Estamos em 2008, cimeira luso-venezuelana em Caracas. José Sócrates e Hugo Chavez assinam vários acordos de cooperação económica entre Portugal e Venezuela. Os dois saem jubilosos. Um dos compromissos prevê um projecto de 50 mil habitações sociais a construir pelo grupo Lena, e a construção de três fábricas. Outra promessa: a compra de milhões em computadores Magalhães fabricados pela JP Sá Couto. E por aí fora.
Em Março de 2009, o Expresso noticia que a Venezuela tinha decidido cancelar o projecto de construção de 50 mil casas prefabricadas. A crise financeira e a flutuação do preço do petróleo pareciam ser o motivo. Mário Lino, ministro das Obras Públicas, reconhece a lentidão do processo.
Em Maio de 2010, responsáveis do grupo Lena confirmam à Lusa que o "projecto" das 50 mil casas não "registara qualquer evolução", embora já existisse um contrato. Sócrates parte para a Venezuela para "desbloquear", no jargão do costume, os acordos por cumprir.
De 2008 a 2010 continua a "lentidão do processo". Novidades só para pior: as 50 mil casas iniciais passam para 12.500; os valores do investimento inicial começam a descer. Entretanto, outros compromissos também revelam ser fogo-de-vista: a compra do Magalhães nos valores acordados e o fornecimento de bens alimentares. Em Maio passado, sabe-se que a Venezuela devolveu 10 mil toneladas em soja sem pagar à empresa portuguesa Sovena.
Outubro de 2010. Chavez desembarca no Porto para nova cerimónia com Sócrates, a quem trata como amigo. Ministros, televisões, jornalistas, são testemunhas do acto. Chavez quer ajudar Portugal com "as duas mãos" neste momento difícil. Sócrates, de cabeça baixa, aceita tudo o que lhe oferecem. Além das casas que nunca cumpriu e do resto que devolveu sem pagar, Chavez quer também um navio de transporte construído nos Estaleiros de Viana de Castelo, que não serviu ao governo dos Açores. A 30 de Maio de 2010, com a sua habitual verborreia, elogiou "a aquisição de um ferry que [lhes] vai ser de grande utilidade". E aos empresários portugueses dizia: "Venham!"
Afinal, as casas pré-fabricadas já não serão 50 mil, como em 2008. Ficámos a saber que serão mais de 12 mil. Ficámos a saber que neste encontro Chavez reafirmou compromissos que já tinha assinado.
Melhor isto que nada, dirão alguns. Melhor esta diplomacia requentada do que diplomacia nenhuma. Mas não terá toda esta encenação ultrapassado já níveis razoáveis de decoro, político e jurídico? Pesquisar um pouco do que têm sido as relações entre Chavez e o Governo português é entrar num carrossel de promessas e intenções, acordos feitos e desfeitos, contratos que não se cumprem, muito fumo e circo. Quando a esmola é muita, o pobre desconfia. Agora pensem que a esmola vem de pobre para pobre. É motivo para desconfiar ao dobro.
Aquilo que sabemos sobre ditaduras populistas como a de Chavez nas relações internacionais é muito simples: não cumprem os contratos que assinam. Não são parceiros fiáveis. Servem-se das relações com outros Estados para alimentar a sua política de propaganda. Por isso é que as democracias têm interesse em fazer diplomacia com outras democracias. Sai-lhes menos caro e não precisam de anunciar não sei quantas vezes frustrantemente os mesmos acordos. Custa ver o Estado português nesta posição de vexame.
Público
BLOGS
Ass. Moradores Bª. Cruz Vermelha
Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos
MIC-Movimento de Intervenção e Cidadania
Um ecossistema político-empresarial
COMUNICAÇÃO SOCIAL
SERVIÇO PÚBLICO
Base - Contratos Públicos Online
Diário da República Electrónico
SERVIÇO CÍVICO