Valores republicanos vs oligarquias e castas

O ar impuro da República

(por Filipe Luís,  Visão, 14.10.2010)

 

Cem anos depois do golpe republicano de 5 de outubro, será esta uma república com bom ambiente? O ar é suficientemente respirável? O ruído respeita os limites razoáveis? O lixo é bem separado e tratado? Falo, não de decibéis, de níveis de dióxido de carbono ou de resíduos sólidos, mas de valores, atitudes e comportamentos. A República Portuguesa respira ar puro ou os seus pulmões estão enegrecidos pelo nepotismo, pela favorecimento ilegítimo, pelo tráfico de influências, pelos privilégios e pela corrupção ?

 

A efeméride que acabámos de comemorar teria sido uma excelente oportunidade para um check up ao ar da República e ao estado geral da sua saúde. A lista de hábitos enraizados, protocolos, tiques e formas do nosso regime, que já vai na sua terceira versão, depois da I República e do Estado Novo, não resiste a um escrutínio, ainda que superficial, dos valores republicanos.

Olhando para as práticas, para os titulares de cargos políticos ou para outros membros de órgãos de soberania, para o setor do Estado e para as empresas públicas, verifica-se que o País conservou, quando não recuperou, os piores vícios da monarquia, fazendo da efígie republicana uma mera fachada.

É paradoxal: os reis constitucionais cultivavam, na rua, a dessacralização do poder. A República, porém, fecha-se nos seus palácios. Nos anos 70 e 80 do século XIX, o rei D. Luiz, pai de D. Carlos, ia todas as tardes ao Rossio, beber a sua ginjinha com os amigos. Sozinho e sem segurança. Qualquer súbdito poderia trocar dois dedos de conversa com o rei, que se apresentava no seu grosseiro jaquetão burguês, e trocar com ele umas palmadas nas costas.

Hoje, qualquer mísero secretário de Estado passa em carros topo de gama de vidros fumados, alheio à plebe. O ar da República está irrespirável.

 

Expliquemo-nos:

os valores republicanos exaltam a probidade na gestão da coisa pública, a transparência na condução dos negócios do Estado, a frugalidade dos representantes do povo, a proximidade entre eleitos e eleitores.

 Segundo os valores republicanos, não há súbditos, mas cidadãos, tratados em pé de igualdade perante a justiça e a lei.

Os juízes, os ministros, o Presidente, são também cidadãos que, nalguns casos, apenas cumprem uma missão definida no tempo, esperando-se deles que voltem depois à sua atividade normal, dando lugar a outros eleitos. 

E o que vemos?

A Justiça condena os mais pobres e favorece os mais ricos. Os titulares de cargos públicos são inacessíveis e distantes. Os que vivem do dinheiro do Estado, gestores públicos de empresas deficitárias, deputados, autarcas, administradores, pessoal político de institutos, fundações e autarquias têm direito a prebendas, mordomias, carros, motoristas (coches e cocheiros...).

Quando chegam a um cargo político, raramente voltam à base anterior, porque, à sua espera, logo aparece um lugar, público ou privado, que fará render a sua agenda de conhecimentos e interesses.

A República replicou os antigos privilégios e fundou as suas próprias castas. O que esta República criou foram novos "condes, duques, marqueses e barões" que, oriundos dos partidos ou de grandes famílias, funcionam em circuito fechado como a antiga nobreza.

Esta República tornou-se uma monarquia.

 

Nota:  os 'valores republicanos' não são exclusivos das repúblicas (mas sim da ''res  pública''); o que se acentua é o contraste de práticas, comportamentos e valores de uma sociedade desejada, em contaponto  áquela em que vivemos e sentimos cada vez mais desagregada e desigual, porque passiva e egoisticamente temos permitido a erosão desses valores. 



Publicado por Xa2 às 00:07 de 16.10.10 | link do post | comentar |

2 comentários:
De DD a 17 de Outubro de 2010 às 14:43
Na República e na Monarquia liberal havia pessoas honradas, idealista e portadores de elevados valores éticos, mas simultaneamente caracterizavam-se por uma grande intolerância e combatividade política. Daí que desde 1823 e 1926 tivemos 129 governos, dos quais dois ou três governaram mais de 5 anos. Os políticos eram intelectuais bem falantes e cultos, mas pouco dotados para a verdadeira gestão. Assim, a honradez serviu para bem pouco e nos tempos do Rei D. Luís I, começou a época do Fontismo e da indispensável construção dos caminhos de ferro (nova ortografia sem hífenes ) que deixou as finanças públicas e a dívida externa de rastos com bem descreve Oliveira Martins em "Portugal Contemporâneo". Os portugueses ficaram a ver passar os comboios e nada fizeram, quando os liberais julgavam que isso iria trazer uma explosão de iniciativas económicas oriundas de todos os cantos do País.


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 17 de Outubro de 2010 às 09:24
Percebo o sentido da 'coisa'. Mas isto de comparar o regime republicano à actual republica portuguesa é pernicioso. É tomar a parte pelo todo. Pega num mau exemplo de regime republicano e conclui que a república não presta.
Existem com certeza boas práticas republicanas com aliás também haverão boas práticas de regimes monárquicos.
Agora quando temos uns medíocres a dirigir um regime e com espírito de salteadores ou piratagem é natural mas não correcto associar o descontentamento à repulsa pelo regime. E é isto que hoje muitos de nós sente e que este post muito bem ilustra.
A recusa e a repulsa de nos identificarmos com estas práticas regimentais. E aí estou de acordo. Vivemos uma época de 'mete nojo'.


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