Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

Não foi o despesismo do Estado que gerou esta crise

Ao contrário da retórica dos economistas que nos endoutrinam depois das 8 da noite, é preciso insistir num ponto essencial: a chamada “crise da dívida soberana” não foi provocada pelo despesismo público. O caso da Grécia é uma excepção que, por si só, não produziria esta crise não fora a existência de uma outra dívida na periferia da UE que esses economistas colocam em segundo plano. De facto, foi a dívida privada que originou esta crise europeia (ver este artigo de Paul De Grauwe), e é a arquitectura institucional da Zona Euro que a agrava.

Claro que os défices públicos também aumentaram na sequência da Grande Recessão, mas esse aumento deveu-se a causas bem conhecidas que não podem ser rotuladas de despesismo: a recessão que fez disparar os estabilizadores automáticos (mais despesa com subsídios sociais e menos receitas fiscais), o gasto público de estímulo à economia nos termos acordados com a Comissão Europeia e (no caso de Portugal, Espanha, e sobretudo Irlanda) o resgate de bancos insolventes.
Tivesse havido continuidade na política expansionista iniciada pela UE em 2008 (e, no mínimo, tivesse regulamentado a especulação “a descoberto”), hoje estaria em condições de solucionar os casos da Grécia e da Irlanda com custos sociais suportáveis.

Mas a doutrina monetarista atacou em força em 2009 e levou os decisores políticos, incluindo socialistas e sociais-democratas, a aceitar que com esses défices expansionistas a Europa corria um sério risco de hiperinflação.
Com uma capacidade produtiva longe do pleno emprego, o receio era absurdo mas a verdade é que, aos primeiros sinais de retoma do crescimento do PIB, os media deram o palco aos economistas que clamavam pelo fim das medidas de estímulo e pela urgência de medidas de austeridade.
Uma doutrina com pressupostos errados (agentes económicos dotados de informação perfeita e racionalidade calculatória infalível, capaz de antecipar e neutralizar os efeitos das políticas económicas num horizonte de muitos anos) só podia levar a decisões erradas.
A recessão não só nunca terminou (para mim, os milhões de cidadãos entretanto lançados no desemprego contam para a definição de recessão) como está a agravar-se com a generalização da austeridade. Discretamente, o FMI já o assume (ver aqui, antepenúltimo parágrafo).

A dívida privada que causou esta crise é a consequência da grande disparidade de nível de desenvolvimento que existe entre o centro da UE (liderado pela Alemanha) e a sua periferia (Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda, Países Bálticos e Hungria).
Com taxas de juro baixas, e com toda a força permitida ao marketing bancário, foi fácil aplicar os excedentes financeiros do “centro” em endividamento do sector privado na “periferia”.  A incapacidade para competir num mercado aberto com as importações dos países com salários de subsistência afectou profundamente a indústria da “periferia” e encaminhou os empresários mais ricos para os lucrativos negócios abrigados dessa concorrência (actividade financeira, telecomunicações, grande distribuição, centros comerciais, imobiliário, energia, etc.).

Assim, o endividamento da classe média da “periferia” não foi mais do que uma ilusão de melhoria do nível de vida que foi vendida pela finança europeia com a cumplicidade dos seus governos, do Banco Central Europeu e das suas antenas nacionais. Estas autoridades dispunham de meios para travar este processo, mas não quiseram prejudicar o negócio dos seus amigos da finança. Apesar dos enormes lucros que esta distribuiu aos accionistas, e dos escandalosos bónus que pagou a administradores e directores, os governos, a Comissão Europeia e o BCE continuam a adiar a inevitável reestruturação das dívidas (privadas e públicas) da Grécia e da Irlanda com penalização dos credores. Como também adiam uma inevitável escolha política:
(1) avançar para uma governação federal do euro, o que obrigaria a construir uma federação política (“não há impostos sem eleições”) ou … (
 2) reconfigurar a Zona Euro tornando-a mais reduzida.

Indiferentes à retórica de negação dos dirigentes políticos, os especuladores acabarão por provocar uma qualquer decisão, não necessariamente a melhor como se imagina. O que é imoral é que as classes mais desfavorecidas, e alguns segmentos da classe média, estão a pagar por uma crise que não produziram, nem sequer como titulares de dívidas.


Publicado por Xa2 às 00:12 | link do post | comentar

4 comentários:
De UE: 23em27 são governos de Direita... a 9 de Dezembro de 2010 às 12:42
Palavras que fazem meditar e...

... e explicam muita coisa.
23 lideranças da direita, em 27 Estados da União Europeia, dá para perceber melhor a política de desastre, liderada pela Alemanha, face à maior crise internacional desde 1929.

A resposta destes governos da direita, às aventuras financeiras da "alavancagem", à "economia de casino", essa em que Pedro Passos Coelho defendia na privatização da CGD, ameaça destruir o euro e a própria UE.

Mário Soares no Diário de Notícias:

« ... A esmagadora maioria das lideranças europeias pertence, neste momento de crise, à direita ultraconservadora (23 em 27 Estados membros), pouco tendo a ver, no plano político-ideológico, com as velhas democracias cristãs do centro, que, com os socialistas, contribuíram, nos últimos cinquenta anos, para consolidar o projecto europeu.

Pelo contrário, as lideranças actuais parecem não sentir a importância da Europa como projecto político de paz, de democracia pluralista, de bem-estar para os europeus e, sobretudo, de unidade e solidariedade entre os Estados membros, com um contrato social que constitui uma das principais identidades europeias.

E, por outro lado, parecem pensar, de novo, em termos de um certo nacionalismo serôdio - cada um por si e os outros que se arranjem - que, no século passado, não o esqueçamos, conduziu a Europa a duas hecatombes mundiais.
...»

Etiquetas: crise, Euro, Mário Soares
# posted by Raimundo Narciso, PuxaPalavra


De Tempo de políticas e conomias diferentes a 9 de Dezembro de 2010 às 14:33
Tempo de heterodoxias

A economia da Islândia do incumprimento da dívida, dos controlos de capitais e da desvalorização cambial está a recuperar.
Só a heterodoxia económica funciona.
Não admira por isso que o historiador económico irlandês Kevin O'Rourke, co-autor de Power and Plenty, tenha escrito uma Carta de Dublin, terminando a defender que a Islândia, ao optar democraticamente pelo incumprimento da dívida, “é um modelo óbvio para nós”.

O’Rourke sublinha a maciça e assimétrica transferência de custos sociais da crise para os cidadãos irlandeses.
Tal transferência, engendrada pela Comissão e pelo BCE, com a cumplicidade de um governo que viu aprovado mais um orçamento de desastre, foi desenhada para tentar salvar os credores,
o capital financeiro dos países centrais, e assegura mais recessão e desemprego na Irlanda e nas periferias.
Esta é a face da União Europeia hoje existente, um projecto bloqueado e, na ausência de alterações radicais na sua configuração, sem qualquer futuro.
Meegan Grene, analista da Irlanda da Economist Inteligence Unit, defende, em artigo no Financial Times, que a Irlanda saia do euro. Costas Lapavitsas, Eugénia Pires e Nuno Teles já tinham apontado, em artigo no Público de 28 de Março, esse cenário como a segunda alternativa das periferias
perante uma União que seria politicamente incapaz de criar um verdadeiro governo económico solidário do euro:
“A segunda alternativa para os países periféricos é o abandono da zona euro, que resultaria na desvalorização das moedas nacionais,
reestruturação da dívida denominada em moeda estrangeira e
imposição de controlos de capitais.

Para proteger a economia, a banca teria de ser nacionalizada e o controlo público alargado aos sectores estratégicos.
Neste contexto, uma política industrial, promotora do aumento da produtividade, seria crucial.”

Postado por João Rodrigues, Ladrões de Bicicletas., 8.12.2010


De ... a 9 de Dezembro de 2010 às 14:38
José Luiz Sarmento disse...

O que Portugal tem é uma elite quasi-feudal, uma oligarquia financeira como tinha a Islândia.

Parte da oligarquia islandesa está agora na pildra, e a outra parte está notificada de que tem que pagar a crise, já que a provocou.

A Islândia está a recuperar a uma velocidade estonteante.

Em Portugal e na Irlanda ninguém ousa beliscar as respectivas oligarquias. A consequência é que nos vamos afundar cada vez mais na merda.
................
arrepanhem-se os milhares de milhões que muitos políticos e empresários fraudulentos puseram em paraísos fiscais (ou em nome de parentes) e pagam-se as dívidas
...


De DD a 11 de Dezembro de 2010 às 23:08
A grande culpada foi a bruxa Merkel que primeiro lançou o grito de combate à recessão com mais despesas e subitamente inverteu a sua política para a contenção da despesa pública, pois viu que podia aproveitar a crise para reduzir as prestações sociais e iniciar a demolição do Estado Social.
Depois veio gritar que os credores seriam sempre os responsáveis pelo incumprimento por parte dos devedores quando há um fundo europeu para o incumprimento que atuou na Grécia e Islândia, sendo óbvio que nunca daria uma garantia total. Quem compra títulos de dívida ou obrigações de qualquer natureza assume algumas responsabilidades porque, a não ser assim, apareceriam aí títulos em excesso e até falsos.

Em Portugal, a banca desmotivou a poupança ao pagar juros irrisórios de 1% ou menos e o Banco Santander foi ao ponto de aceitar depósitos a cinco anos com pagamentos de juros crescentes desde 1,2% no primeiro ano até 5% no último, mas só para quem comprar 10 mil euros de ações do banco, o que suponho ser proibido pelas leis que regulam a banca em Portugal.


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