Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

1. Quem no interior do PS pensa que Sócrates deve ser substituído tem uma boa oportunidade no próximo Congresso. Mas, se antes não ocorrer um qualquer evento dramático e se Sócrates se recandidatar à liderança, ou eu me engano muito ou os que agora, deslizando pelos corredores do poder, esgotam a sua margem de coragem política, sussurrando a hipótese de uma substituição de Sócrates, vão ficar ronronando silêncios, quando seria exigível que falassem.

Mas se algum inesperado vulto se erguer numa súbita coragem, para dizer estou aqui, ainda se terá que perguntar se partilha a adesão ao essencial do caminho percorrido, apenas exacerbando detalhes num arremedo de demarcação, ou se, realmente, se afirma pela convicção de ser necessário enveredar por um outro caminho, qualitativamente distinto do que tem vindo a ser trilhado.

Se estivermos perante uma demarcação substancial, ficará aberta a porta para um Congresso útil que, valendo naturalmente pelas suas opções mais estruturantes , valeria também, desde logo, pelo tipo de debate em que necessariamente se traduziria. Mas, neste ponto, há que sublinhar que de modo nenhum, se poderá aferir a profundidade e a autenticidade de qualquer alternativa pelo grau de veemência do discurso. Veemência que facilmente o poderá aprisionar num tom insultuoso, em detalhes conjunturais ou em trivialidades. Mas deve também estar-se atento ao risco de o saudável vigor crítico praticado no interior do PS se alimentar das agendas políticas da propaganda dos nossos adversários.

A consistência e a radicalidade das demarcações de fundo são factores qualificantes do debate e indícios de uma utilidade objectiva para o Partido dos protagonismos em que se traduza. Os insultos, os processos de intenções, as vozearias, que se encerram em questões menores, são apenas indício de primarismo político, facilmente apropriáveis pelos quadrantes políticos adversários, como armas ao seu serviço. Verdadeiramente, quem seguir por esses caminhos sôfregos e crispados, quer no assalto aos virtuais castelos do poder quer na sua defesa, não será, por certo, um elemento da seiva da vida política, podendo, pelo contrário, contribuir para o seu descrédito. E nunca poderá ser encarado como um protagonista de uma acção cívica, mas pode ser olhado com um simples galaró de combate, absorvido pela fúria estéril de um rixa que só pode contribuir para tornar a vida política mais rasteira e abafada.

Só uma radicalidade estratégica, resolutamente ancorada num horizonte socialista, poderá dar sentido a qualquer alternativa, rompendo a estéril disputa gerada por uma espécie de concorrência entre perfis individuais ou entre tribos. Dito isto, não se deve cair no erro de julgar que qualquer proposta de uma orientação política alternativa se pode limitar a este ponto de partida. Mas, sem este ponto de partida, nenhuma verdadeira alternativa se pode construir.

2. Quem do exterior do PS pensar que, sem recurso a novas eleições, Sócrates deve ser substituído como primeiro-ministro ou que deve ser substituído no PS por um novo líder num próximo Congresso, pode merecer discordância, mas não passa a fronteira da irracionalidade ou da hipocrisia, se o fizer como simples cidadão que exprime uma opinião.

Mas, se disser o mesmo, na qualidade de um actor político que quer contribuir para ver concretizado o que diz, merece uma observação. Pode ser encarado de duas maneiras. Numa primeira hipótese, essa posição é um simples fingimento. Fingimento de quem, achando embora que Sócrates deve continuar, por julgar que essa continuidade beneficia os seus adversários, diz o contrário, por pensar que assim reforça a hipótese de que isso não aconteça. Quem assim proceda, podendo ser qualificado como cínico, não deve ser considerado como politicamente estúpido. A sua estratégia pode ser eticamente repugnante, mas tem uma lógica que a torna compreensível.

Numa segunda hipótese, esse actor político diz o que pensa e quer. Ou seja, ele quer ver Sócrates pelas costas, mesmo que o Governo continue a ser do PS . Nesse caso, a sua tomada de posição pública é uma atitude grosseiramente estúpida de um ponto de vista político.

Realmente, quanto mais relevantes e numerosas forem as vozes exteriores ao PS, apontando nesse sentido, menos provável será que o PS as acolha positivamente. De facto, devia fazer parte da informação mínima de qualquer actor político português, a fortíssima improbabilidade de o PS alguma vez consentir que lhe ditassem do seu exterior quem deve ser o seu secretário-geral, ou quem deve ser indicado para liderar um governo do PS. E quanto mais os seus adversários, ou seja quem for do seu exterior, falarem nisso, mais se acentuará essa improbabilidade, bem como o repúdio por essa via no interior do Partido. De facto, cada voz pública nesse sentido reforça a irredutibilidade da sua recusa.

Por isso, pode afirmar-se, com segurança, que os actores políticos exteriores ao PS, que publicamente insistam na ideia de que o Partido deve fazer com que Sócrates saia da chefia do Governo e da sua liderança, ou são cínicos ou são estúpidos.

Rui Namorado [O Grande Zoo]



Publicado por JL às 00:08 | link do post | comentar

3 comentários:
De DD a 30 de Novembro de 2010 às 18:55
É evidente que no meio de uma tempestade mundial, a capacidade de resistência de Sócrates e a sua determinação são essenciais a Portugal.
Pelos desencontros de ideias de Passos Coelho vejo nele um segundo Durão Barroso que a ir para o poder fugirá passado pouco tempo. Talvez para ser o secretário-geral da Nato, pois aí querem pessoas insignificantes e obedientes a umas tantas potências, mas têm de falar inglês.
Não é por acaso que o Coelho diz que quer governar com o FMI. Ele pretende acabar com o Estado Social que o País tem e nada melhor que utilizar a desculpa de ser o FMI a obrigar a desmantelar o SNS, reduzir as reformas e acabar com a escola pública generalizada.

Sócrates foi à Líbia quando Sarkozy, Merkel e muitos outros tiveram medo e não participaram na cimeia UE-África.


De Veneno, Poder e Saque a 3 de Dezembro de 2010 às 16:26
A despedida envenenada do deputado Candal

Quando o deputado Candal, no seu adeus ao parlamento, disse hoje:
«Não tenho dúvidas em afirmar, neste momento, que o ponto mais sólido que nós temos à nossa disposição é a resistência do primeiro-ministro que está em funções»,
obviamente que quis causar impacto através do sublinhar de uma evidência, no sentido de demonstrar porque é que o PS ainda é governo.
Mas se falou verdade, Candal expôs, transformando a sua despedida num adeus envenenado, a essência grotesca do absurdo acantonado no poder,
a de um governo que está entregue às malvas, esperando pela infusão que facilite limpezas íntimas, simplesmente preso do desespero teimoso e idólatra de um alçado social e politicamente que pagou com esquizofrenia optimista a ascensão de um apagado e vil talento.
E, por linhas tortas, Candal revelou como se deita abaixo este governo:
abanem Sócrates o suficiente, o resto cai logo que arranquem a raiz solitária, porque PS propriamente dito, além do seu arrivista-em-chefe, deixou de existir por mor de esmagamento pelo umbigo deste.

-por João Tunes, http://agualisa6.blogs.sapo.pt/ 26.11.2010

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Convém ter em conta as diferenças

Em termos de ORÇAMENTO 2011, as RESPONSABILIDADES pelo SAQUE não serão iguais quanto ao PS e ao PSD.

Um vai atacar-nos o bolso esquerdo,
outro trata-nos do bolso direito.



De DD a 3 de Dezembro de 2010 às 22:44
Ainda não percebi onde iria o PCP e o BE buscar o dinheiro para as despesas do Estado e do País.
Certamento aos lucros da banca que são 4,1 milhões de euros por dia, o que dá uns 40 cêntimos por cada português e corresponde a quase 1.500 milhões de euros por ano ou 0,88% do PIB ou ca. de 1,7% das despesas orçamentais.
Os meus 40 cêntimos por dia ou 146 euros por ano dão mesmo para muita coisa e nos lucros da banca estão incluídos os da CGD, o maior banco português, que revertem para o acionista Estado.
O Jerónimo e o Louçã devem achar que deveríamos ter uma banca mais parecida com a da Irlanda, sem saberem que passar de lucro para prejuízo é sempre um pequeno passo, basta reduzir os lucros a zero e o capital acionista desce dos 60 cêntimos por ação do BCP para 2 ou 3 cêntimos com impossibilidade de colocar obrigações no mercado e arranjar refinaciamentos do BCE, além de que poderia haver a tendência de os depositantes levantarem as suas poupanças com medo de ficarem sem elas e irem a Badajoz depositá-las.
Sim, com um cartão Visa ou Master levanta-se aqui dinheiro de qualquer banco europeu e pela Netbanco nem é preciso ir a Badajoz.
As ações dos bancos estão muito baixas, o que significa que o dividendo representa muito pouco relativamente ao montante global das ações de todos os bancos portugueses. Se o BCP pagasse 6 cêntimos por ação, elas não estariam cotadas a 60 cêntimos, mas a 1,5 a 2 euros.


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