Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

A situação de crise que vamos vivendo teve a virtude de ter trazido à ribalta do nosso vocabulário corrente um termo verbal da maior importância e muito pouco usual anteriormente.

As exigências colocadas pelo PSD para viabilizar o Orçamento de Estado de 2011 e a que o Ministro das Finanças se viu obrigado a arranjar maneira de ACOMODAR, tiveram, pelo menos, a virtude de trazer um enriquecimento verbal da língua portuguesa, de uso diário.

Acomodar, segundo o dicionário universal da língua portuguesa -Porto Editora significa:

  • Enquanto verbo transitivo; tornar cómodo; dispor ordenadamente; arrumar; acondicionar; adaptar; hospedar; alijar; harmonizar questão; arranjar emprego a alguém.
  • Enquanto verbo reflexivo; adaptar-se; conformar-se; sossegar.

Que outro termo mais adequado poderiam ter arranjado? Nenhum, está claro.

Acomodar, como se pode ver, tem um enorme alcance, grande abrangência e muita flexibilidade. Tudo o que os políticos dos nossos dias mais necessitam.

Foi tudo isso que o governo de José Sócrates, tendo como homem do leme da navegação à vista o Ministro Teixeira, com mais ou menos dificuldades, conseguiu acomodar a maioria das exigências colocadas pelos Sociais Democratas, tendo como “moeda” de troca deixar passar o Orçamento proposto pelo PS com o qual nos irá des)governar no próximo ano, além de permitir o fecho das contas do descalabro governativo de 2010 onde o fundo de pensões da PT desapareceu antes de ter entrado. Coisitas de BPN`s e SLN,s e outras.

Do mesmo modo, e por igual via, também, Passos de Coelho conseguiu acomodar os seus pares às ziguezagueantes propostas apresentadas pelo governo socialista. É que, tanto nos dias presentes como nos de futuro que se avizinham, a situação não estará para brincadeira e as alternativas no horizonte são nenhumas.

Acomodaram-se, com a iniciativa de última hora da bancada socialista onde os deputados se acotovelam uns aos outros ou mesmo o próprio líder, as exigências colocadas pela CGD onde muitos dos excelsos quadros saídos de cargos governativos hibernam esperando novos dias soalheiros.

Acomodaram-se os Hospitais e outras empresas públicas, onde se não consegue vislumbrar quaisquer vestígios de redução de custos e gastos por vezes supérfluos de mordomias desnecessárias onde até se chegam a fazer contratos de modo a permitirem que sejam recebidos dois ordenados.

Acomodaram-se assessores nas autarquias depois de terem recebido, junto do fundo de desemprego, a totalidade dos subsídios a que, hipoteticamente, teriam direito de modo a criarem os seus próprios projectos empresariais.

Acomodaram-se muitos secretários de Estado e outros governantes na aprovação de projectos e compras públicas, junto de empreiteiros e fornecedores.

Acomoda-se a população com os aumentos de impostas e taxas mais diversas aplicadas nas facturas da água, do gás e electricidade como ainda da redução dos rendimentos ou com a perda dos salários fazendo exercício cada vez maior na gestão caseira. Quem já não tenha dinheiro para frequentar o ginásio entretenha-se a acomodar o aperto do cinto que eu sinto que melhores dias demorarão a chegar, pelo menos para a maioria da população portuguesa.

As crises, como sempre, são más para a maioria, mas sempre houve quem com elas enriquece-se.

Não se incomodem, acomodem-se. Vivemos tempos tais que até anda muita gente a tentar acomodar-se em torno de um cadáver chamado Sá Carneiro, sem respeito pelo rigor e coerência do que foi a pessoa no seu percursos político, quer na ala liberal do velho regime como no pouco tempo de democracia em que viveu.

Tentam ressuscitar o homen, ainda que saibam só ser possível metaforicamente, e com ele a velha AD realizada em 1979. Só que os tempos como as pessoas são muito diferentes, sobretudo nos seus acomodares...



Publicado por Zé Pessoa às 00:21 | link do post | comentar

3 comentários:
De Desacomodado a 9 de Dezembro de 2010 às 11:15
Parabéns pelo texto / crítica... incómoda !


De "Um País sem emenda" a 9 de Dezembro de 2010 às 15:34
É um artigo de alguem conotado com a direita mas não deixa de ser pertinente, profundamente...

Um país sem emenda
por CARLOS ABREU AMORIM, DN
A decadência de um regime transparece quando este já não consegue encontrar, dentro da sua própria lógica, as formas de se reinventar e de superar as suas incompletudes mais visíveis. Portugal está assim.
O plano de austeridade foi anunciado em finais de Setembro - daí até à votação do OE sobreveio uma catadupa de pressões, de esforços variados e muito enviesados de escapar às restrições remuneratórias impostas pela imperiosa necessidade de reduzir a despesa pública. Muitos destes intentos, por mais descabidos que aparentem ser, estão condenados ao sucesso no caldo de (in)cultura de irresponsabilidade política em que marinamos há muito.
As entidades empresariais públicas, graças à cumplicidade dolosa do PS e do PSD, conquistaram um postigo capaz de lhes facultar a crónica fuga para o despesismo no já famoso artigo 17.º do OE. Sem tardar, o presidente da TAP encetou um discurso que indicia a esperada predisposição no sentido de não se cingir à restrição da despesa. Afinal, os hospitais públicos EPE só serão obrigados a cortar 8,6% da despesa em vez dos 15% anteriormente previstos - talvez por coincidência, veio a público que o Hospital de São João, no Porto, iria dissipar 1 076 183 euros em fardas desenhadas por um conhecido estilista... Soube-se pouco depois que o Governo Regional dos Açores resolveu achincalhar qualquer réstia de espírito de sacrifício que ainda pudesse subsistir em alguns funcionários públicos ao perpetrar uma fraude à lei orçamental, compensando com dinheiros públicos regionais aquilo que o Estado quer poupar em dinheiros públicos nacionais. Entretanto, a alucinada candidatura lusa à organização do Mundial de futebol de 2018 (falo da parte portuguesa pois a espanhola não me diz respeito) garantia que, nessa data, o TGV iria estar pronto para os espectadores da bola (que se iriam somar aos inúmeros madrilenos ansiosos por virem à praia em Lisboa, segundo o ímpar ministro Mendonça), contrariando as indicações que o Governo, ou parte dele, tem dado por cá. Tal como aconteceu com a Expo'98 (o princípio do descalabro) e com o Euro 2004 (o seu alegre prolongamento), uma universidade qualquer prestou-se ao papelão de garantir aos pacóvios, por quem nos tomam, que a organização do Mundial de 2018 faria jorrar ouro em vez de água nas fontes e que a resolução dos nossos problemas financeiros residiria em organizações de eventos faraónicos - graças à maior capacidade corruptora da Rússia, Portugal foi poupado à loucura que inevitavelmente se seguiria e que redundaria, novamente, na construção de uma série de estádios e demais infra-estruturas escusadas e caríssimas.
Que espécie de país é este que, perante uma crise tão grave, persiste, desvairado, nas decisões que nos trouxeram à beira do precipício?!
Por mais que o Governo ainda nege a evidência, a verdade é que a austeridade tão anunciada acabará por ficar resumida nas medidas rotineiras: aumento de impostos, negociações com fundos privados para alindar transitoriamente o défice e, graças a isso, a trágica continuação de um Estado a gastar o mais que pode enquanto houver...


De SIADAP e objectivos/estatístic da TRETA a 10 de Dezembro de 2010 às 10:14

O ASSALTO FINAL

Com esta coisa de cumprir OBJECTIVOS, a Segurança Social ataca os contribuintes de forma abjecta.
Um caso:

Um contribuinte com um trabalhador a cargo declara e paga as respectivas contribuições.

Um qualquer funcionário da SS com objectivos traçados no SIADAP tem de recuperar no ano X de contribuições faltosas.
Consulta o sistema informático para saber quem são os contribuintes registados e deles selecciona um lote para notificar, com ofícios escritos numa linguagem impossível de entender, de uma dívida que poderá ser inexistente.

Descarrega para as chefias que cumpriu os seus objectivos.
As chefias, por sua vez, registam nas estatísticas que foi recuperado mais valor N de contribuições.

Parte dos contribuintes contesta.
Apresenta os recibos dos pagamentos no local destinado a tratar do assunto e quando faz perguntas para se esclarecer é informado de que ali só se recolhem documentos para que sejam analisados no serviço central (que não tem atendimento ao público).

Meses depois o contribuinte que apresentou todos os recibos (e entregou fotocópias) é de novo notificado a informar que a sua pretensão foi parcialmente aceite mas que ainda tem a pagar X.
Em anexo nova lista incompreensível de dívida sem mais quaisquer esclarecimentos e a ameaça da cobrança em contencioso.

Recomeça o processo anterior.
O contribuinte vai ter de deixar de trabalhar para retornar ao mesmo sítio onde só se faz a recolha da documentação, volta a juntar os comprovativos dos pagamentos, não poderá fazer o contraditório porque quem vai analisar o processo é uma entidade inacessível e ficará, uma vez mais, à espera para ver se o deixam em paz.

Ou então farta-se e passa o cheque indevido para que a Segurança Social deixe de o incomodar, liquidando aquilo que já tinha liquidado anteriormente.

É a BUROCRACIA do ASSALTO.
Pagam os que já pagaram.
Não se incomoda QUEM FOGE e nem sequer está REGISTADO no "sistema" (a economia paralela está bem e recomenda-se).

Cumprem-se OBJECTIVOS da TRETA (do faz-de-conta que é este Estado),
mascaram-se ESTATÍSTICAS e mente-se descaradamente quando lhes perguntam onde está o tal dinheiro recuperado.
Podem andar anos nisto. Chamam-lhe "ganhar tempo" e, espertos, comentam na galhofa que: - enquanto o pau vai e volta...
PQP

LNT, [0.466/2010] A Barbearia, 9.12.2010


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