Intervenção de Dieter Dellinger no XIV Congresso da FAUL

 

 

 

 

Saúdo todas e todos os camaradas sem mais pormenores pois deixei a caixa da graxa no largo de São Domingos.

 

             Vejo aqui em Odivelas a na Área Metropolitana de Lisboa tudo bem organizado e cheio de excelentes estradas, mas, estando há tantos anos no mercado não posso aceitar que tantas e tantas fábricas fechem e a agricultura seja em grande parte abandonada. Não podemos esperar pelo dia 1 de Janeiro de 2014, data em que as decisões na EU passarão a ser tomadas por maioria, podendo acabar a atual ditadura económica da Alemanha, hoje já só parcialmente unida à França. Digo isto porque a maior parte dos países europeus sofre problemas semelhantes aos de Portugal, só que o País tem a agravante de estar no agradável sul da Europa e sofrer de uma incompreensível e estúpida má vontade de alguns países do norte europeu que se consideram arautos dos direitos humanos e da solidariedade sem praticarem e alguns com uma história para esquecer.

            Por isso, pego na ideia de Marcos Perestrelo de aprofundar mais o caráter industrial da zona norte da Área Metropolitana de Lisboa, associada à zona sul que já não faz parte da Faul, no sentido de serem criados mais pólos industriais na zona norte de Lisboa e em áreas que vão de Lisboa a Loures. Para além dos dormitórios, fábricas, centros de desenvolvimento e indústrias de inteligência em terrenos camarários cedidos sem grandes encargos apenas para a ocupação fabril.

            Estamos aqui numa zona de excelência em termos de ligações rodoviárias, a poucos minutos de autoestradas que nos levam a todos os pontos do País e da Europa. Podemos praticamente circular em autoestrada até Berlim e, em breve, até Varsóvia e mais ainda. Além disso, as ligações portuárias e ferroviárias são excelentes e tendem a melhorar. Todas as infraestruturas da Área Metropolitana de Lisboa e, mesmo, de Portugal são de grande qualidade, pelo que não há razão para que não se instalem na zona novas iniciativas empresariais em vez de fecharem. Não podemos ser uma sociedade de serviços com meia dúzia de fábricas importantes à escala nacional e algumas pequenas empresas, principalmente importadoras.

 

Que fazer pois?

            Não compete às autarquias nem ao Estado criar novas indústrias e o financiamento com subsídios não proporciona sempre os resultados desejáveis. Mesmo assim temos de fazer algo e não repetir os erros do passado fontista do Século XIX em que após a instalação dos caminhos de ferro, o desenvolvimento industrial ficou muito aquém do desejado. Além disso, não estamos num período propício a um surto industrial ou ao aparecimento de uma indústria de criação intelectual.

            Mas há que encontrar uma solução que não se limite a fazer a vontade a grupos organizados nem a interesses instalados no aparelho de Estado.

           

            Governos e agentes económicos têm de ser levados à criação de novos empreendimentos de sucesso. Alguns há em Portugal na área do papel e das indústrias eléctricas ligadas às eólicas, mas são insuficientes.

 

            Há pois que ser mais criativo e dar um impulso ao mercado, ver o muito que se faz noutros países e copiar. Mas, claro, sem resolver o imediato problema financeiro do Estado através de um Orçamento de Estado adequado continuaremos paralisados sem nos podermos mexer para parte alguma.

 

            Por vezes, a ideologia socialista fica como que afogada nos ingentes problemas da gestão diária que, neste momento, afligem o País de uma forma dramática e que, a meu ver, terão continuidade num futuro próximo e, talvez, mais distante do que desejaríamos.

            Por isso, nada como fazer uma pequena referência à crise atual que parece ter vindo dos EUA em 2008, mas que, não minha opinião, não passou de um clique que veio pôr a descoberto realidades que nos passavam despercebidas.

 

1)         Em primeiro lugar temos de viver a crise resultante do bem que fizemos como partido e regime democrático.

            Graças a um excelente Serviço Nacional de Saúde e um aumento da consciência geral relativamente a fatores que podem provocar a doença e a morte, além do enorme progresso mundial da medicina, temos hoje em Portugal uma esperança de vida a partir dos 65 anos de idade da ordem dos 18,4 anos com o crescimento de um décima por ano. Assim, o nosso índice de longevidade aumentou substancialmente, chegando Portugal a ter hoje no universo dos idosos com mais de 65 anos cerca de 51% de pessoas com mais de 75 anos de idade, o que é quase um recorde mundial, só ultrapassado pelo Japão, Finlândia e poucas nações mais.

            Estamos pois este ano com mais 3,7 milhões de reformados e a caminho de atingir em 2011 ou 2012 os 4 milhões, o que deve ser visto com alegria e como símbolo do progresso, apesar do seu custo.

            Recordo que no último dia de 1974, o País apenas tinha cerca de 250 mil reformados e em 1990, o Estado pagava apenas a uns 200 mil reformados da Função Pública quando hoje já ultrapassou os 600 mil, número que aumenta vertiginosamente de dia para dia.

            Enfim, ninguém quer morrer cedo e tem todo o direito à vida, pelo que o Estado Social não pode por isso ser posto em causa, como pretendem Medinas Carreira e outros, devendo antes considerar estes números como um êxito e um produto da concretização do Socialismo, sendo imprescindível melhorar as condições de vida dos idosos com um maior alargamento do SNS aos cuidados continuados de saúde e um serviço ambulatório de ida a casa dos doentes idosos por parte dos Centros de Saúde.

 

            Referi a questão dos reformados pelo peso que tem nas finanças públicas; cerca de 21 mil milhões de euros e que poderá levar alguns governos do futuro a fazer uma inversão de marcha de todo impossível, pois não podem os activos atuais deixar de descontar para a Segurança Social e os idosos não podem deixar de receber o que têm direito e esse direito não pode ser reduzido a uma expressão simbólica como é praticado nalguns países, nomeadamente nos governados por partidos comunistas como a China e o Vietname e nos ex-países comunistas. Recordo que os encargos com as Parcerias Público Privadas em 2011 não chegam a valer 4% do custo das reformas e pensões.

            Portugal sofre e sofreu com a absurda globalização e inerente concorrência de países que praticam largamente o dumping social.

            Saliente-se que na génese da crise financeira mundial não está tanto a banca americana ou ocidental, mas antes a absurda exploração quase esclavagista do trabalhador chinês a ganhar uma média de 50 cêntimos a 1 dólar à hora e, por vezes, sem salário, principalmente na construção civil.

            Essa exploração permitiu atrair centenas de milhares de empresas capitalistas que se aproveitaram da maior e mais barata oferta de trabalho produzida alguma vez no Mundo e fornecida precisamente por um partido que objetivava em teoria o bem-estar dos trabalhadores e permitiu a colocação de mercadorias baratas em toda a Europa que se abriu sem cuidar dos países mais fracos e, como tal, é a causa do desemprego em Portugal e dos 45 milhões de desempregados nos países da OCDE. Para além disso, produziu uma taxa de poupança, produto do que foi roubado aos trabalhadores, de 50% do PIB chinês no valor muitos biliões de dólares que inundaram a banca americana, levando-a a emprestar a torto e a direito e a criar fundos de investimento que tinham como base hipotecas e outras aplicações sem sustentabilidade.

 

            Os políticos portugueses e europeus em geral têm de ter a coragem de apontar a China como a causa da crise e do desemprego imediato, o que pode tornar o custo da longevidade quase impraticável.

 

Nota: O texto da intervenção era este, mas não foi lido, simplesmente dito de cor, pelo que as frases podem não ser rigorosamente iguais às palavras pronunciadas.


 



Publicado por DD às 17:10 de 24.10.10 | link do post | comentar |

11 comentários:
De Boaventura S. Santos a 25 de Outubro de 2010 às 10:33
Se nada fizermos para corrigir o curso das coisas, dentro de alguns anos se dirá que a sociedade portuguesa viveu, entre o final do século XX e começo do século XXI, um luminoso mas breve interregno democrático. Durou menos de 40 anos, entre 1974 e 2010.
Nos 48 anos que precederam a revolução de 25 de abril de 1974, viveu sob uma ditadura civil nacionalista, personalizada na figura de Oliveira Salazar.
A partir de 2010, entrou num outro período de ditadura civil, desta vez internacionalista e despersonalizada, conduzida por uma entidade abstrata chamada "mercados".
As duas ditaduras começaram por razões financeiras e depois criaram as suas próprias razões para se manterem. Ambas conduziram ao empobrecimento do povo português, que deixaram na cauda dos povos europeus. Mas enquanto a primeira eliminou o jogo democrático, destruiu as liberdades e instaurou um regime de fascismo político, a segunda manteve o jogo democrático mas reduziu ao mínimo as opções ideológicas, manteve as liberdades mas destruiu as possibilidades de serem efetivamente exercidas e instaurou um regime de democracia política combinado com fascismo social. Por esta razão, a segunda ditadura pode ser designada como "ditamole".


De DD a 25 de Outubro de 2010 às 15:20
Boaventura deveria saber mais de história e da situação de dezenas de países no Mundo.
As ditaduras são o produto da vontade de uns tantos homens, geralmente armados ou com apoio de forças armadas.
A actual crise financeira é o produto de uma vontade socializante aliada a uma incapacidade para produzir, principalmente resultante da concorrência chinesa.

A revista Tiome de hoje diz que no México um trabalhador de uma fábrica de automóveis ganha 7 dólares à hora com tudo incluído, na China ganha 1,4
dólares e na ìndia cerca de 0,7 dólares.
O automóvel Tata Nano fabricado na Índia custa 2.500 dólares, ou pouco mais de 2 mil euros.
Hoje estamos metidos numa guerra de exploração dos trabalhadores. Os mais explorados matam os postos de trabalho dos menos explorados, a não ser que coloquemos barreiras à importação dos produtos fabricados pelos mais explorados.
A família Tata rouba tanto aos seus trabalhadores que jé dona de uma parte importante da indústria indiana e de quase todas as siderurgias europeias e americanas, incluindo a siderurgia portuguesa.

Há aqui no Luminária imbecis que teimam que é o Sócrates o culpado de uma situação global em que a exploração maior mata a exploração menor. O capitalismo terceiro mundista e comunista chinês mata o socialismo democrático.

Os americanos preparam-se para desvalorizar largamente o seu dólar como defesa dos postos de trabalho dos seus trabalhadores e, assim, os chineses vão perder triliões de horas de trabalho porque não querem importar bens alimentares e de consumo e, menos ainda, aumentar os salários dos seus trabalhadores.

Um tipo como o Boaventura que não vê esta realidade é completamente cego e está tão anquilosado com ideias antigas que não descortina a realidade que surgiu de uma forma crescente nos últimos vinte anos.

Devido à sua idade, Boaventura julga que a Europa ainda detém o monopólio industrial do Mundo em conjunto com os EUA.


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