Tipos de F.P.: uns pelo trabalho, outros pelo que 'levam' do orçamento !

Contas por alto

Imaginando que há setecentos mil trabalhadores na Administração Pública e que desses 30% ganham mais de 1.500 Euros temos 210 mil trabalhadores da AP que vão contribuir para que toda a AP tenha um decréscimo de encargos salariais de 5%.
Coisa fina.
Fazendo as contas por alto, considerando os anos em que os salários na AP estiveram congelados (coisa de que ninguém fala) e apesar do aumento de 2,9 do ano passado (coisa de que não há quem não fale), os tais 210 mil trabalhadores da AP irão ficar com salários semelhantes aos que tinham há 10 anos.

Nesses 10 anos essa gente assumiu compromissos mediante os vencimentos que tinha. Meteu-se a comprar casa, a educar os filhos, etc. e, como tinha as contas feitas, não se considerava na faixa do chamado “risco de crédito malparado”.
Também os Belmiros e quejandos mantinham as prateleiras aptas para essa gente e o fisco que lhes paga com uma mão e que, com a outra, lhes arrecada parte, vai ter decréscimo na receita.

A espiral criada irá retirar o sorriso cretino da cara de quem agora pensa que isto é o mal dos outros. Esquecem-se que o problema reside no facto de Portugal ser um País de funcionários públicos.

Uns, porque têm esse estatuto de papel passado, como diriam os brasileiros, são os bodes-expiatórios, os outros que não o têm, mas cujas empresas vivem quase exclusivamente do erário público, julgam-se diferentes e afinal a diferença assenta só naquilo que os segundos empocham a mais do que os primeiros.

Costumo dizer que em Portugal os funcionários públicos são de primeira e de segunda. Uns picam o ponto e deles se diz serem o mal da nação, os outros estão isentos desta obrigação e repimpam-se à mesa do orçamento pendurados nas rubricas de "aquisição de serviços" ou de "serviços diversos".

Os primeiros calam-se e comem (pouco), os segundos enchem o bandulho, criticam os primeiros atirando-lhes à cara que são eles que lhes pagam os vencimentos, como se o vencimento de uns e outros não resultasse do pagamento do trabalho.
-por LNT, A barbearia do sr.Luís


Publicado por Xa2 às 08:07 de 04.10.10 | link do post | comentar |

2 comentários:
De . a 6 de Outubro de 2010 às 14:32
Ao invês de algumas medidas penalizadoras de rendimentos mais baixos não se penalizou as reformas chorudas

Publicado Outubro 3, 2010 http://jodoas.wordpress.com/2010/10/03/por-ao-inves-de-algumas-medidas-penalizadoras-de-rendimentos-mais-baixos-nao-se-penalizou-as-reformas-chorudas/

De que têm medo os governantes?

Que os generais, marechais e almirantes, façam nova revolução. Descansem que esse risco não existe.

Já começa a ser publico que pessoas com alguma responsabilidade auscultadas pela comunicação social são peremptórios a afirmar que o governo poderia ter ido muito mais longe, nomeadamente incluir nas medidas de austeridade anunciadas recentemente pelo 1º. ministro, as reformas mais altas que se praticam neste país e que já têm um peso significativo no Orçamento do Estado.

Mas não foi isso que aconteceu, preferiu-se, como aliás já é normal acontecer penalizarem-se pessoas com mais baixos rendimentos nomeadamente aposentados que passam a pagar por medicamentos que antes os obtinham gratuitamente e ainda alguns deles passaram a pagar IRS, facto que traduz uma injustiça.

Que sentido faz um magistrado judicial, general, um notário, etc etc, numa situação de aposentação ter mensalmente assegurada a pensão de 5 ou 6 mil euros, ter apenas como penalização anunciada a congelação desta choruda pensão, quando alguém que trabalha, tem filhos para sustentar e educar e auferindo um rendimento de 1.500 euros, seja penalizado com 5% do seu ordenado.

Não será isto uma imoralidade?
Não restam dúvidas a ninguém que é.

E quando se anuncia que as medidas tomadas visam apenas penalizar os que mais podem não afectando os mais necessitados, obviamente que estamos perante uma mentira descarada, pois com estes critérios só se pode tirar uma conclusão, os governantes continuam a proteger as classes mais favorecidas como sempre aconteceu.

1 Manuel Sá , Outubro 5, 2010 ás 9:36 pm

Infelizmente, estamos perante uma realidade brutal. Não foi, não é quem menos ganha e quem menos poder tem, quem tem responsabilidades na crise que se criou, no mundo, nem naquela crise que, por isso e pelo que por cá se tem feito, nos afecta, de forma ainda mais grave.

Está claro, para todos os que têm dez réis de testa, que foi o grande capital financeiro, foram os grandes especuladores, ajudados pelos governos que tudo lhes facilitaram, quem estoirou com isto, tirando daí o proveito.
Há lucros a subir, há gente que nunca esteve tão rica.
E, ao invés, cresce o número de pobres. Além do mais, se há uma crise deste tipo, os que estão em piores condições é que têm que, mais uma vez, aguentar os sacrifícios maiores?

Não há coragem, não há decência, não há honestidade política. Esta gente está vendida a interesses que não são os os dos cidadãos, em geral, mas os das suas clientelas e amigos do peito, da família, dos grupos organizados, dos lobies… Um desastre.


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 4 de Outubro de 2010 às 15:05
Contas por alto…
Sempre soubemos que a administração pública tem nos seus assalariados particularidades próprias. Sempre foi voz corrente que quem queria estabilidade e segurança ia para a função pública e quem tinha ambições e competências era potencialmente mais bem sucedido no privado. Isto sem desprimor por ninguém e por um ponto de vista popular e senso comum.
E a voz corrente tinha alguma razão quando se deslocava às repartições públicas e era habitual a displicência e bonomia em como era atendido… Mas também era voz corrente que a função pública não pagava bem, mas também não despedia ninguém… Claro que havia, como em tudo na vida, excepções. Mas excepções não são a regra.
Mas o mundo mudou e a dita crise acelerou muitas mudanças, mas não na administração pública.
Mas na função pública continua a haver muito laxismo no atendimento ao cidadão e na eficácia do exercício de funções, continua a ser muito difícil e raro os despedimentos e continua a ser objectivo de muitos jovens entrar para a função pública por causa dessa segurança em emprego para toda a vida… Lembro-me de ouvir falar da mentalidade de quem entrava para o estado ser da contagem decrescente para a aposentação. Sei disso pela experiência da minha própria vida. Da vivida e da contada.
Entretanto no privado o mundo do trabalho era muito mais intenso. Com altos e baixos. Com sucessos e promoções logo seguido de desencantos e despedimentos. Com ofertas de mais dinheiro e logo se muda para a concorrência. E muitas vezes despejado aos 40 anos por troca por um jovem muito mais barato. E logo agora que estava tudo bem…
Não são só os funcionários públicos que perante os seus vencimentos assumiram obrigações contratuais de habitação, carro, educação, etc.. Isso é comum a todos. O que não era habitual era os funcionários públicos terem instabilidade no seu pecúlio mensal… aos outros isso era o pão-nosso de cada dia.
Claro que há bons e maus chefes na Administração Pública. É claro que no privado os patrões estão lá para ganhar dinheiro e se puderem pagar 10 não vão pagar 15. Mas não faz isto qualquer um de nós enquanto mero consumidor? Comprar idêntico e sempre que mais barato? Mas nenhum patrão manda embora um empregado que o faz ganhar bom dinheiro…
Mas não sejamos tansos. Não se é mau por se ser patrão. Não se é bom, por se ser trabalhador.
Claro que o sistema capitalista-democratico-liberal vive da exploração do homem pelo homem. Mas há outro sistema que não o faça?
Agora o que se está a assistir é o sistema a ser autofágico, fruto da ganância de uns poucos e cegueira de muitos que com eles convivem e vão permitindo por lhes chegarem as migalhas que estes devoradores vão deixando cair enquanto devoram o próprio sistema.
Tal como não há vítimas sem abusadores, também não há ricos sem pobres.
Caminhamos portanto, e se calhar pela primeira vez em Portugal, para a regeneração.
E ninguém está inocente.


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