História da austeridade

No modelo agora dominante não há lugar para políticos centristas. Ao abraçarem-no, estão a cometer suicídio

 

Quem tomar por realidade o que lhe é servido como tal pela espuma diária dos discursos do Governo e de boa parte da Oposição, bem como das análises dos comentadores conservadores e de boa parte dos progressistas, tenderá a ter sobre a crise económica e financeira e sobre o modo como ela se repercute na sua vida as seguintes ideias: todos somos culpados da crise porque todos, cidadãos, empresas e Estado, vivemos acima das nossas posses e nos endividámos em excesso; as dívidas têm de ser pagas e o Estado deve dar o exemplo; como subir os impostos agravaria a crise, a única solução será cortar as despesas do Estado diminuindo os serviços públicos, despedindo funcionários, reduzindo os seus salários e eliminando prestações sociais; estamos num período de austeridade que chega a todos e para a enfrentar temos que aguentar o sabor amargo de uma festa em que nos arruinámos e agora acabou; as diferenças ideológicas já não contam, o que conta é o imperativo de salvação nacional, e os políticos e as políticas têm de se juntar num largo consenso, bem no centro do espetro político.

Esta «realidade» é tão evidente que constitui um novo senso comum. E, no entanto, ela só é real na medida em que encobre bem outra realidade de que o cidadão comum tem, quando muito, uma ideia difusa e que reprime para não ser chamado ignorante, pouco patriótico ou mesmo louco. Essa outra realidade diz-nos outra coisa. A crise foi provocada por um sistema financeiro empolado, desregulado, chocantemente lucrativo e tão poderoso que, no momento em que explodiu e provocou um imenso buraco financeiro na economia mundial, conseguiu convencer os Estados a salvá-lo

da bancarrota e a encher-lhe os cofres sem lhes pedir contas. Com isto, os Estados, já endividados, endividaram-se mais, tiveram de recorrer ao sistema financeiro que tinham acabado de resgatar e este, porque as regras de jogo não foram entretanto alteradas, decidiu que só emprestaria dinheiro nas condições que lhe garantissem lucros fabulosos até à próxima explosão.

A PREOCUPAÇÃO COM AS DÍVIDAS é

importante mas, se todos devem (famílias, empresas e Estado) e ninguém pode gastar, quem vai produzir, criar emprego e devolver a esperança às famílias? Neste cenário, o futuro inevitável é a recessão, o aumento do desemprego e a miséria de quase todos. A história dos anos de 1930 diz-nos que a única solução é o Estado investir, criar emprego, tributar os super— ricos, regular o sistema financeiro. E quem fala de Estado, fala de conjuntos de Estados, como a União Europeia. Só assim a austeridade será para todos e não apenas para as classes trabalhadoras e médias que mais dependem dos serviços do Estado.

Porque é que esta solução não parece hoje possível? Por uma decisão política dos que controlam o sistema financeiro e, indiretamente, dos Estados. Decisão que consiste em enfraquecer ainda mais o Estado,

liquidar o Estado de bem-estar, debilitar o movimento operário ao ponto de os trabalhadores terem de aceitar trabalho nas condições e com a remuneração unilateralmente impostas pelos patrões. Como o Estado tende a ser um empregador menos autónomo e como as prestações sociais são feitas através de serviços públicos, o ataque deve ser centrado na função pública e nos que mais dependem dos serviços públicos.

PARA OS QUE NESTE MOMENTO controlam o sistema financeiro é prioritário que os trabalhadores deixem de exigir uma parcela decente do rendimento nacional, e para isso é necessário eliminar todos os direitos que conquistaram depois da II Guerra Mundial. O objetivo é voltar à política de classe pura e dura, ou seja, ao século XIX.

Apolítica de classe conduz inevitavelmente à confrontação social e à violência. Como mostram bem as recentes eleições nos EUA, a crise económica, em vez de impelir as divergências ideológicas a dissolverem-se no centro político, acica-ta-as e empurra-as para os extremos. Os políticos centristas seriam prudentes se pensassem que na vigência do modelo que agora domina não há lugar para eles. Ao abraçarem-no, estão a cometer suicídio.

 

Visão


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Publicado por Izanagi às 11:39 de 22.11.10 | link do post | comentar |

7 comentários:
De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 22 de Novembro de 2010 às 14:14
Um estudo no país vizinho, conclui que para a Espanha ultrapassar a sua crise económica e baixar o desemprego, bastaria que cada espanhol consumir mais 150 euros em produtos Made in Spain "...
Não sei se por cá temos algum estudo semelhante, mas não fará mal à nossa economia avançar nesse sentido. Temos uma (ou duas?) televisões públicas portanto à que fazer uma campanha séria de sensibilização aos portugueses para no consumo preferirem o Made in Portugal" ou o 560... do código de barras. Ás vezes as soluções estão ao nosso alcance e não fazemos nada por isso. Não é preciso consumir mais. Basta consumir português em detrimento de outras origens. E se não resolver a totalidade da crise, pelo menos não nos fará mal nenhum... E quem sabe?


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 22 de Novembro de 2010 às 14:34
Consumir português não significa ir a uma loja tradicional em detrimento de uma grande superfície...
Muitas vezes o que parece ser nacional e bem português não o é. É portanto necessário estar atento.
Vou apenas referir aqui um exemplo daquilo que considero publicidade enganosa, mas que na verdade e legalmente não o é, porque nas particularidades exibidas nos anúncios o produto é português. Passo a referir: Há uma cadeia de supermercados que destaca na sua publicidade a alegria de preferir o que é nacional e apoiar os pequenos agricultores,e outros empresários portugueses das carnes e das pescas... E não deixa de ser verdade. Mas se olharmos para as 10 maiores empresas importadoras nacionais verificaremos que é essa mesma cadeia empresarial que aparece em primeiro lugar lado a lado com as empresas importadoras de combustíveis e de automóveis. E ela é a primeira do ramo alimentar na importação. Portanto nem tudo o que parece é. Para se saber consumir português é preciso estar atento.


De Comprar, sempre em português a 22 de Novembro de 2010 às 15:45
Ora, se a consciência do povo, como já por demasiadas vezes (dado a inépcia do resultado) em postes ou comentários por aqui, no LUMINÁRIA, certos postantes , se não cansam de referenciar, além de gastar (os que podem) à tripa forra comprassem produtos nacionais, sempre, os tempos de crise não nos seriam aflitivos. Mas quê, bem prega Frei Tomás...
O escriba deste comentário jura a pés separados que desde sempre assume esse comportamento, recusa estrangeirismos, consumistas...


De anti quintalzinho a 22 de Novembro de 2010 às 18:23
O que comentarista devia fazer é indicar quais são os produtos portugueses que consome: Será os eu carro português? O seu relógio? Tem um computador magalhães ? O seu telemóvel é português? As Lâmpadas lá de casa são portuguesas? O fogão de casa é português?
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O que comentarista devia fazer é indicar quais são os produtos portugueses que consome: Será os eu carro português? O seu relógio? Tem um computador magalhães ? O seu telemóvel é português? As Lâmpadas lá de casa são portuguesas? O fogão de casa é português? <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Bem,se</A> calhar nesta altura nem os tijolos de casa são portugueses. Num prédio que foi recentemente construído em frente do meu, quase todos os materiais vinham de Espanha. Consumir português?


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 23 de Novembro de 2010 às 11:07
Para mim, pior que ser "mau" é ser "estúpido".


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 22 de Novembro de 2010 às 13:57
Vou tentar ser simplista:
- O melhor que uma empresa tem, são em primeiro lugar, os seus clientes. E em segundo lugar os seus empregados.
(Parto do princípio que sem clientes não é preciso empregados...)
- Cliente é aquele que compra. (Não é aquele que passeia no nosso estabelecimento em vez de ir ao Zoo).
Comprar significa pagar o que se adquire.
Para pagar o que se adquire é preciso dinheiro.
Para se ter dinheiro é preciso trabalhar e receber o salário (estou a ser simplista...)
Portanto, para a economia de um país funcionar é preciso haver trabalho. E se tivermos um salário decente a crise está resolvida.
Querem complicar este raciocínio? Força!
Mas sem trabalho não se resolve a crise. Nem mesmo o FMI.
Ah, estava a referir-me à generalidade da população que compõem os países. Não estava a falar de meia centena de financeiros e outros parasitas do sistema económico. A esses o FMI resolve-lhes tudo.
Fui suficientemente sim´ples ou simplório?


De aberrações e imbecilidades a 22 de Novembro de 2010 às 12:17
Não se entende o "orgulho" (im)próprio do governo português que teima em dizer que não necessita recorrer à ajuda do instrumento financeiro europeu persistindo no "orgulhosamente sós" salazarento.

Como vão explicar que os juros da divida portuguesa tenha de ser suportado a uma taxa de de 7 ou mais por cento quando a Grécia e a Irlanda pagarão a 3?

Mais como é que se explica, caso Portugal venha a ter de contribuir, também , para a Irlanda como já o fez para a Grécia, receba juros a 3 e pague a 7, tal ajuda?
Será que um tal de "DD" nos poderá esclarecer estas atitudes, deste seu governo?


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