Produtores vs Hipermercados, intermediários e especuladores

Agricultores versus Grandes Superfícies:  a revolta de Pierre Priolet

  

Em artigo publicado em 6 de agosto de 2010, o jornal Le Monde dedica uma página inteira a Pierre Priolet, fruticultor, que se tornou porta-voz dos produtores franceses de frutos e legumes que não conseguem viver das suas colheitas.
Numa manhã de dezembro de 2009, Pierre Priolet ouvia no rádio o ministro da agricultura a dizer que o governo ia ajudar os agricultores. Isso irritou-o. Dois dias antes, Pierre tinha jantado com dois cunhados, produtores de cerejas, que tinham acabado de pedir um empréstimo bancário. Não para investir: para comer.

Telefonou logo ao programa, sem saber o que ia dizer. Começou por declarar: "Nós não somos mendigos!" A seguir, com voz presa de emoção, disse: "Mais um ano como este, e arranco tudo." Os auditores puderam ouvir as lágrimas dele, quando continuou: "Não nos querem para nada; desprezam-nos; é melhor acabarmos com isto."

Vários jornalistas de televisão famosos convidam-no para intervir nos seus programas, provocando a emoção do público. Priolet não se deixa enganar por um certo paternalismo em parte dessa receção mas acha que o que importa é a mensagem que veicula: a razão de ser dos agricultores não é o mercado, mas alimentar a população e manter o território. Trabalham com prejuízo, e ao mesmo tempo os consumidores não têm meios de comprar os seus produtos. Há pois que aproximar produtores e clientes."

Priolet, 58 anos, conta como entregou em agosto a sua colheita a uma organização de produtores e como só em maio do ano seguinte ela lhe foi paga, a um preço que lhe não permite remunerar a mão-de-obra.

As suas intervenções na rádio e na televisão são seguidas de numerosos telefonemas e correio, ofertas de solidariedade, entre as quais um informático que se oferece para lhe criar um sítio na net   (www.consommer-juste.fr).
Ao contrário de alguns que o ouvem, não se julga infeliz, mas privilegiado. "Na comunicação social não é de mim que falo, como poderia eu queixar-me se vivo no paraíso?", explica ele na região lindíssima onde habita (Mont Ventoux, o célebre monte de Petrarca!).

Com diversas experiências anteriores, há vinte anos tornou-se produtor de maçãs e peras. Primeiro empresário, depois simples agricultor, enquanto poda as suas árvores interroga-se: como explicar que ele venda um quilo de maçãs a 17 cêntimos, ao passo que os consumidores o compram entre 1,70 e 3 euros?
Como fazer tomar consciência ao consumidor que uma compra é um acto político? Porque é que os comerciantes não afixam nas suas etiquetas o preço pago ao produtor?

Anda a ler o último livro de Joseph Stiglitz, o prémio Nobel de economia que foi dirigente do banco Mundial e rompeu com a lógica dele, em francês (O Triunfo da Cupidez). Quando compra uma camisa, pergunta à caixeira onde foi produzida: "Não por patrioteirismo mas porque a globalização é a destruição do mundo operário e agrícola. Tanto mais que, para o mundo agrícola, o tempo e o espaço não são os da economia de hoje. "As terras, elas, não podem ser deslocalizadas, e quando se planta uma árvore, são precisos cinco anos para dar maçãs. Ora nós estamos numa sociedade do instante."
Em 2009, após ter vendido a sua fruta, faltavam-lhe 15 mil euros para remunerar os que as tinham colhido. Se a próxima época for assim tão má, arrancará os pomares para se consagrar em exclusivo à sua luta:    fazer com que os produtores sejam pagos a um justo preço e que os consumidores possam comprar os seus produtos.

UM ALIADO INESPERADO
Uma grande cadeia de restaurantes de churrasco, em França (Bufallo Grill) tornou-se um inesperado aliado. O seu presidente ouviu Priolet num dos programas que referimos. Ficou impressionado, no dia seguinte telefonou a Priolet e fez-lhe uma proposta: Buffalo Grill poderia colocar 330 parques de estacionamento dos seus restaurantes à disposição dos produtores durante dois meses, para aí exporem as suas colheitas.

Priolet acolheu a proposta com uma frieza que surpreendeu o homem (Sautereau). É que Priolet viu logo o benefício publicitário que poderia daí tirar uma cadeia considerada como inimiga dos pecuaristas (produtores de animais) franceses.
Buffalo Grill, então, faz concessões: compromete-se a aumentar consideravelmente a parte de compras de carne para os seus restaurantes aos produtores franceses.
Buffalo Grill investiu 400 mil euros no fabrico das bancas postas à disposição dos produtorers expositores e das refeições que lhes serão oferecidas.

Em cinco semanas, Priolet encontrou alguns agricultores prontos a participar. Missão complicada em período de colheita. Havia na data do artigo 21 restaurantes implicados.
Priolet tem a intenção de recuperar o tempo perdido em setembro, montando uma operação "maçãs-peras", com o aluguer de camiões para ir vender nos parques de Buffalo Grill e talvez nos bairros dos subúrbios das grandes cidades.

"A minha ideia é que é preciso (produzir para) alimentar os pobres (e os outros).

O nosso papel é alimentar a população, não (é) fazer especulação". »

------------

    O mesmo princípio pode aplicar-se a outras produções agrícolas e não agrícolas, a outros sectores produtores da economia, tornando esta mais 'real', mais próxima das verdadeiras necessidades das populações, com menos custos/margens de intermediação e muito menos especulação.

    - Será que as grandes superfícies (cadeias de distribuição) não estiveram/estão a incentivar a produção e 'fidelização' dos pequenos e médios empresários (fruticultores, hortícultores, viti-vinicultores, pecuários, 'leiteiros', pescadores, ...) com contratos e apoios que, ao fim de alguns poucos anos, os 'esmagam' com preços demasiado baixos e os levam à ruína, à venda das suas propriedades/empresas, ou sua total dependência (subordinação hiper-exploradora) às cadeias de distribuição (e/ou aos bancos)... ? !

    - Que escolhas conscientes querem/podem fazer os consumidores e os cidadão ? ''as compras (ou não...) também são actos políticos' !! 



Publicado por Xa2 às 00:07 de 23.09.10 | link do post | comentar |

2 comentários:
De A sem-vergonhice e o abuso... a 23 de Setembro de 2010 às 12:12
Por cá o ministro do sector, que não transfere para os respectivos agricultores, a ajudas prometidas, passeia-se na feira das cebolas do Ribatejo num Mercedes ultimo modelo cento e muitos milhares de €uros . Critérios ...


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 23 de Setembro de 2010 às 18:01
Para andarem de Fiat não tinham ido para ministros.
E de promessas não cumpridas... porque raio havia o da Agricultura cumprir, se o Chefe não cumpre preticamente nada do que prometeu na campanha eleitoral aos portugueses, antes pelo contrário.
Os exemplos não vêm cde cima? Então?
E mais no dia em que acabarem os subsídios todos, mas mesmo todos, é que a realidade do País vinha ao de cima. Não querem experimentar?
E podia ao mesmo tempo acaberem os chamados direitos adquiridos. Que acha?
Que tal deitar abaixo e fazer de novo? Este País, claro.


Comentar post

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO