União e protesto: ''Ditamole'' dos mercados intoxica cidadãos e o projecto U.E.

A  Ditamole  ,  [ Boaventura de Sousa Santos, Visão, 21-10-2010]

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Se nada fizermos para corrigir o curso das coisas, dentro de alguns anos se dirá que a sociedade portuguesa viveu, entre o final do século XX e começo do século XXI, um luminoso mas breve interregno democrático. Durou menos de 40 anos, entre 1974 e 2010.
Nos 48 anos que precederam a revolução de 25 de abril de 1974, viveu sob uma ditadura civil nacionalista, personalizada na figura de Oliveira Salazar.
A partir de 2010, entrou num outro período de ditadura civil, desta vez internacionalista e despersonalizada, conduzida por uma entidade abstrata chamada "mercados".

 

As duas ditaduras começaram por razões financeiras e depois criaram as suas próprias razões para se manterem. Ambas conduziram ao empobrecimento do povo português, que deixaram na cauda dos povos europeus. Mas enquanto a primeira eliminou o jogo democrático, destruiu as liberdades e instaurou um regime de fascismo político, a segunda manteve o jogo democrático mas reduziu ao mínimo as opções ideológicas, manteve as liberdades mas destruiu as possibilidades de serem efetivamente exercidas e instaurou um regime de democracia política combinado com fascismo social. Por esta razão, a segunda ditadura pode ser designada como "ditamole".

Os sinais mais preocupantes da atual conjuntura são os seguintes.
Primeiro, está a aumentar a desigualdade social numa sociedade que é já a mais desigual da Europa. Entre 2006 e 2009 aumentou em 38,5% o número de trabalhadores por conta de outrem abrangidos pelo salário mínimo (450 euros): são agora 804 mil, isto é, cerca de 15% da população ativa;
 em 2008, um pequeno grupo de cidadãos ricos (4051 agregados fiscais) tinham um rendimento semelhante ao de um vastíssimo número de cidadãos pobres (634 836 agregados fiscais). Se é verdade que as democracias europeias valem o que valem as suas classes médias, a democracia portuguesa pode estar a cometer o suicídio.

Segundo, o Estado social, que permite corrigir em parte os efeitos sociais da desigualdade, é em Portugal muito débil e mesmo assim está sob ataque cerrado. A opinião pública portuguesa está a ser intoxicada por comentaristas políticos e económicos conservadores - dominam os media como em nenhum outro país europeu - para quem o Estado social se reduz a impostos:
os seus filhos são educados em colégios privados, têm bons seguros de saúde, sentir-se-iam em perigo de vida se tivessem que recorrer "à choldra dos hospitais públicos", não usam transportes públicos, auferem chorudos salários ou acumulam chorudas pensões.
O Estado social deve ser abatido. Com um sadismo revoltante e um monolitismo ensurdecedor, vão insultando os portugueses empobrecidos com as ladainhas liberais de que vivem acima das suas posses e que a festa acabou. Como se aspirar a uma vida digna e decente e comer três refeições mediterrânicas por dia fosse um luxo repreensível.

Terceiro, Portugal transformou-se numa pequena ilha de luxo para especuladores internacionais.
Fazem outro sentido os atuais juros da dívida soberana num país do euro e membro da UE? Onde está o princípio da coesão do projeto europeu? Para gáudio dos trauliteiros da desgraça nacional, o FMI já está cá dentro e em breve, aquando do PEC 4 ou 5, anunciará o que os governantes não querem anunciar: que este projeto europeu acabou.

Inverter este curso é difícil mas possível. Muito terá de ser feito a nível europeu e a médio prazo.
A curto prazo, os cidadãos terão de dizer basta!
Ao fascismo difuso instalado nas suas vidas, reaprendendo a defender a democracia e a solidariedade tanto nas ruas como nos parlamentos. A greve geral será tanto mais eficaz quanto mais gente vier para a rua manifestar o seu protesto. O crescimento ambientalmente sustentável, a promoção do emprego, o investimento público, a justiça fiscal, a defesa do Estado social terão de voltar ao vocabulário político através de entendimentos eficazes entre o Bloco de Esquerda, o PCP e os socialistas que apoiam convictamente o projeto alternativo de Manuel Alegre.


Publicado por Xa2 às 00:08 de 22.10.10 | link do post | comentar |

3 comentários:
De DD a 25 de Outubro de 2010 às 00:49
Este gajo julga que a greve geral produz automóveis, trigo, batatas, casas e o catano .

A democracia não é a redução do trabalho a um serviço mínimo. Aqui trabalha-se o mínimo e, por isso, temos o mínimo dos mínimos. Este Boa ou Máventura não se recorda do tempo em que o pessoal andava de pé descalço por toda a cidade e um dia até veio uma lei salazarista a proibir que se ande de pé descalço. As varinas levavam as socas nas canastas e quando viam um xui colocavam-nas nos pés.
Este Boaventura não sabe nada.

O País tem uma classe média de trabalho mínimo. Ainda hoje num canal televisivo entrevistaram vários médicos. O brsileiro cheio de espírito construtivo a dizer que o Hospital Garcia da Horta é formidável, a médica portuguesa só falava nas dificuldades e no muito trabalho que tem.

Há uns meses atrás fui tirar umas radiografias ao Hospital Pulido Valente e estavam lá nos Raios X um casal de jovens médicos estagiários finalandeses
Perguntei porque tinham vindo para um País tão rasca. Eles responderam que não, que o Hospital tinha equipamento tão bom como o finlandês, as doenças eram as mesmas e eles gostavam muito de trabalhar aqui e até querem ficar por cá.

Sejam professores, juízes, médicos, economistas ou sociólogos e o catano, todos falam nas dificuldades e ninguém parece querer mesmo trabalho.

Recordo que os paizinhos diziam às criancinhas: tu tens de estudar, pois se não tirares um curso superior tens depois de trabalhar muito.
O curso era visto como um canudo para não trabalhar e viver à custa do proletariado.

Talvez seja por o pessoal não se matar a trabalhar que o índice de longevidade português é dos mais altos do Mundo, ou seja, de 18,4 anos aos 65 anos de idade e que a percentagem de grandes idoso (+75 anos) é também uma das mais altas com 51%. Só que o sociólogo Boaventura está como o António Barreto que nem conhece os números que colocou no seu site "Pordata". São sociólogos de serviço mínimo.

O pessoal do Estado anda todo a reformar-se e não quer saber de onde virá o dinheiro para as suas reformas.

O Estado tem nas suas folhas de salários cerca de 1.380.000 funcionários ativos e inativos dos quais mais de 650 mil são reformados.

Os mercados monetários têm razão. Não existem para sustentar parasitas. Em princípio, todo o crédito é para investimento, devendo as despesas em salários e reformas serem sustentadas pelo trabalho de todos.


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 22 de Outubro de 2010 às 13:39
Qual BE? O do Louçã ou o de Miguel Portas?
Qual PCP? O de Jerónimo ou o que emigra para o PS?
Quais socialistas? Os do Sócrates, ou os que já não se revêm no actual partido?


De Árvores e frutos a 22 de Outubro de 2010 às 11:51
Já o dissemos, por outras palavras, em vários postes no LUMINÁRIA publicados. Provavelmente nem sempre, como agora, tiveram o eco desejado e os leitores foram diminutos quer em numero como em debate.

Temos procurado ser umas arvores dando frutos sem sequer nos preocuparmos quem os aproveitará o que já não depende de nós, as arvores fazem a parte que lhes compete o resto...


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