Sindicalismo: coordenar e apoiar, em Portugal, na UE e no mundo

O ano da morte do sindicalismo europeu

 

   A Guardian tornou públicas as pressões de Tatcher sobre Gorbachov a quando da greve dos mineiros ingleses. Ao que parece, os sindicatos soviéticos estavam disponíveis para ajudar financeiramente os grevistas ingleses. Sem independência face ao poder político, acabaram por ceder. A greve durou um ano e foi o mais duro confronto entre os conservadores britânicos, pioneiros da vaga liberal na economia europeia, e um dos mais fortes movimentos sindicais do Mundo. Foi ganha pelos primeiros. Com ajuda, já agora, do general Jaroselsky, ditador polaco que tratou de garantir o fornecimento de carvão ao Reino Unido.

   Neste confronto estava em causa muito mais do que as questões concretas que preocupavam os mineiros ingleses. Era um confronto entre o Estado Social que vigorava no Reino Unido e o neoliberalismo. Era um confronto entre o capitalismo industrial em decadência e o capitalismo financeiro que acabou por se impor. E era a jogada de vida ou morte do sindicalismo europeu.

   São dezenas de filmes a retratar essa greve histórica. Um ano de resistência é obra. E só sindicatos com a pujança que os ingleses então demonstravam podiam ter chegado tão longe. Mas Thatcher percebeu o que estava em causa. Não cedeu um milímetro. E venceu.

   Faltou, não aos sindicatos soviéticos, meras correntes de transmissão do poder, mas aos da Europa ocidental terem percebido o mesmo. E terem-se mobilizado para apoiar financeira e politicamente os que se encontravam na linha da frente daquela derradeira batalha. Não perceberam o que estava em causa. Cada um estava a tratar de si. E a derrota dos mineiros ingleses, com a ajuda do fim do Mundo bipolar, marcou a decadência do sindicalismo europeu. E com ele, a decadência da esquerda em geral, e da social-democracia e do trabalhismo europeu em particular.

 

   Não se aprendeu ainda a lição. Perante a crise europeia e o segundo “round” contra o Estado Social, ainda é a custo que os sindicatos se coordenam. Os gregos tratam dos gregos, os alemães dos alemães, os portugueses dos portugueses. E o nacionalismo, essa doença senil da esquerda europeia, promete uma nova derrota histórica. Nem sequer o apoio ao fortalecimento de um sindicalismo livre em países emergentes como a China, que consiga garantir direitos sociais e valorização mais rápida dos salários, acabando com uma concorrência desleal em que perdem eles e perdemos nós, parece ser uma preocupação.

   Mesmo para quem, como eu, não é marxista, vale sempre a pena aprender com o mestre. Disse o barbudo que o capitalismo não tinha pátria. E daí concluiu que também não a tinham os trabalhadores.

   Não perceberam os sindicatos da Europa que a greve dos mineiros ingleses era a sua greve. Não percebem que a crise grega ou portuguesa é a sua crise. E enquanto não perceberam isto estarão sempre a perder.

- Publicado no Expresso Online. (via Arrastão.org)



Publicado por Xa2 às 00:07 de 07.09.10 | link do post | comentar |

4 comentários:
De DD a 7 de Setembro de 2010 às 22:44
A Alemanha possui hoje um sindicalismo extremamente forte, mas totalmente independente dos partidos políticos-. Saliento em especial o Ver.di, o sindicato dos serviços, o IG Metal da indústria metalomecânica que inclui o automóvel, siderurgias, etc., o IB Bergbau und Chemie, da indústria mineira e química..
São sindicatos responsáveis que defendem os trabalhadores e cuja agenda nada tem a ver com eleições, governos e oposições. Os sindicalistas alemães orgulham-se de não serem correias de transmissão dos partidos..

Recordo que as minas de carvão do Ruhr fecharam quase todas por razões ecológicos e de custos tremendos de exploração subterrânea comparados com os custos das minas australianas e americanas a céu aberto, além de que a Alemanha não estava interessada em ter mais centrais térmicas a carvão e, como tal, altamente poluidoras. Mas, do Fundo Estatal do Carvão com amplas ligações aos sindicatos surgiu a empresa mais dinâmica e científica da Alemanha e da Europa, a EVONIK que inventou dezenas de coisas novas, nomeadamente os materiais plástico-cerâmicos para o fabrico das baterias de iões de lítio do futuro.

O sindicalismo de obediência político-partidária está morto na Europa.

É óbvio que a declaração de greve da Associação Sindical da PSP para os dias da cimeira da Nato em Lisboa têm um cariz 100% político ligado ao PCP. Isto é só um exemplo de uma forma de sindicalismo condenada à morte lenta.

Mesmo assim, os sindicatos alemães como outros europeus não são capazes de apontar o inimigo porincipal, a China Coimunista-Capitalista.

No início do Século XIX no Porto, grupos de operários das indústrias de móveis lançaram ao rio grande quamntidade de mobiliário de fabrico inglês que estava a ser importado. Sem partidos, nem sindicatos propriamenteb ditos, tinham percebido que certas importações prejudicavam os seus postos de trabalho.

Aqui em Portugal e na Europa em geral não se quer perceber isso.


De Zé T. a 8 de Setembro de 2010 às 10:36
1- Concordo que os sindicatos devem autonomizar-se relativamente aos partidos (como o fazem os alemães e ...) ;

2- contudo também é verdade que os sindicatos, para fazer valer as suas posições, devem actuar (incluindo a greve) onde, como e quando podem melhor atingir os seus fins (fazendo ''mossa'' aos patrões/empregadores) mesmo que isso coincida com a agenda de algum partido.

3- o ''inimigo'' principal dos sindicatos NÃO é um país (neste caso a RPChina, isso é um problema não sindical mas sim político-diplomático e económico global) e muito menos outros trabalhadores (como os ultra-explorados asiáticos),

4- o ''inimigo'' principal do sindicalismo É a socialmente má gestão das empresas e serviços onde trabalham, a irresponsabilidade e dolo ambiental, social e humanitária dos dirigentes/ administradores/ patrões, a descapitalização e falência fraudulenta, as más condições de higiene e segurança no trabalho, as agressões e assédios moral e sexual, a sobre-exploração do seu trabalho e aniquilação/ apoio à sua família,... a propaganda e contra-informação dos mídia e esbirros ao serviço do grande capital, as leis e medidas injustas e inadequadas dos governos/ parlamentos, ...
- e ainda, a desunião divisão de trabalhadores e sindicatos e centrais sindicais (e de cada país), as falhas de coordenação e gestão, a falta de modernização e formação, a infiltração e domínio de alguns partidos (PCP e PS) nas estruturas dirigentes das comissões de trabalhadores, dos sindicatos e das centrais sindicais, ...


De Contradições a 7 de Setembro de 2010 às 12:02
“Proletários de todo o mundo, uni-vos”
Bonita frase, contudo a realidade é a traição, mesmo daqueles que tanto apregoam a unidade.
Não só foi a morte do sindicalismo europeu, como foi, também, um enterro do sindicalismo da orbita soviética que já moribundo (como o próprio regime), assim se finou.
Naturalmente que, quem saiu vitorioso foi o capitalismo financeiro e, inclusivamente, mafioso. Foi esse capitalismo que passou a governar uma URSS agora espartilhada. Em boa parte são as mesmas figuras que antes “lideravam” o povo.
Contradições...


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 7 de Setembro de 2010 às 10:12
O título deste post poderia muito bem ter sido:
O ANO DA MORTE DA UNIÃO EUROPEIA.


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