Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

Camorra global ,  por Daniel Oliveira (www.expresso.pt) , 2.12.2010

 [ INSIDE  JOB - Official trailer, http://www.youtube.com/watch?v=F768DJ8Lxow&feature=player_embedded ]

    

Há dois anos, quando rebentou a crise do subprime, sucederam-se as promessas de regulação dos mercados financeiros. Os bancos, as seguradoras e os especuladores  (i.e., ''os  mercados'') iam ser postos na ordem.

     A falência da Lehman Brothers, da Enron e de bancos por essa Europa fora; o colapso da Islândia, depois de um processo de privatização da banca; a quase falência da AIG, um gigante que segurava o lixo que por aí se vendia; os erros grosseiros das agências de rating, que vendiam com AAA o que não valia um cêntimo, revelavam o bordel em que se transformara Wall Street.

     Os colossos financeiros seriam salvos com o dinheiro dos contribuintes mas nada ficaria na mesma. Os culpados seriam punidos. As leis seriam alteradas. O neoliberalismo falhara e seria enterrado sem direito a exéquias.

 

 Não foi preciso esperar um ano para que tudo fosse esquecido. De repente o problema era o modelo social que sugava os investidores para distribuir dinheiro por pobres e preguiçosos.

     Veio mais uma leva de 'reformas' para catar as migalhas que ainda sobravam para os que não têm que chegue para jogar na roleta das finanças. Alguém tinha de pagar a fatura do resgate da banca. E para que tal fosse possível, o jornalistas e académicos fizeram o seu trabalho: reconverteu-se uma crise do modelo económico que nos oferece ciclos cada vez mais curtos de normalidade numa crise do modelo social que protegeu durante meio século os menos afortunados.

     E assim se canalizaram os recursos públicos e os custos do trabalho para a reconstrução dos arruinados grupos financeiros.

Nenhuma lei foi alterada, nenhuma medida política relevante foi tomada, ninguém foi julgado e condenado, os reguladores que fecharam os olhos a tudo foram reconduzidos nos seus lugares, os jogadores foram salvos e voltaram a atacar, desta vez brincando às dívidas soberanas dos países, e tudo voltou à anormalidade de antes. A bomba-relógio começou de novo a sua contagem decrescente até à próxima crise.

 

     Como conseguiram estes eternos sobreviventes transformar a sua irresponsabilidade em novas oportunidades de negócio?

     No intervalo da avalancha de economistas, especialistas e académicos avençados, que repetem um guião que já se transformou em conversa de autocarro, vale a pena ver "Inside Job", um documentário que nos recorda uma história demasiado recente. Ele revela-nos, com a frieza indesmentível dos factos, um mundo onde tudo se compra: os políticos que recebem donativos, os burocratas que arranjam lugares nas instituições financeiras, os economistas que vivem de pareceres bem pagos.

     Um mundo onde a Sicília foi finalmente globalizada. Ao contrário da Camorra (máfia siciliana), não manda eliminar os delatores. Não precisa. Ninguém os consegue ouvir.

 



Publicado por Xa2 às 00:07 | link do post | comentar

2 comentários:
De Dominó dos especuladores +Merkle a 3 de Dezembro de 2010 às 14:22
A seguir à Espanha, Itália e Bélgica juntam-se agora ao grupo de risco

30 Novembro 2010 Edgar Caetano -edgarcaetano@negocios.pt

O resgate à Irlanda não acalma os mercados. Contágio alastra na Zona Euro.

O auxílio financeiro à Irlanda foi incapaz de travar a turbulência nos mercados. Com dois países já resgatados e uma expectativa consensual de que Portugal será o próximo, os holofotes na Zona Euro chegaram a Espanha, Itália e Bélgica.

No primeiro dia depois da formalização do resgate à Irlanda, os preços das obrigações dos periféricos caíram, as acções afundaram e o euro acentuou a rota descendente, reflectindo as dúvidas persistentes quanto ao futuro da união.

"Tendo em conta o contágio que já atingiu outros países, como Portugal e Espanha, é muito improvável que se assista a uma recuperação significativa", comenta Gillian Edgeworth, uma economista do UniCredit.
"Mantém-se a expectativa de que Portugal, no mínimo, terá que ser intervencionado", explica ao Negócios a economista, que prevê "um início de 2011 tão agitado quanto esta recta final de 2010".


De os POBRES que Paguem a CRISE !! a 3 de Dezembro de 2010 às 16:35
Os pobres que paguem a crise

-por Daniel Oliveira, Arrastão.org

O governo recusou na intenção de actualizar o salário mínimo para 500 euros.
Parece que as empresas não estão capazes de sustentar tamanha loucura. Iriam, dizem muitos, à falência.
Uma má notícia:
quem não consegue pagar 500 euros por mês a um trabalhador já faliu. Apenas ninguém o avisou.

Porque se a nossa única salvação para conseguir crescer e exportar é dar competitividade às nossas empresas não há como o fazer com trabalhadores semi-escravos. Para isso já existe a China, que consegue pagar ainda menos.
Empresas que fecham se pagarem 500 euros (que pura e simplesmente não dá para viver) a um trabalhador não têm futuro. Ponto final.

Este recuo é especialmente grave quando se sabe que somos o país mais desigual da Europa, com salários baixos demasiado baixos e salários altos demasiado altos.
Segundo um estudo publicado ontem, os 20% mais ricos ganham 6,1 vezes mais do que os 20% mais pobres.
Cerca de um milhão de trabalhadores (com emprego) vivem próximos do limiar de pobreza.
Esta desigualdade é mais do que um problema social: é um problema económico.
Como podemos nós acrescentar algum valor ao que produzimos se quem produz vive no limiar da sobrevivência?

No mesmo momento em que se recua neste compromisso de dignidade mínima, o Parlamento chumbou uma proposta do PCP que obrigaria os accionistas da PT, dentro dos limites da lei, a pagar, como devem, impostos sobre os dividendos que recebem.
Ou seja, a contribuir para o esforço nacional de endireitar as contas públicas.

Conclusão:

quem recebe o salário mínimo e vive próximo da miséria apesar de ter emprego tem de compreender que estamos em crise e aceitar mais este sacrifício.

Quem recebe os lucros de um negócio – onde, por acaso, o Estado desempenhou um papel central – não pode ser incomodado com obrigações para com a comunidade.


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