Crise? Qual crise?

A ANA Aeroportos gastou há um ano 767 mil euros na construção de uma pista ciclável entre o Vale de Chelas e o Parque das Nações, de acordo com o portal dos contratos públicos. Esta é uma das despesas mais elevadas desta empresa em contratos por ajuste directo. Questionada pelo PÚBLICO, a empresa que gere os aeroportos nacionais especificou que se trata de uma ciclovia entre o aeroporto e o Parque das Nações, com aproximadamente 3,5 quilómetros que deriva de um protocolo assinado com a Câmara de Lisboa para reduzir o uso do transporte individual. A ciclovia integra a rede lisboeta de pistas cicláveis no corredor entre Monsanto, Telheiras e a zona oriental da cidade, num total de 12 quilómetros.

A ANA justifica um investimento tão avultado - são 229 mil euros por cada quilómetro - com o seu "interesse na implementação de medidas que permitam conferir maior eficiência à mobilidade no acesso às suas instalações, nomeadamente na existência de condições de acesso dedicado a peões e bicicletas ao Aeroporto de Lisboa". Questionada sobre o ajuste directo, a empresa afirma que se tratou de "uma adjudicação na sequência de uma consulta de cinco empresas especializadas em pavimentações, de modo a dar continuidade ao percurso da pista ciclável sem interrupções na sua extensão"

Uma busca no portal dos ajustes directos de televisores revela compras com valores muito díspares. Se o Inatel comprou 47 televisores para reequipar o centro de férias na Foz do Arelho que foi alvo de uma profunda remodelação no ano passado por 16 mil euros - uma média de 340 euros por aparelho -, e o Centro de Saúde açoriano de Santa Cruz da Graciosa adquiriu dois LCD por 490 euros cada, já o INEM gastou 8736 euros em quatro televisores para o CODU - Centro de Orientação de Doentes Urgentes.

As comparações podem estender-se a outras áreas, como a das viagens. É comum as autarquias inscreverem compras de viagens no portal com parcas informações: em muitas não há data do contrato e menos dados sobre o número de pessoas abrangidas pela viagem. Bom exemplo disso é o Infarmed, que tem, entre outras, deslocações a Praga (2335 euros) e Bruxelas (uma de 2462 euros e outra por 4267), à Tunísia (3569); à Nigéria (4484), e de oito dias a Cancun (30.283 euros), sem referência a número de viajantes ou data. O Estado-Maior do Exército pagou a viagem e pensão completa a 32 pessoas à República Dominicana por 28.480 euros.

Outro caso é o da Câmara de Oeiras, que pagou por uma deslocação de sete dias ao Brasil e "serviços associados" a quantia de 79.640 euros, em Abril de 2009. Em Setembro deste ano inscreveu a "aquisição de uma viagem à ilha da Madeira", por 27.390 euros.

Sem qualquer justificação escrita no respectivo contrato surge também a aquisição de relógios em ourivesarias, com dinheiros públicos. O município de Almada adquiriu na ourivesaria Gomes & Góis um relógio de 27.353,72 euros em Maio de 2010, e os SMAS de Loures gastaram 11.537 euros na aquisição de outro na ourivesaria Catita, em Agosto de 2009. E a câmara de Matosinhos adquiriu, em Julho de 2009, canetas e salvas em prata para a cerimónia de homenagem ao professor aposentado por 16.740 euros.

A Frente Tejo, sociedade que gere a requalificação e reabilitação da frente ribeirinha lisboeta, gastou, só em 2009, 772.470 euros em pareceres jurídicos, consultadoria e assessorias diversas. A maior fatia vai para a sociedade de advogados Sérvulo & Associados, à qual foram pagos 250.000 euros em assessoria jurídica durante esse ano. Desse total, 100.000 euros foram para representação da Frente Tejo no Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa por causa da providência cautelar interposta pelo Automóvel Clube de Portugal para suspender as obras na Baixa que se transformou em processo judicial.

A sociedade de advogados Abalada Matos, Lorena de Sèves e Cunhal Sendim ocupa o segundo lugar no montante de serviços jurídicos facturados, com um total de 210.000 euros. Esta firma prestou, conforme informação no portal, assessoria jurídica nos últimos dois anos a entidades como o Instituto da Água, o gabinete da ministra do Ambiente e diversos municípios. M.L., R.B.G.

Público via Cidadania LX

 

229 mil euros por Km de ciclovia?

Todo (excepto talvez o caso dos LCD´S do Inatel e Graciosa) este texto espelha bem a maneira com se gasta, mal, neste País.

Crise? Qual crise?



Publicado por JL às 20:52 de 26.10.10 | link do post | comentar |

8 comentários:
De Izanagi a 27 de Outubro de 2010 às 18:34
Este percurso de ciclovia foi pago pela ANA (EP), ainda que a CML posteriormente o venha a apresentar como obra sua. Mas já não foi gratuita para o cidadão, a pista que vai de Telheiras ao Campo Grande, e que provavelmente deve ter tido um custo idêntico por KM, cujo custo foi suportado pelos residentes através de taxas e impostos, e que passado pouco mais de 3 ou 4 meses, já tinha parte do piso invadido por erva, rebentando esta com o piso.
Tirei fotografias do facto e escrevi à CML juntando as mesmas, alertando-a para que contactasse a empresa que efectuou a obra, no sentido de a responsabilizar ainda no período de garantia da mesma. Até hoje.
Um exemplo flagrante da "proximidade com o cidadão" por parte do poder local.


De Câmara no sacanço aos Lisboetas !! a 27 de Outubro de 2010 às 16:46
JÁ ME ESTÃO A IR AO BOLSO
(-por Manuel Falcão, Metro, 26.10.2010)

Aqui há cerca de um ano os eleitores de Lisboa foram
a votos e António Costa foi o vencedor, por reduzida
margem, aliás. Fez uma campanha essencialmente
pró-governamental:
por exemplo defendia que a terceira ponte tivesse utilização automóvel, trazendo mais carros para a cidade;
defendia que o aeroporto saísse da Portela;
defendia o contrato do novo terminal de contentores de Alcântara.

Nenhuma destas medidas era favorável para a cidade, todas pioravam a qualidade de vida dos seus habitantes.

No geral, António Costa associou-se, na sua campanha, aos projectos de grandes obras públicas, e à transformação da cidade. O maior sinal desta transformação, nestes seus anos à frente da Câmara, está plantado no feio deserto em que o Terreiro do Paço foi transformado e
no funcionamento da EMEL (abusivo e lesivo dos habitantes da cidade) e ineficaz nos resultados alcançados – quem não se lembra da
promessa do fim do estacionamento em dupla fila, já lá vão quase três anos?
António Costa prometeu muito durante a sua campanha eleitoral, mas tem cumprido muito pouco do que tem prometido.

Curiosamente, uma coisa que ele não prometeu, mas que foi rápido a fazer, foi ir ainda mais ao bolso dos lisboetas.
Na semana passada os moradores de Lisboa começaram a receber nas facturas de gás a cobrança de uma taxa de ocupação de subsolo.
Quer dizer, a Câmara resolveu cobrar a utilização do subsolo pela empresa que faz a distribuição do gás. Os consumidores já pagam o serviço que recebem – mas agora têm também de pagar à Câmara para
poderem ter gás canalizado em casa.

Quem vive em Lisboa, quem aqui paga IRS, eventualmente IMI e IMT, quem paga as taxas de instalação e revisão do gás (com os abusos que se conhecem…), a taxa de Resíduos Sólidos, quem paga a própria factura do fornecimento, tem agora que pagar mais uma taxa.

Aqui está o que é a governação de António Costa – ir-nos ao bolso logo que arranja pretexto.
Assim se promove o repovoamento de Lisboa.


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 27 de Outubro de 2010 às 10:22
Portagens para as ciclovias, já!
Na óptica deste (des)governo devem ser imputados os custos ao utilizador, portanto exijo que se portagem desde já as ciclovias, tal como sabem fazer às autoestradas e SCUTs.
Até porque à sem sombra de dúvidas alternativas pedonais a esta e a outras das inúmeras ciclovias deste (pobre?) país, existem com certeza.

Não, não quero nem sequer pensar que esta súbita vocação ciclovicista que deu aos autarcas e empresas públicas nacionais, esconde outros interesses economicistas pessoais de ou lavagem de dinheiros de todos nós, em nome da natureza (?) e de quase nenhuns contribuintes utilizadores...


De Zé T. a 27 de Outubro de 2010 às 10:55
CICLOVIAS ...
pois... eu até sou a favor de andarmos menos de automóvel na cidade e de protegermos o ambiente... porém ...

1- As vias devem ser devidamente planeadas e serem largas para permitirem trânsito rodoviário (várias faixas), paragens e estacionamentos, passeios pedonais, árvores e ajardinamentos, ...

2- Adaptar vias existentes (geralmente saturadas ou quase) para ciclovias é mais caro, é mais problemático e requer muito bom senso (para decidir «Não», «Sim» e «Como?»)... para além de fanatismos ou populismos e de eventuais 'desvios/aproveitamentos' manhosos de dinheiros públicos.

3- Há ciclovias (bem e mal feitas, simples e caras) ... e há faixas (na rodovia ou no passeio) para uso Exclusivo ou PRIORITÁRIO de bicicletas/velocípedes (em vez de separadores usam linha contínua amarela, descontínua e linha zigzag) - esta/s opção/s, usada/s em vários países europeus, é muito mais barata, rápida de concretizar, reversível, flexível, melhor aproveitada/eficiente ... racional, equilibrada e ecológica.

As opções existem... os cidadãos exercem ou não a sua cidadania e controlo sobre a Res Pública (uma questão de valores e cultura) ... os autarcas e governantes ...são os que temos/escolhemos e aquilo que permitimos !


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 27 de Outubro de 2010 às 11:11
Certo. Tudo o que diz é certo.
Mas é tudo teoria. Na prática tudo o que diz é treta.
Triste? É. Mas não deixa de ser verdade.
Os nossos governantes são os que escolhemos?
A sério? Acha mesmo que os escolhemos?
Ou são apenas uns dos que, no meio de meia dúzia, nos deram hipóteses de escolher?
Acha mesmo que qualquer um de nós pode ser livremente uma hipótese a atingir um alto cargo na nação? Eu perguntei livremente. Sem fazer pecadilhos de compromissos de percurso? Sem se conspurcar? Sem ser o 'pior' dos 'piores'? Ou acha que tem alguma chance se tiver um pensamento político e um objectivo para o pais? Sem fazer os fretes e entrar nos jogos dos corredores para o poder?
Acha mesmo que isso da Res Publica funciona na prática? Em que mundo o amigo vive?


De Zé T. a 27 de Outubro de 2010 às 12:33
Dúvidas sobre Cidadania e Política

1- Acha mesmo que escolhemos (os nossos governantes)? Ou são apenas uns dos que, no meio de meia dúzia, nos deram hipóteses de escolher?

R:1- Sim, acho que fomos NÓS que os 'escolhemos'... mesmo que eu ou você não tenha votado ou tenha votado noutros candidatos/partidos, pois em política democrática (...) funciona a regra da maioria (mesmo que relativa), i.e. fomos NÓS (os que têm capacidade eleitoral) que os escolhemos (pela negativa ou pela afirmativa).

Numa análise simplista, concordo que as ''Hipóteses de Escolha são limitadas'' ou condicionadas, demasiado...
Mas a análise também tem de passar por: ''...que nos deram... '' . E aqui não temos desculpa. Tendo nós o estatuto (direito e deveres) de cidadãos eleitores e elegíveis não é aceitável esperar que os outros (partidos, candidatos, militantes, cidadãos, vizinhos, ...) nos venham dar ou fazer por nós próprios.
Se queremos algo diferente... temos de ser nós próprios a fazê-lo, a juntarmo-nos a outros, a apresentar candidaturas e propostas, a denunciar o que está mal, protestar e exigir mudanças !

2- Acha mesmo que qualquer um de nós pode ter livremente uma hipótese de atingir um alto cargo na nação? Sem fazer os fretes e entrar nos jogos dos corredores para o poder?

R:2- Qualquer um, realmente, Não.
Embora todos sejamos cidadãos, de facto somos diferentes e não temos iguais competências, recursos, possibilidade de acesso e vontades.
...''sem fazer os fretes ou entrar nos jogos de poder'' as probabilidades são próximas de Zero.
Mas acredito que bastantes podem chegar ao poder político mais elevado sem cometer crimes ... nem graves atropelos à Justiça.

3- Acha mesmo que isso da Res Publica funciona na prática? Em que mundo o amigo vive?

R:3- Sim, acho que a RES PÚBLICA existe mas funciona com deficiências ... há que melhorá-la, sempre... e também acho que muitos se aproveitam da ''coisa pública'', usando 'esquemas' e meios eticamente reprováveis, seja como forma de sobrevivência ou como forma de obter mais recursos (e poder), mesmo 'pisando'/'pilhando' o que é da comunidade (ou de outros mais fracos ou descuidados) mas não está suficientemente salvaguardado.

Eu / nós vivemos num MUNDO imperfeito e dinâmico, com 'estados, regiões e nichos' muito diversos, uns mais ricos/pobres do que outros e melhor ou pior geridos ... seja por 'ditaduras', 'democracias', 'ditamoles', 'oligarquias', 'monarquias', 'autarcias', ... ou por 'carteis', 'monopolistas', 'banqueiros', 'gangsters', 'feiticeiros', 'clérigos', ... e seja em paz ou em guerra, à força bruta, à força de votos de discursos ou de dinheiro.
Mas este é o Nosso Mundo e não temos outro... logo, se não gostamos de algo... há que tentar mudá-lo para melhor, enquanto cá estamos.


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 27 de Outubro de 2010 às 13:59
Continuo a percebê-lo, no sentido e conteúdo, dos seus comentários...
Mas entendo também que temos uma forma de olhar para a vida política nacional completamente diferente. Não é oposta. É simplesmente diferente.
O amigo mostra ser sério, competente, instruído e organizado no seu pensamento. E formatado. Pensava que não havia um mas? É este: formatado.
Deve ser funcionário público. Isto é um elogio. Estou a referir-me ao que para mim deviam ser as qualidades e características que um funcionário público devia ter e que hoje só excepcionalmente se encontra.
O amigo está formatado para servir os outros e acredita no sistema que serve.
Eu, ao contrário de si neste aspecto, não acredito no sistema.
E é esta pequena grande diferença que nos separa.
Claro que acredito que é possível mudar a sociedade para melhor.
Só que já não acredito que seja pela participação nas regras da própria sociedade. Nem acredito que ela se auto-regenere.
Portanto e se me permite vou continuar a publicar aqui os meus desencantos e alertas para o que e quem me parece mal.
E vou fazê-lo à minha maneira. Pelos excessos, pela contra-revolução no pensamento e pelo confronto ao pensamento instituído. Irei continuar a ler os seus óptimos e equilibrados comentários e e puder ir reflectindo no que eu disser pode ser que no futuro eu possa ser mais normal e o amigo menos formatado.
Pode ser que ganhemos ambos. Quem sabe?
Agora que esta sociedade dita democrática actual está uma trampa, lá isso está. E que é preciso mudar, fazermos alguma coisa... Lá isso é!


De Zé T. a 27 de Outubro de 2010 às 15:28
Ambos somos Zés... embora diferentes (e ainda bem!).

Também gosto dos seus comentários (embora nem sempre esteja de acordo com tudo) e concordo que é difícil aguentar viver/ ser português 'normal' neste país(viver decentemente sem ter nascido em berço d'ouro, sem ser 'apoiado' por 'padrinhos' ou por 'gangs/lóbis' de diversas tonalidades...).

Quanto ao 'formatado' ... em parte tem razão, mas se tal não fosse (desde criança que nos 'socializam'/ 'institucionalizam', conforme bem chamam os franceses aos educadores/ professores do JI/1ºciclo), o que sería ?
... alienado mental, marginal na sociedade ou revoltado contra a sociedade.... se não tivesse assumido responsabilidades familiares ...
olhe (para manter a sanidade)...
ou emigrava (voltando a repetir a sina de meus familiares e de milhões de lusos, ao longo de séculos)ou selecionava certos alvos...


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