional, mas principalmente da outra,

a dos votos em branco, ou seja, este parlamento, se tal já estivesse aprovado, não teria mais que 100 deputados, pouparia milhões e milhões ao erário publico e seria, certamente, mais ecléctico e funcional,
teria muito menos faltas ( este ano já vai em de 600!!!) ...
só vantagens! tenham coragem sr políticos, mostrem seriedade nas medidas que serão apoiados e recompensados...

Anónimo , Porto. 13.07.2010 10:26

Ir buscar lã
Ao que parece o PSD, no primeiro dia das suas jornadas, mais que ir buscar lã tem-se sentido tosqueado.
O neo-liberal Passos Coelho viu-se ultrapassado por algumas propostas que o terão deixado incomodado.

De facto, "testar" os partidos à esquerda do PS com uma moção de censura ao governo, pressupondo que acabem por salvar o mesmo, é risco que o PSD decididamente não quer correr, temendo claramente ter que assumir o poder se o "teste" não for o desejado...

Também algumas das medidas propostas, como cortes nos salários de 15 a 20%, dado o inevitável tumulto social que provocariam, penalizando inevitavelmente o autor de tal proposta, não merecem ser encaradas como viáveis.

Assim, o PSD de Passos Coelho optará pela navegação à vista, ora contestando o PS, ora viabilizando a política de contensão do mesmo, acreditando sair assim menos beliscado nas intenções de voto.

O risco que Passos Coelho corre é, afinal, o de passar ao lado de uma boa oportunidade de se guindar ao poder, mas entre assumi-lo com todos os riscos decorrentes, face ao incómodo da situação, e aguardar que o mesmo lhe caia nas mãos, como fruto maduro, esta última hipótese é a que mais o seduz. Talvez por acreditar que ...

Tonecas , Miragaia. 13.07.2010 10:18

Com o calor que está, venha o congelador!
Os srs. deputados só gostam do que lhes dá votos, poder e mordomias.
Venha alguém contar-lhes algo inconveniente e já não brincam à política.
Talvez seja altura de deixar isso para quem não brinca em serviço, porque Portugal já não os atura muito mais tempo.

António Coutinho , Oeiras. 13.07.2010 08:43

A Procissão do Senhor dos Passos
O PSD está a deitar foguetes antes da Festa acabar e ainda vai ter um desgosto.
É que com aquele gente, com aqueles ideias e aqueles caras, não vão a lado nenhum, a não ser fazer companhia a Cavaco Silva que irá sair de Belém nas próximas Eleições Presidenciais ou seja, a uma "cura d'águas para o Cartaxo".

Que gente mais estranha a do PSD e dos seus convidados, todos tão ridículos na sua auto promoção e na sua auto contemplação.
Até parece, perdoem-me a comparação, uma "masturbação colectiva" , onde todos estão a viver num mundo que nem sequer existe.

Depois, ficam muito admirados pelo facto do POVO os mandar à m.... e não lhes ter feito a vontade conforme as sondagens. Veremos, "como diz o cego". Mas até um cego vê que por este caminho, não irão longe do sítio onde estão agora.

Se julgam que é com estas coisas, estas conversas e estas ideias que vão conseguir ganhar, então ainda são piores do que aquilo que parecem.
Que gente mais rasca!


De DD a 25 de Julho de 2010 às 21:29
Estive nas mesas de voto desde as primeiras às últimas eleições e sempre vi que os votos em branco eram quantitativamente insignificantes.
Com essas e outras insignificâncias não vamos a parte alguma.

Podemos reduzir o número de peputados para cerca de 100 e devemos reduzir o número de freguesias em largas centenas e até Municípios, criando sinergias administrativas com menos pessoal.

Mas cuidado, sempre que o Estado não substitui um reformado não está a popupar. O Estado só poupa quando o reformado falecer e poupa verdadeiramente quando a esposa o acompanhar no último percurso. Além disso, empregando menos pessoas, o Estado terá de pagar mais subsídios de desemprego.

A situação atual não tem solução imediata e Passos Coelho faz demagogia quando quer reunir a comissão permanente da AR para debater o fato de as despesas do Estado não terem descido nos primeiros cinco meses do ano como se isso fosse possível quando o desemprego aumenta por via da crise mundial e da concorrência cada vez maior do capitalismo comunista chinês. Já vi sapatos a 3 e a 5 euros numa loja chinesa qundo uns "velas" portugueses podem custar uns 27 euros, sendo, mesmo assim, mais baratos que os chineses porque duram 7 a 10 vezes mais.

Se não criarmos uma barreira a defender a Europa do dumping social chinês nunca teremos o problema do desemprego e das despesas do Estado resolvido.


De . a 20 de Julho de 2010 às 12:20
Uma proposta
, por Daniel Oliveira , 17.7.2010, Arrastão

Cortar a reforma que Ernâni Lopes recebe do Banco de Portugal desde os 47 anos (e que acumula com ...). A cru e sem explicações.

-------
e, ''por solidariedade'',
a de todos os outros reformados com menos de 65 anos (excepto por doença)
e
daqueles que recebem (simples ou em acumulação) mais de 5.000 Euros por mês
e
aos administradores de fundações, institutos ou empresas públicas, ou participadas/subsidiadas com dinheiros públicos, que recebem mais do que o vencimento PR corte-se-lhes esse excesso.!!


De Zé T. a 19 de Julho de 2010 às 16:47
Bom post. Plenamente de acordo.


Comentar post

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Novembro 2019

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO