Quem se opõe ? Hoje eles, amanhã ...

Paus e pedras ,  por Sérgio Lavos

 

Quando os nazis levaram os comunistas, não protestei, porque, afinal, eu não era comunista.

Quando levaram os social-democratas, não protestei, porque, afinal, eu não era social-democrata.

Quando levaram os sindicalistas, não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista.

Quando levaram os judeus, não protestei, porque, afinal, eu não era judeu.

Quando me levaram a mim, já não havia ninguém que protestasse.

  

A julgar pelos comentários que encharcam este post, as palavras (de Maiakovski, poeta russo, e) de Martin Niemöller, pastor protestante alemão que se opôs ao regime nazi (palavras que costumam ser atribuídas a Bertolt Brecht) ainda terão razão de ser. A preocupação neste caso sobrepõe-se à precaução que me diz que aqueles que insultam o fazem apenas por ignorância ou medo do que não conhecem. Precaução também porque sei que estas minorias são sempre ruidosas, gostam de exibir o preconceito e a intolerância como quem exibe uma bela farpela domingueira, esburacada e rançosa. E mais uma história edificante, para quem ainda queira aprender alguma coisa (e estão à vontade para me chamar paternalista), deixada pelo comentador dedo político:

Conotações pejorativas (que matam!)

O ‘dedopolitico’ conheceu, em determinada altura da sua vida, um ‘cidadão de nacionalidade portuguesa’ que, emigrado em França disposto a trabalhar em tudo o que lhe aparecesse para melhorar as suas condições de vida (e a da sua família), lhe disse, que o que mais lhe custou no inicio desse tempo, não foi, a falta de dinheiro, a fome, ou as más condições em que vivia, mas sim, quando ia à escola buscar os seus filhos, ter de ouvir os autóctones a dizer-lhes: “Portugais? Sale race”!*

* Portugueses? Raça suja! (tradução livre) “

Agora, venham de lá essas pedras.

 

Sinais de Peste:  de farsa em farsa até à tragédia final,

Indispensável, a crónica Pancada no Pequeno (não sei se o link funcionará hoje) do Rui Tavares, publicada no Público. Aqui ficam alguns excertos:

Em Portugal, que é a nossa província, um membro do Governo que é secretário de Estado da Segurança Social anuncia uma poupança de dez milhões nos Rendimentos Sociais de Inserção, afetando em período de crise 44% dos beneficiários desta prestação, que estão entre as pessoas mais vulneráveis do país. "Compromisso cumprido", afirmou o secretário.
O mesmo Governo promete pensar em começar a estudar formas de baixar os custos com a renovação do seu parque automóvel, que são de 7,5 milhões de euros anuais. Isto é capaz de ser coisa mais demorada.
 
Na Europa, que é o nosso mundo, o governo francês continua com a sua política de repatriação de ciganos romenos. A imprensa ajuda sendo eufemística - ninguém usa a expressão "limpeza étnica" - ou incorreta - aqui ou ali vai aparecendo a expressão "imigrantes ilegais".
Vamos ser rigorosos sobre o que isto é e o que não é. Não, não se trata de imigrantes ilegais:
 os cidadãos romenos são comunitários e têm direito à livre circulação pelo território da União.
E, sim, isto é uma limpeza étnica, ou seja, uma expulsão de um dado território de uma população circunscrita por critérios étnicos.
 
Como seria de esperar, a Itália de Berlusconi já manifestou vontade de seguir o exemplo francês. Quando a Croácia entrar na União Europeia, até 2012, ouviremos discursos sobre o caminho que ela fez desde as limpezas étnicas dos anos 90. Da maneira que as coisas estão, parece-me que é antes a UE que vai aderir à Croácia dos anos 90.
O que a França está a fazer é ilegal, uma clara violação dos tratados e do espírito fundamental da União Europeia. A Comissão Europeia, que é suposta ser a "guardiã dos tratados", não se insurge. Durão Barroso está silencioso. Dá-se tempo a que Sarkozy faça o seu número para as sondagens.

Junte-se a isto - precarização estratégica e penalização da pobreza, mais limpeza étnica - aquilo a que poderíamos chamar o petro-silêncio sobre os direitos humanos e as garantias fundamentais espezinhados - programática e propagandisticamente - pelo Führer do Irão e o seu regime, assinalado já pela Joana Lopes, que o mesmo Durão Barroso e a generalidade dos "responsáveis" da União Europeia compartilham com parte destacada da sua oposição "anti-imperialista".
Os sinais de peste são evidentes e evocam estranhamente os que assistiram depois da Primeira Grande Guerra à ascensão das respostas fascistas, nazi e afins à "crise" na Europa e no mundo. Haverá quem diga, lembrando-se de duas linhas de Marx, que não temos motivos para alarme excessivo, pois que a repetição actual não passa de uma farsa, muito aquém da verdadeira tragédia que remataria a primeira metade do curto século XX. É esquecer que esse mesmo período mostrou que a ordem da sucessão dos termos de Marx (primeiro a tragédia, depois a farsa) pode ser e foi, mais do que uma vez, historicamente invertida.
O que significa que, a deixarmos correr o marfim como até aqui, poderemos estar a aproximar-nos de farsa em farsa de uma tragédia duradouramente "final".
 
Hoje os ciganos, … , por Bruno Sena Martins

“Considero duvidoso que o animal humano alcance sobreviver se não aprender a dispensar fronteiras e passaportes,

se não for capaz de compreender que todos somos hóspedes uns dos outros, do mesmo modo que o somos desta terra contaminada e cheia de cicatrizes.”    George Steiner, em The New Yorker



Publicado por Xa2 às 00:07 de 26.08.10 | link do post | comentar |

5 comentários:
De culpados pela crise ? Ralé no poder a 9 de Setembro de 2010 às 14:54
A ralé no Eliseu
Por Daniel Oliveira

Quando a crise aperta os homens perigosos revelam-se. E se o primeiro alvo de Sarkozy foram os ciganos, logo depois vieram os imigrantes pobres (já tinha dado alguma atenção aos muçulmanos).

A França expulsará os estrangeiros com dificuldades de subsistência, tratando-os assim como material descartável. Outras medidas deste pacote “Front National” são a possibilidade de tirar a nacionalidade aos que, não tendo nascido em França, atentem contra a integridade de membros de forças de segurança e a de impedir menores nascidos em França, de pais estrangeiros, de obter a nacionalidade caso sejam condenados a pena de prisão.

Sarkozy decidiu, em tempo de crise, concentrar-se nos imigrantes e nos pobres. O mote foi dado por Le Pen há muitos anos: a França para os franceses. Os imigrantes fizeram o seu trabalho, agora que as coisas estão difíceis podem voltar à procedência.

Sarkozy criou também um novo tipo de cidadão: o francês a prazo. Mesmo com nacionalidade francesa, a ele não se lhe aplicam as mesmas leis que aos restantes, havendo uma pena suplementar. A nacionalidade não lhe é, na realidade, dada, mas emprestada. Já com os filhos de estrangeiros nascidos em França a coisa é ainda mais grave: pagam o pecado de não terem puro sangue e podem, na prática, vir a ser expulsos para um país que muitos nem sequer conhecem.

As expulsões de ciganos europeus e a nova política de imigração e nacionalidade deixam tudo muito claro: a resposta de Sarkozy à crise é a lepenização da política francesa. A agenda é evidente: muçulmanos, ciganos, imigrantes, naturalizados. Quem julga que esta agenda tem alguma coisa a ver com direitos das mulheres, mendicidade e criminalidade padece de uma comovente ingenuidade.
A agenda é coerente e politicamente eficaz para afastar a atenção dos verdadeiros responsáveis por esta crise.Não tenho dúvidas que outros líderes europeus lhe seguirão os passos.

Só se espanta quem não esteve atento ao senhor que, numa campanha eleitoral, quando passeava por bairro dos subúrbios de Paris, chamou “ralé” aos que o contestavam. Mas a verdadeira “ralé” política, que usa o ódio e o racismo para ganhar vantagem durante a crise, está no poder. E ameaça espalhar-se como um vírus pela Europa.

Sabemos que os maus momentos económicos acordam os piores fantasmas. Eles aí estão. Le Pen, estás dispensado. Um dos teus já está no Eliseu.

Publicado no Expresso Online, via Arrastão


De Cuidado: Xenofobia alastra ... a 1 de Setembro de 2010 às 11:10
Europa: a expulsão dos valores ?

[-por AG, Causa Nossa, 31.8.2010]

A roubalheira institucionalizada à pala das teses neo-liberais, que a crise económica e financeira expôs, já decorria de profunda crise moral nas nossas sociedades.

A crise política agora consubstanciada na expulsão colectiva de comunidades rom (ciganas) de vários países europeus - com o desplante hipócrita máximo na corte de Sarkozy - revela que os mais elementares valores fundacionais europeus estão a ser grosseiramente violados.

Como ensina a história da Europa - e para acabar com as suas derivas mais sangrentas e destruidoras se construiu a União Europeia - se hoje são os rom a ser directamente atingidos, amanhã poderão ser cidadãos de outros grupos étnicos ou de outras minorias.

Repare-se como o despudorado títere no Ministério do Interior sarkosista, Brice Hortefeux, já se permite tornar públicas estatísticas dos actos de delinquência perpetrados por ... romenos !
Ou seja, já não confina à comunidade rom a sua nojenta propaganda xenófoba.

Infelizmente a Roménia não tem liderança à altura de ripostar, como a gravidade da crise requer.
O actual Presidente romeno, o liberal direitista Basescu, até tem ajudado ao desvario discriminatório:
segundo me dizem eurodeputados romenos, tem mostrado compreensão pelas expulsões de França, justificando que, por os rom serem "odeados" por todo o lado, ninguém os consegue defender...

É para refutar basismos preconceituosos e racistas destes que estamos a trabalhar no PE.
Veremos como se porta o PPE na negociação do texto de uma resolução a aprovar no plenário da próxima semana.
Além do respeito pelos valores europeus, é a decência que está em causa.
--------
Agora é tb o presidente do Banco Federal Alemão a fazer declarações xenófobas/ neo-nazis... contra os imigrantes.


De DD a 26 de Agosto de 2010 às 23:53
A razão da contínua perseguição aos ciganos está explicada no meu conto "O Cristo Apunhalado" no blog "Contos e Novelas de Dieter Dellinger " em:
http :/ ddblog.blogs.sapo.pt /


De DD a 26 de Agosto de 2010 às 23:38
Eu suponho que o problema dos romenos em França tem a ver com o período de transição que foi acordado com a Roménio até atingir a plena circulação de pessoas, bens e capitais. No caso português foi de sete anos em que se continuava a cobrar taxas aduaneiras que se reduziam de ano para ano até chegar a zero ao fim de sete anos. Em compensação, os portugueses não podiam emigrar livremente para os países comunitários.
Claro, os portugueses tinham praticamente deixado de emigrar em grande número e passar a emigrar menos ainda quando os dinheiros da CEE financiaram parcialmente uma política dita de desenvolvimento.
O mesmo deve estar a suceder com a Roménia, pois, parece-me que, a não ser assim, a França não poderia expulsar os ciganos romenos.
Mas o Sarkozy faz aquilo que sabe que quase todos os franceses querem, mas geralmente não dizem, porque sendo racistas sabem que isso é feio.. É como aqui, quando me dizem que no Lumiar andámos a dar casas aos ciganos que estragam tudo e nem as rendas irrisórias pagam, o que não corresponde à verdade, pois conheço muitos ciganos do Lumiar que vivem normalmente da venda ambulante, principalmente nas feiras.
Não gostam de pagar impostos como toda a gente e andam de carro sem carta de condução e quando vão ao Centro de Saúde são os primeiros a ser atendidos, apesar de nada descontarem. É para serem os primeiros a sairem como me disse há tempos uma funcionária do Centro.
Apesar da ilegalidade, não acho mal. O principal é o princípio da integração que está a ser feita e há ciganos formados e o PS orgulha-se de ter um advogado cigano eleito presidente da Câmara de Torres Vedras.


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 26 de Agosto de 2010 às 11:37
Este post levou-me a ir ver a sua origem - o blog o arrastão.
Estive entretido a ler os comentários e as respostas dada pelo postante.
E concluí que o assunto é nobre, enquanto teoria e que é ambivalente quando passa à prática.
Lembra-me um velho ensinamento de infância, quando a minha mãe me dizia, quando eu pelo excesso de resposta perante algumas injustas situações, acabava por perder a razão.
Devemos tentar dosear as nossas respostas. O chamado q.b., em culinária.
Senão arriscamo-nos a salgar a comida (perder a razão).
Talvez em França alguma comunidade cigana não se enquadre na legitimidade social do país, mas será que as medidas tomadas, não serão excessivas?
Não estará Sarkosy a 'salgar' a situação?
Estará o 'caldo entornado'?


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