Repartir a riqueza ou rapinar o Estado... em Portugal ou USA

O Estado distribuidor (ou não) da riqueza nacional

  

Obama tem já no fim deste ano um emblemático desafio à sua política, quando termina o prazo da legislação aprovada por W Bush, de cortes fiscais à oligarquia dourada da América, que lhes deu, nos últimos 10 anos, 4 milhões de milhões de dólares (milhões de milhões, não é engano). Valor que bem poderia ter criado o tão ansiado justo Serviço Nacional de Saúde e outros serviços sociais para os menos endinheirados.
George W. Bush prosseguiu e aprofundou o grande volte face da política norte-americana iniciada por Reagan: aumentar a riqueza dos muitíssimo ricos à custa, já se vê, dos outros, porque isto de riqueza não é algo que se faça a imprimir dólares.
  
A política, o poder de Estado é, para além da função administrativa, essencialmente um instrumento para repartir a riqueza criada no país e, com a globalização e o  poder financeiro apátrida, cada vez mais para a rapina em qualquer parte do mundo.
Uma das funções primordiais de um Estado de direito ao serviço das famílias (como gosta de sublinhar, Paulo Portas e os CDSzinhos, mas apenas a pensar nas Grandes famílias) é redistribuir a riqueza nacional criada em cada ano para que não fique desproporcionadamente nas mãos dos banqueiros e grandes empresários (e os seus altos funcionários) aqueles que têm, além da sua capacidade própria, os instrumentos que o Estado lhes oferece para criar riqueza.
Lá, na América, como cá, em Portugal, o busílis, a quinta essência dos Orçamentos de Estado e das políticas de Estado é para além de criar instrumentos para o aumento da riqueza nacional, repartir a riqueza criada.
Aqui uns ganham 500, 1500 ou 3000 euros e outros 30mil, 50mil ou 100 mil euros por mês ou até reformas (douradas) de idênticos valores.

Obama sofreu a grande derrota há muito anunciada pelas sondagens. Conservou no entanto a maioria no Senado.
Aconteceu a Obama o que aconteceu a muitos outros presidentes dos EUA, perder a maioria na Câmara dos Representantes nas eleições intercalares. Afinal Obama, nisto, não fez a diferença. Três razões explicam a derrota:
 
1) a grande crise global com a consequente travagem do desenvolvimento económico, o desemprego e menos dinheiro no bolso da classe média
 
2) o carácter conciliatório do cidadão Obama que pensa que as boas palavras, as palmadinhas nas costas dos republicanos ou as políticas "certas" podem convencer o adversário (na realidade o inimigo) a fazer o consenso. Leu pouco (ou mal) Marx e não entendeu bem o que é isso de interesses de classe. Parece não entender que o "certo" para a maioria dos americanos (que por sua vez nem sempre alcançam todas as consequências das políticas, vide o caso da saúde para os menos ricos) não é o "certo" para a oligarquia ou para aqueles da classe média (e media baixa e baixa) que, por cupidez e estupidez, adoptam para si as dores daquela;
 
3) a grande mobilização da direita e da extrema direita do Tea Party, apoiada por dinheiro a jorros de organizações camufladas de "independentes", de "defesa da moral" ou "da cultura"  alimentadas pelas grandes fortunas, para atingir um compensador retorno financeiro através do controlo do poder político.     
 
É frequente o presidente eleito ver o seu partido derrotado nas eleições intercalares para o Congresso. Comportamentos opostos podem dar o mesmo bom resultado (eleitoral), depende das circunstâncias. Truman, em 1946-47, atacou o adversário para defender as suas políticas e foi reeleito. Clinton conciliou e também foi eleito. Mas Clinton tinha consigo o trunfo de a América viver um bom momento e ter nas contas do Estado um glorioso e  histórico superavit, exactamente o oposto do que Obama tem.
As grandes expectativas criadas pela sua vitória, vitória de um humanista, de um homem com um passado de integridade e acção guiada por ideais de justiça social e racial não podiam ir demasiado longe quando contava no essencial com a máquina do Partido Democrático e um grande movimento da juventude, das minorias e dos intelectuais, mas... mas... um movimento e não uma organização. 
As grandes expectativas e boas intenções assentavam em bases que em parte não tinham estrutura, cimento e comando a não ser pelo Twiter ou o Facebook. Por isso quem percebia isto sabia que, por melhor que fosse Obama, não poderia deixar de estar aprisionado nas malhas de Washington que ele prometia desfazer. 
Veremos o que faz Obama mas provavelmente seguirá, para além do que a boa táctica exija, a conciliação para além do que a prudência impôe e que lhe está nos genes. E se a economia dos EUA não der uma grande volta antes das eleições de 2012, que dificilmente dará, tem assegurada a derrota que será uma grande derrota para a América progressista.

 

# posted by Raimundo Narciso, Puxa Palavra, 4.11.2010



Publicado por Xa2 às 00:07 de 08.11.10 | link do post | comentar |

2 comentários:
De . a 9 de Novembro de 2010 às 15:01
TOTALITARISMO DO MERCADO
(RN, OGrandeZoo, 7.11.2010)

O diário espanhol El País publica hoje uma entrevista que Juan José Millás fez a Felipe González. Entre as muitas perguntas, destaco duas, com as respectivas respostas:

-¿Estamos viviendo un totalitarismo del mercado?

-Exacto, no quería ser tan duro, pero así es.
En lugar de dictar tú la norma para que el mercado funcione, el mercado te impone la norma para sobrevivir (que, por cierto, es la ausencia de norma).
Y eso es lo peor, porque el mercado sin reglas te pide hoy lo contrario de lo que te va a pedir mañana.
O de lo que te pidieron ayer (ontem), que era que rescataras la mano invisible del mercado de la propia catástrofe que había generado.
Esto es, que hagas intervencionismo del más descarado a costa del contribuyente o del ahorrador (ou do aforrador), para rescatar al mercado.

Sitúate en la piel de Obama:
debo poner primero setecientos mil millones, después ochocientos ochenta mil, total, dos billones de dólares solo para salir de esa catástrofe provocada por el sistema financiero sin reglas. Muy bien.
Y una vez que pongo ese dinero, puro erario público, puro endeudamiento, (endividamento) y usted ya está rescatado, ahora me exige que reduzca dramáticamente el déficit y el endeudamiento al que he llegado para rescatarlo.
Me pide que me endeude (endivide) y después me exige que me desendeude o me penaliza.
Esto es lo incomprensible de la situación que estamos viviendo.
Si se tuviera poder y decisión para regular el funcionamiento del sistema financiero, no volvería a ocurrir lo que ha ocurrido y devolverían el dinero público que se les ha entregado.


-Está muy claro, se está pagando con nuestros impuestos una crisis que no hemos provocado nosotros.
¿No es como para tomar las armas?

-Sí, sí, produce una revuelta...
Estamos incubando la siguiente crisis financiera y la diferencia con esta será que los ciudadanos ya no tolerarán que haya centenares de miles de millones de dólares para rescatar a los banqueros de sus propios errores.
Probablemente, estamos ante la última oportunidad de una reforma seria del funcionamiento del sistema.


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 9 de Novembro de 2010 às 13:59
DIFERENÇA ENTRE POLÍTICO E LADRÃO

Esta pergunta foi feita no Brasil. Por cá nem sei se alguém acertava nesta tão singular diferença!!!

RESPOSTA BRILHANTE

Millôr Fernandes lançou um desafio através de uma pergunta:
- Qual a diferença entre Político e Ladrão?
Chamou muita atenção a resposta enviada por um leitor:
- Caro Millôr, após longa pesquisa cheguei a esta conclusão:
A diferença entre o político e o ladrão é que um eu escolho, o outro me escolhe.
Estou certo?
Eis a réplica do Millôr:
- Puxa, Viltrakis, você é um gênio... Foi o único que conseguiu achar uma diferença!


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