A República

 

Comemorei durante muitos anos os 5 de Outubros em loucas correrias com a polícia atrás junto à estátua de António José de Almeida e no Cemitério do Alto de S. João em que a Pide e a PSP bloqueavam a entrada dos democratas que queriam depor flores nas campas e jazigos dos republicanos. Uma vez estava eu aos gritos de “Viva a República” quando fui rodeado por um grupo de PSPs que me queriam levar para uma carrinha. Eis que a multidão rodeou os polícias e agarrou-me com tanta força que me vi livre dos energúmenos e escapuli quando vi que ainda tentavam perseguir-me.

 

Eu era republicano contra o salazarismo, mas tinha a consciência proporcionada pelos livros do Oliveira Marques e outros que a I. República Portuguesa mais não foi que um desastre total com 45 governos, 8 presidentes e 8 eleições legislativas em apenas 16 anos, além de uma série de golpes militares e 518 greves. Apenas em dois anos, governos de Afonso Costa de 1912 a 1914, registaram-se saldo financeiros positivos. Todos os outros foram negativos.

 

Estes factos causaram-me uma profunda impressão, principalmente quando, na qualidade de deputado na I. Legislatura da 2ª República (ou 3ª República para alguns), ouvi o dr. Álvaro Cunhal dizer que era tão democrático um governo de dez dias como de dez anos. Protestei aos gritos, um governo de dez dias não é democrático porque não chega a ser governo. Foi no seguimento do voto que reprovou o programa de governo do eng. Nobre da Costa, então nomeado pelo presidente Ramalho Eanes sem consultar e procurar o apoio dos grandes partidos, nomeadamente do PS. No meu espírito ficou desde então a ideia que esta nossa democracia não podia ser uma repetição da instabilidade da 1ª República e, felizmente, acabou por não ser, apesar do ódio a que são votados todos aqueles que ocupam as cadeiras do poder. Mesmo assim, conseguem-se governos de legislatura e até de duas. Mas, nada indica que continue a ser assim num futuro muito próximo.

 

 

Apesar das vicissitudes da República com instabilidade e revoltas, incluindo o assassinato de quase todo um governo, a dívida pública portuguesa passou de 137.668 libras em 1910 para 68.344 em 1924 e 80.070 em 1925, tendo tido por meio as enormes despesas com a guerra e as crise económicas mundiais e a terrível epidemia de 1918.

 

Efectivamente, a causa primeira da queda da Monarquia foram as despesas da Casa Real que residia em 7 palácios na zona de Lisboa a Mafra: Belém, Ajuda, Necessidades, Queluz, Sintra, Pena e Mafra. Para além disso, os reis duques de Bragança possuíam o Palácio Ducal de Vila Viçosa e um outro palácio no Buçaco que passou posteriormente a ser um excelente hotel.

 

O último monarca português, saiu de Portugal a bordo do iate real “D. Amélia IV”, um navio de 1.300 toneladas de deslocamento que a República converteu num cruzador. Além disso, D. Carlos I passeava-se igualmente num luxuoso iate à vela, o “D. Amélia III”.

 

Era considerado demais para um país de 5,9 milhões de habitantes, dos quais uns 3 milhões andavam de pé descalço e 4,9 milhões habitava o mundo rural. Mas, depois, a chefia de Estado mais barata não resolveu grande coisa no aspeto puramente financeiro do Estado porque se quis fazer algo mais no ensino e noutras áreas.

 

A República, uma vez implantada, proibiu os partidos monárquicos como o Regenerador e o Histórico-Progressista, partidos gastos por mais de 60 de rotativismo e que tinham como origem os defensores da carta constitucional outorgada por D. Pedro IV e os vintistas ou setembristas que defendiam a Constituição de 1822 e revolução setembrista de 1836. Posteriormente, os monárquicos unidos concorreram a quase todas as eleições com resultados quase insignificantes, até por se terem dividido em católicos, independentes e outros grupos. Só em 1918, nas eleições de Abril de 1918 é que conseguiram eleger 37 deputados, tornando-se na segunda força política parlamentar depois dos republicanos nacionais.

 

 

Nas primeiras eleições, o Partido Republicano Português elegeu 229 deputados e o Partido Socialista 2, registando-se mais 2 independentes.

 

Logo a seguir os republicanos dividiram-se em três partidos ou grupos; os democráticos de Afonso Costa, os evolucionistas de António José de Almeida e os unionistas de Brito Camacho.

 

Os homens da República não se entendiam, os monárquicos procuraram retomar o poder pela via de golpes militares e Sidónio Pais chegou a ser ditador durante sete meses em 1918. Apesar de militar, Sidónio deixou os homens do Corpo Expedicionário Português em França sem abastecimentos, munições, soldos, a viverem na miseravelmente naquilo que já era uma miséria terrível, a guerra das trincheiras. O que vale é que a guerra terminou rapidamente, evitando o prolongamento dos sofrimentos dos briosos soldados analfabetos que combatiam uma guerra que pouco ou nada tinha a ver com Portugal.

 

Os republicanos democráticos venceram a grande maioria das eleições e muitas vezes por maioria absoluta, mas mesmo no seu interior não se entendiam bem, ou as suas maiorias eram abatidas por um golpe do exército umas vezes ou um golpe da GNR outras.

 

Ao longo dos 16 anos da 1ª República, os cientistas portugueses produziram 9 trabalhos publicados em revistas científicas de renome mundial, quando este ano o número ultrapassa os vários milhares.

 

A Monarquia deixou 1212 alunos universitários e a República 4.117 com metade da população atual do País. O número de alunos dos liceus passou de 8.691 em 1910 para 12.604 em 1925-26 e as escolas primárias passaram de 5.552 para 7.126.

 

Se ligarmos esses reduzidos resultados à poupadinha política educacional do salazarismo temos muitas explicações para a falta de dinamismo da economia atual, apesar do muito que está a ser feito no campo da educação a todos os níveis, incluindo a superior e o trabalho de investigação científica, Portugal está neste momento dentro dos parâmetros europeus, só que os outros têm mais de dois séculos de história científica e técnica. Recordemos que uma conhecida marca francesa de automóveis comemora agora os seus 200 anos de existência, não como fabricante de automóveis que não são tão antigos como isso, mas como fabricante de bicicletas, máquinas diversas, etc., até chegar aos primeiros automóveis.

 

Os homens da República eram pessoas honestas e financeiramente comedidas. O presidente Bernardino Machado ia de eléctrico para o Palácio de Belém, não havia residência de 1º Ministro e o aparelho de Estado não construiu nenhum edifício de luxo e nunca houve um iate presidencial.

 

Eram honestos nos seus ideais, mas terrivelmente intolerantes e combativos. Na sua honestidade não toleravam insultos à sua dignidade, pelo que era frequente um governo demitir-se só porque alguém da oposição disse que não era sério.

 

Afonso Costa, um dos melhores políticos da República, demitiu-se por ser acusado de nepotismo. Uma sobrinha tinha conseguido um pequeno lugar na função pública.

 

A República sofreu o feroz combate por parte da Igreja Católica, tendo ficado célebre, a nível mundial, a bula do Papa Pio X “Jumududum in Lusitânia” de 1911 que invectivava a política republicana e foi a única bula papal dedicada a uma nação e que procurava interferir na sua política. Claro que a República foi excessivamente anti-clerical, pois considerava os incultos párocos das freguesias como o fator do atraso do povo português. Para combater a República, a Igreja Católica inventou essa enorme mistificação que foi o milagre de Fátima que permanece até hoje como uma verdade apenas de pedra e cimento localizada bem no centro de Portugal.

 

Durante a República, a quase ausência de um Estado governado com extrema instabilidade deu origem a um grande movimento no ensino livre, cooperativo, partidário e privado e uma grande tentativa de difundir a cultura pelo povo. Em 1912 fundaram-se as Universidades Livres e em 1913 as Universidades Populares, em que intelectuais não remunerados forneciam um grande número de cursos a operários e pessoas de todos os estratos sociais.

 

A música passou a ser mais popular, tendo a Ópera deixado o ambiente seleto do S. Carlos para dar recitais no Coliseu dos Recreios com ingressos a preço módico.

 

Enfim, uma República para esquecer, pois mais vale um governo menos bom que nenhum. Mais vale fazer estradas, hospitais, escolas, universidades, portos, TGV, etc. que nada.

 

A República foi um NADA em termos de desenvolvimento a qualquer nível. Nada deixou para as gerações vindouras por muito que nos agradem os princípios republicanos e por muito que rejeitemos a herança monárquica dos cargos públicos.

 

 

 

 NOTA: A Monarquia também não foi um exemplo de estabilidade, pois entre 1821 e 1910 registaram-se 82 governos, o que dá um pouco mais de um governo por ano. Os últimos 10 anos de Monarquia foram governados por 14 governos. Nos restantes países europeus a instabilidade estava mais ou menos na moda, principalmente no Século XX e nas Repúblicas de Weimar, Francesa, Espanhola e em muitas monarquias.

Talvez porque a esperança de vida fosse muito curta, os políticos queriam governar a todo o custo nem que fosse por meses ou um ou dois anos. A própria noção do tempo modifica-se com a idade e com a esperança de vida.

 

 



Publicado por DD às 21:42 de 04.10.10 | link do post | comentar |

1 comentário:
De DD a 5 de Outubro de 2010 às 22:44
Pessoalmente, um leitor duvidou dos meus números. Apesar de o não ter feito em comentário eu respondo aqui publicamente.
São tirados do livrinho de A. H. de Oliveira Marques - A Primeira República Portuguesa - para uma visão estrutural - publicado pela editora Livros Horizonte.
Quanto aos governos da Monarquia são tirados das listas publicadas pelo mesmo historiador no segundo volume da sua "História de Portugal". Estão lá todos os governos com os nomes dos responsáveis e principais ministros, reis, presidentes da República, etc.


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