Bater no Ceguinho

 

 

 

 

            Ontem na TSF atacava-se o Governo por o Estado ter aumentado muito pouco o apoio dado pela Ação Social Escolar a 750.000 crianças para a aquisição de livros. Os aumentos variaram entre 0,50 e 1,50 Euros e a média por criança anda pelos 125 euros. São assim contempladas mais de meio milhão de famílias, mas foi dito que os livros e cadernos do início do ano custam uns 200 euros, pelo que essas famílias teriam de gastar uns 75 euros, como se fosse uma enormidade e como se todo o dinheiro do Estado não viesse dos contribuintes.

Claro, no meu tempo eu tinha um irmão dois anos mais velho, pelo que ficava com os seus livros e muitos familiares meus fazem hoje o mesmo, apesar de nem serem pobres, como também não era o caso da minha família. Também parte da roupa do mais velho passava para o mais novo por ter deixado de servir ao outro. Hoje, vejo cunhados, sobrinhos e sobrinhas, a fazerem o mesmo e até com filhos únicos a trocarem livros e roupas com amigos e pais de crianças de idades ligeiramente diferentes porque as crianças crescem muito rapidamente até ao 16 a 7 anos de idade e ninguém é pobre na minha família. Não é pois verdade que toda a gente tenha de comprar tudo novo em cada ano.

Hoje, o ceguinho foi batido na TSF durante toda a manhã e resto do dia por causa dos défices e despesas do Estado. O défice atinge os 2,5 milhões de euros por hora, o que é uma enormidade e, curiosamente, corresponde quase à verba gasta com reformas que é de quase 55 milhões de euros por dia, logo 2,3 milhões por hora, logo mais de 20% da despesa do Estado.

Depois temos as despesas com saúde que ultrapassam as das reformas e as de muitos outros serviços como a escola pública, universidades, infra-estruturas, etc.

No fundo, mais de 90% da despesa do Estado são serviços prestados à comunidade, incluindo a devolução a mais de 3,3 milhões de cidadãos de parte do que pagaram em impostos, agora sob a forma de pensões, cuja média geral não é nada alta; pouco mais de 600 euros mensais no sector privado e uns 1.100 no público.

O Governo é criticado por não reduzir o pessoal, o que não é verdade, mas não se traduz em economias financeiras. Assim, de cada 39 professores reformados nos últimos dois anos só foi substituído um, pelo que o Estado passou a pagar 40 mensalidades, um salário e 39 pensões. No ensino, isso é possível devido à grande baixa da natalidade; em 2000 nasceram mais de 140 mil crianças e em 2009 apenas 90 e tal e mil e já em 2000 a natalidade foi inferior a valores máximos atingidos há já bastantes anos. <muitos pais protestaram contra o fecho de algumas escolas pequenas em que este ano não entrou nenhuma criança e saíram algumas para o segundo ciclo.

O Governo leva sempre tareia pelo que faz e não faz. Quando decidiu não comprar 150 mil novas espingardas para substituir as obsoletas G-3, um sargento comunista da Associação Profissional dos Sargentos veio criticar o fato, dizendo que os soldados que vão para missões fora do país estão mais sujeitos a perigo de morte por levarem uma arma demasiado pesada e antiga. Na verdade, há mais de dez anos que vão armados com a excelente espingarda automática Galil, uma cópia da Kalashnikovs modernizada pelos israelitas, que tem sido adquirida em pequenos lotes para o reduzido número de homens que vão para fora. Além disso, levam colete anti-bala e equipamento igual aos dos outros soldados em missões de paz ou guerra. O Governo decidiu retirar as forças do Kosovo e quer fazer o mesmo com a unidade que está no Líbano. Ficam, por enquanto, pouco mais de 100 homens no Afeganistão e alguns em Timor. O sargento comunista sabia disto, mas contava que a maior parte dos ouvintes não está a par dos detalhes militares.

Muito se falou hoje em institutos, empresas, direções-gerais, etc. que não servem para nada. O programa PARCE do Sócrates substituiu mais de 350 organismos do género por menos de 150. Cito em concreto a “famigerada” ASEA que resultou da fusão de três direções-gerais.

É mesmo difícil encontrar muitos serviços que não servem para nada. Quando vou a uma loja do cidadão vejo aquilo à pinha com bichas em todos os serviços, seja para documentos de automóveis, BIs, Passaportes, certidões, pedidos de reforma, etc., etc.

Como trabalhei em gestão empresarial, sei o que é gerir produções, clientelas, etc., pelo que não me custa a admitir que um Estado como os outros que em Portugal tem de gerir mensalmente assuntos de 10,6 milhões de habitantes tenha de o fazer com muito pessoal, apesar da informática. Contudo, os custos de gestão representam percentagens ínfimas relativamente ao custo do serviço prestado. Assim, o Instituto Nacional de Pensões gasta a gerir quase toda a população, incluindo as crianças ainda não nascidas que já recebem um abono pré-natal, pouco mais de dois dias de pagamento de pensões.

Os economistas da nossa praça não são capazes de separar o essencial que é o serviço prestado e o custo de gestão. Se o fizerem, verificam que gerir o parque escolar custa menos de 2% da despesa com o ensino e assim sucessivamente e a gestão do Estado é bem mais barata que a gestão privada. Talvez, por isso, não lhes interessa falar em custos de gestão.

Toda a gente fala das despesas do Estado e dos Ministérios como se fossem apenas os salários dos ministros e de alguns gestores, esquecendo que os serviços prestados vão desde o BI, Passaporte, registos de Nascimento e Casamento, recebimento de descontos sociais, pagamentos de prestações sociais e de saúde, além do custo com forças de segurança, militares, etc. Por acaso, o orçamento militar português é dos mais baixos da Europa. A clientela do Estado é a totalidade da população portuguesa, o que não acontece com nenhuma empresa privada.

O Estado Social gere muita coisa, mas se não for social, também não fica muito mais livre, até porque não pode mandar matar os funcionários que deixariam de estar ao serviço. Teria de lhes pagar subsídios de desemprego ou reformas antecipadas, etc.

O Dr. Miguel Beleza disse hoje na TSF que é imprescindível reduzir o custo do Estado Social. Se o atual governo o fizesse, o próprio Beleza e os seus parceiros do PSD iriam ao anunciado concurso da gritaria, berrando bem alto contra as faltas do mesmo Estado Social. Ainda ontem, a Paula Teixeira Cruz disse que o Governo Sócrates é contra o Estado Social por só ter aumentado em 0,5 a 1,5 euros a comparticipação do Estado nos livros escolares e agora vai reclamar ainda mais contra a redução prevista na comparticipação do Estado nos medicamentos e na obrigação de os laboratórios reduzirem os seus preços.

Enfim, as coisas têm de ser vistas pela realidade e nunca pela propaganda política dos que estão contra tudo.

Eu defendo o atual governo por duas razões:

Primeiro: não vejo alternativas credíveis da parte de nenhum outro partido ou grupo de cidadãos. Todos têm razão no assunto particular que reclamam. Seria bem baixar os impostos ou não ter de os aumentar e ao mesmo tempo melhorar os salários, as reformas, os serviços sociais, a segurança policial, etc., mas na totalidade política e social ninguém tem razão.

Segundo: acho que devo lutar pela estabilidade política porque não quero viver num regime do tipo Fim da Monarquia e Primeira República com 45 governos em 16 anos em que os elencos eleitos alternavam com ditaduras de curta duração e ia-se a casa matar ministros e chefes de governo. E também não quero que de uma grande instabilidade política surja uma longa ditadura. Como redator de assuntos militares numa revista da especialidade conheço oficiais-generais que acalentam grandes ambições políticas e até se licenciaram em Ciências Políticas. Um general ou almirante não tira um curso desses para funcionar melhor com o armamento moderno. Fá-lo porque gostaria ir para o poleiro e muitos queixam-se que os altos postos militares não são reconhecidos pelos partidos políticos que não os chamam para funções governamentais.



Publicado por DD às 22:54 de 16.09.10 | link do post | comentar |

3 comentários:
De . a 17 de Setembro de 2010 às 14:23

Não há vergonha!

Em tempos de crise, o País com um milhão de desempregados,
a PT não tem dinheiro para subir salários, mas entrega 1,8 milhões aos implicados no caso "Face Oculta", Soares Carneiro e Rui Pedro Soares, pelas suas saídas da empresa.

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=443543

# posted by Primo de Amarante, Margem Esquerda, 15.9.2010


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 17 de Setembro de 2010 às 13:06
O António Aleixo, é que tinha razão quando dizia...

"Há tantos burros mandando
em homens de inteligência,
que às vezes fico pensando,
se a burrice não será uma ciência."


De Zelo e bajulação a 17 de Setembro de 2010 às 12:10
Sugiro que DD a recorte a a mande emoldurar.

Tanto zelo e bajulação torna-se doentia e pouco modificadora das realidades que deveria ser para isso que os partidos e militantes deveriam contribuir.

Mesmo nisso não se vislumbram diferenças, andam uns atrás dos outros, revezando-se , claro


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