Novas espécies identificadas no Estado social português (1)

O jogo das influências, das cunhas e dos pedidos sempre fez parte da nossa relação com o Estado enquanto poder

 

 

Os encostados "Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL) está a propor aos trabalhadores que aceitem uma 'redução voluntária • do salário-base' e lhe entreguem, a título de 'doação', o valor de que prescindirem mensalmente, mantendo-se os seus recibos de vencimento inalterados." PÚBLICO, 27 de Julho de 2010. Creio que se os abrangidos por esta redução contestarem com algum ruído esta proposta conseguirão que a sua administração siga o exemplo da ministra da Cultura e não só desista de lhes reduzir os salários, como ainda conclua que saiu vitoriosa desse processo de doação-redução. Nós cá estaremos para continuar a doar os nossos impostos, taxas e contribuições para que a EPUL continue a fazer cidade, a amar cidade, a lutar pela cidade, a investir na cidade, a desenhar a cidade, a planear a cidade...

Mas para lá dessa fantástica concepção dos funcionários enquanto doadores existe aqui um outro logro. Para que serve a EPUL? Porque existe? Presta algum serviço que justifique a sua existência? A EPUL vive em constante falência técnica que obriga a que todos os anos reivindique que o município lisboeta cubra os seus prejuízos que nunca se contam por menos de vários milhões. Urbaniza cada vez menos e quando tal acontece colecciona processos dos clientes. Pauta-se também por não fazer nada que a distinga da mais desinspirada empresa de construção civil como facilmente se confirma ao descer a Av. das Forças Armadas ou visitando o Martim Moniz. Mas a EPUL existe e existirá enquanto a sustentarmos. Autarca algum mesmo que o deseje dificilmente conseguirá extinguir este monstro. À primeira tentativa enfrentaria não só a oposição corporativa de todos aqueles que se sentissem lesados nos seus interesses por esta extinção, como, vinda sabe-se lá donde, surgiria imediatamente um campanha sobre o papel crucial da dita EPUL no preservar da cidade da voracidade dos investidores imobiliários e outras patetices quejandas que não têm qualquer tradução prática, mas alimentam muita campanha a favor do papel do Estado. E depois o monstro não faz nada, mas dá colocações, cargos, influências, carros de serviço, lugares invejados. Afinal, bem vistas as coisas, o monstro não serve para nada. Mas serve-nos. Basta que sejam os nossos que estejam lá.

Pelo país todo monstros como a lisboeta EPUL sugam-nos até ao tutano. Mas que fazer? O filho do senhor do talho que se tornou vegetariano e fez um curso de computadores, mais a namorada que é psicóloga, a prima que é engenheira de relvados e aquele rapaz porreiro do call center que se tornou administrador, para todos eles e para todos os outros o sonho é, como dizem satisfeitas as famílias dos admitidos, "encostar-se" ao Estado, à câmara, ao instituto, à direcção regional, ou seja, a estes monstrinhos que não se sabe o que fazem, mas dão muito a ganhar.

Em qualquer cidade de província ou vila é fácil reconhecer os "encostados", pois eles tornaram-se na nova aristocracia local. Nas mesmas terras onde os seus avós semianalfabetos tinham como objectivo não aturar mais patrões, o sucesso dos netos licenciados em saberes etéreos passa agora por um lugar influente nas estacas desse pantanal assente numa rede de leis, regulamentos e disposições sempre cheios de omissões onde se cruzam os dinheiros e os poderes públicos com os interesses dos privados. Arranjar um "encosto" é muito mais do que ter um lugar de decisão no Estado. Graças a ele consegue-se uma espécie de via verde para aceder a outros serviços onde outros encostados decidem agrupamentos escolares, acessos a hospitais, lugares nos centros de dia, mais vagas nas secretarias...

 

Portugal hoje é isto: um país que empobrece, que não ganha para sustentar o seu Estado e em que a única saída possível parece estar não na alteração desta forma de viver, mas sim no conseguir fazer parte dela. Ter um "encosto" é o sonho de qualquer um e mesmo no sector privado o sonho é trabalhar por encomenda dos encostados e protegido pelos encostados. A única coisa que perturba o mundo do encosto é a mudança. Os encostados, as famílias dos encostados, os privados que fazem negócios com encosto e que precisam do aval dos encostados... ou seja, os portugueses na sua quase totalidade não só querem, mas sobretudo precisam que tudo se mantenha como está. É esse o seguro de vida política de gente como José Sócrates e Alberto João.

 

Público

 



Publicado por Izanagi às 23:03 de 30.07.10 | link do post | comentar |

2 comentários:
De DD a 1 de Agosto de 2010 às 23:01
A EPUL esteve instalada num palácio e num anexo na Quinta dos Lilases no Lumiar. Por ordem de Santana alugou alguns pisos junto ao Estádio do Sporting ao próprio clube por uma verdadeira fortuna mensal e anual. O Costa fez a EPUL regressar ao edifício antigo que estava praticamente inutilizado, mas o presidente da Junta de Freguesia do PSD criticou vivamente este fato que permite poupar uns milhões todos os anos, pois queria o anexo para funções culturais quando a Junta tem o seu antigo edifício quase desocupado e onde não se verificam actividades culturais.
O PSD é contra qualquer economia e ao mesmo tempo critica o chamado despesismo público.
O regresso da EPUL às antigas instalações justifica-se até pelo facto de Telheiras estar quase toda construída e não haver muito espaço para a actividade essencial da EPUL que era construir ou mandar construir casas suscetíveis de serem colocadas no mercado dos jovens casais por preços módicos.
No fundo, a EPUL deve ser extinguida e o seu trabalho feito pelo departamento de urbanismo da CML.

As empresas municipais são na generalidade covis de ladrões municipais que se servem do carácter empresarial para usufruirem regalias e ordenados que não correspondem ao trabalho realizado.


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 31 de Julho de 2010 às 11:55
EPULs com este nome ou outro mas com idênticos objectivos, que são ver alimentar os primos e primas e ainda os enteados, há muitas.
Mas o sistema democrático precisa delas sejam EPULs, Fundações ou outras que tais.
E não basta denunciar nos jornais, blogues ou noutras formas de divulgação estas escandaleiras, porque não serve para nada. Já aqui afirmei que o sistema a que chegaram as chamadas democracias não se auto-regenera e continuo convicto disso.
Era o suicídio destes figurões a que hoje chamamos políticos. E eles alimentam-se deste sistema, sem estas empresas e cargos, não eram nada nem ninguém. Precisavam de muitos anos de esforço, sacrifício, trabalho, conhecimento e sorte para fazerem uma carreira profissional e se lá chegassem já eram velhos para ascender ao poder e ao reconhecimento público. Assim na partidarite política e de conveniência, é muito mais fácil e de rápida ascensão.
E o povo come e cala, mesmo quando há alguns, como nós, que aqui e ali, resmungam, denunciam...
Só a elite pode ser progressista e só o povo pode ser revolucionário.
Os governos são apenas aquilo que nós deixamos que sejam, somos todos co-responsáveis, nem que seja só moralmente.
Mas, torno aqui a afirmar - há soluções.


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