Estamos a pagar os lucros dos grandes grupos económicos

"Nesta voracidade estonteante de acontecimentos e factos convém distinguir a forma das coisas do seu conteúdo.

As causas da crise actual do sistema capitalista (iniciada em Agosto de 2007) radicam, por um lado, na contradição entre a sobreprodução e sobreacumulação de meios de produção. Por outro, na contracção dos mercados e níveis de consumo decorrentes das desvalorizações salariais e abismais assimetrias de rendimentos, agravadas pelas reduções das despesas públicas e pouca solvabilidade de inúmeros países.

Nesta crise há claramente quem seja mandante e há executantes. Mandantes são os grupos económicos e financeiros, as grandes multinacionais. E alguns dos seus instrumentos fundamentais…

Esta crise veio oferecer de mão beijada, aos detentores do capital e seus executantes, a tentação de pôr em prática uma pretensa "estratégia de choque" como saída da crise. O processo do Orçamento do Estado (OE) revela com evidência que este é o Orçamento dos banqueiros, e, ao mesmo tempo, um brutal instrumento de injustiça social e de afundamento do país.

Lê-se que 2.913.028.265 é o escandaloso número dos lucros obtidos pelas 23 maiores empresas portuguesas no primeiro semestre de 2010. Como alguém escreveu, a questão não é se o défice se cifra em 7,8 ou 15 por cento, mas se o percentual do aumento dos lucros das maiores empresas se mantém em 8,5 por cento. Ou, até, se continua a crescer. Somado, tudo se resume ao objectivo da manutenção da política que permite que, por cada dia que passa, o capital arrecade 16 milhões de euros de lucros.

Nesta proposta de OE mais de 90% da factura é dirigida aos trabalhadores. Eles são os alvos directos quer das medidas de aumento da receita (1700 milhões de euros), quer do corte na despesa (3420 milhões de euros).

Um Orçamento que destina mais mil milhões para instituições financeiras, 400 milhões dos quais para o BPN. Que anuncia um imposto sobre a banca. Um imposto que contribui com cerca de 100 milhões de euros. Ao mesmo tempo que se sabe que o Estado pagou, só até ao final do primeiro trimestre deste ano, 888 milhões de euros em encargos com as parcerias público-privadas. Ou que a verdadeira dimensão do "buraco" no BPN ronda já os 7000 milhões de euros!!! É este o valor da factura que, não tarda muito, vai ser cobrado aos portugueses que pagam impostos.

Neste cenário as consequências estão à vista. A economia portuguesa registou na última década um crescimento do PIB de apenas 6,47 por cento. Ou seja, um valor que ficou abaixo da inflação registada no mesmo período. E que representa um dos piores desempenhos na Europa e no mundo, apenas superada pelo Haiti (-2,39) e a Itália (2,43) por cento.

A realidade está a demonstrar, em cada dia que passa, que a solução passa inevitavelmente por uma ruptura com estas políticas. Não o fazer é adiar e agravar os problemas estruturais de Portugal. E ficar sujeito ao PEC IV, ao PEC V, e por aí fora

 

Público


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Publicado por Izanagi às 12:32 de 31.10.10 | link do post | comentar |

4 comentários:
De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 31 de Outubro de 2010 às 18:25
Ainda está por explicar pelo neoliberal José Sócrates e seus súbditos obedientes porque não se deixou o BPN abrir falência. A justificação dos «custos inimaginável para o país» é em conversa de putos o «porque sim». Não me esclarece nada.
Ainda não entendi porque injectou 400 milhões de euros nesse banco para se pôr à venda por 180 milhões… É que isso custa a cada contribuinte cerca de 66 euros e eu que pago os meus impostos, gostava de perceber o porquê da coisa.
A não ser que os «barões» liberais (PSD) e os «barões» neoliberais (PS) se consideram a eles próprios o país, e aí sim, eu entendo o porquê da coisa «tapada» com o meu dinheiro…


De DD a 31 de Outubro de 2010 às 15:17
É curioso que esse artigo foi editado no jornal de uma empresa do segundo maior grupo capitalista português, cujas cinco maiores empresas realizaram em 2009 um volume de negócios de 5.337.660.000 euros, não estando aqui incluído o Jornal Público. São pois o Modelo Continente-Hipermercados , a Optimus, a Worten e a Sonae Indústria.
Há ainda outras empresas do grupo que não estão contabilizadas aqui por não fazerem parte das mil maiores empresas do País, mas são muitas. Apenas a Petrogal ultrapassou aquele número com 6.546.702.000 e um lucro líquido de 181.960.000 euros.
O grupo do Belmiro de Azevedo apresentou um lucro líquido de apenas 5.797.000 de euros e, como tal, pagou de IRC 1.449.250, enquanto que a Petrogal pagou 45.490.000 de euros em, sede de IRC mais 3.330.800.000 de euros de imposto sobre os combustíveis.
O Sr. Belmiro pagou quase 3 mil vezes menos de imposto que a Petrogal, apesar de ter cerca de 25 mil trabalhadores altamente explorados ao seu serviço e aos quais paga em média cerca de 50 euros mais que o ordenado mínimo e está a substituir muitos por caixas completamente automáticas, estando na sua quase totalidade isentos de IRS.
Mas, o grupo do Belmiro deve ser mesmo maior que a Petrogal, pois o imobiliário dos hipermercados, supers e centros comerciais pertence a empresas com sede na Holanda e numa ilha das Caraíbas, para onde são canalizadas as rendas que, aparentemente, não pagam imposto em Portugal. Dessas rendas, Belmiro retira diretamente para o seu bolso alguns milhões de euros mensais, o que lhe permite manter um jornal com prejuízo para tentar abater o PS. E quer fazê-lo porque tem acordos especiais com o Coelho do PSD que está disponível para legislar no sentido de obter lucros ainda maiores, nomeadamente quanto à liberalização do despedimento que Belmiro necessita urgentemente para colocar mais caixas automáticas nas suas lojas.
Atualmente, Belmiro já é o capitalista mais rico do País


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 31 de Outubro de 2010 às 18:38
Quando a culpa não é dos 'chineses' é o «tio Belmiro».
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Quando a culpa não é dos 'chineses' é o «tio Belmiro». <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Vocemecê</A> tem mesmo azia, porque não chupa uma pastilha para isso... <BR>O seu Sócrates e o nosso Belmiro, ao princípio era só amores... Lembra-se quando da implosão das torres de Tróia? Tão lindinhos lado a lado a verem os espectáculo... Aí o camarada não dizia mal do homem da Sonae , pois não? <BR>Mas pelo menos a Sonae dá emprego a imensa gente e é uma empresa portuguesa. Se sabe algo que lhe parece ilegal, denuncie às Finanças ou à Judiciária. Senão o homem tem as empresas é para ganhar dinheiro. É do sector privado, está virado para o lucro. E o seu Zé é disso defensor, da iniciativa privada, não é? E o vossemecê também. Não é «comuna» pois não? <BR>Mas dá gosto ver um homem com vós, apaixonado, assim à antiga tão defensor da sua «dama». Mas também dá pena...


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 31 de Outubro de 2010 às 13:46
A REN pagou, em seis anos, 3 milhões a Penedos.
Da EDP, Paiva Nunes recebeu um milhão.
Vara ganhou no último ano 2 milhões.
A Caixa Geral de Aposentações paga a qualquer um deles generosas pensões vitalícias. Mas não é só a CGA que têm em comum, são todos arguidos no processo Face Oculta. Mas nada lhes impede proseguirem ad eternum as suas regalias económica e financeiras, são os direitos adquiridos e a demora da justiça com os julgamentos e posteriores recursos e mais recursos. A rica vida destes «barões» (ou republicanos?) segue «cantando e rindo» para eles e «chorando e pagando» para todos nós outros, os pelintras.
A crise realmente não é para todos.


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