Sábado, 11 de Dezembro de 2010

É o mundo que está a mudar

     Para os que estavam descansados porque com o fim do muro de Berlim tinha sido decretado o fim da luta de classes e o mundo ocidental iria viver em tranquilidade e harmonia os últimos meses terão sido uma surpresa.

     O que a espionagem soviética nunca teria conseguido foi feito pela Wikileaks, o que nenhum sindicato tradicional ousaria fizeram os controladores aéreos dos aeroportos espanhóis, o que nenhuma organização política extremista conseguiria fazer foi conseguido pelos magistrados a que supostamente caberia defender a democracia.

     Os segredos são expostos na internet, os governantes são escutados, a segurança do espaço aéreo é posta em causa, tudo isso sem qualquer controlo de uma organização política ou sindical e sem visar qualquer revolução.

 

     Clama-se vitória porque Zapatero mandou a tropa para os aeroportos e faz-se o elogio póstumo de Ronald Reagan mas ninguém garante que amanhã os controladores aéreos franceses ou britânicos não façam o mesmo, que os operadores das centrais eléctricas decidam desligar o sistema, algo que até uma cegonha conseguiu quando Guterres era primeiro-ministro, ou que algum informático desiludido decida desligar um satélite de telecomunicações.

Os sistemas informáticos são vulneráveis, os equipamentos de escutas estão disseminados e facilmente podem ser utilizados sem qualquer controlo, a segurança dos países deixou de estar nas mãos de generais para dependerem de meros técnicos especializados.

 

     Num dia crucificamos os controladores aéreos espanhóis porque ganham ordenados exorbitantes e montaram um esquema de enriquecimento fácil, fazendo chantagem sobre a vida de milhões de passageiros.

     No outro resignamo-nos perante os mercados onde alguns ganham biliões à custa da vulnerabilidade de algumas economias europeias e lançam milhões de europeus na miséria económica.

     Aos primeiros manda-se a tropa, aos segundos mandam-se manifestações de obediência e de subserviência.

 

     É uma ilusão pensar que se destrói um modelo social em nome da globalização e da igualização global dos custos da mão de obra e que o modelo político fica na mesma.

O poder já não está apenas na ponta de uma espingarda como ensinava Mao no seu livrinho de citações, os golpes de Estado já não se conseguem apenas com tanques, a força dos regimes já não depende apenas do poder militar e financeiro, o operador de um sistema informático tem tanto poder de destruição como um general, as vulnerabilidades dos sistemas informáticos tornam qualquer hacker num potencial terrorista, a vida íntima de qualquer político pode ser exposta por sistemas de escutas acessíveis a baixo custo.

     Não vale a pena barafustar contra as corporações ou acusar o responsável da Wikileaks de abusos sexuais, o mundo sofreu uma profunda mudança e quem pretender a proletarização forçada da classe média do ocidente em nome de uma globalização geradora de uma imensa riqueza mal distribuída enfrenta agora adversários mais poderosos e perigosos do que sindicalistas enquadrados ideologicamente.

 

     É verdade que os operadores espanhóis comportam-se de forma oportunista e que o responsável da Wikileaks acaba por ser mais útil ao terrorismo do que à defesa dos valores que supostamente defende. Mas não passam de dois pequenos exemplos de como o Ocidente é vulnerável e de como o poder já não pode ser decidido apenas com dinheiro, espingardas e votos.

     Se as democracias são incapazes de controlar os abusos do poder financeiro que escapa a qualquer controlo político podendo usurpar uma boa parte da riqueza produzida no mundo, ficaram agora a perceber que também não conseguem controlar o imenso poder detido pelo Know How de muitos grupos profissionais e mesmo cidadãos anónimos.

     Não vale a pena barafustar ou pensar que tudo se resolverá com perseguições, processos disciplinares ou sargentos.

Depois de anos de falsa tranquilidade o Ocidente está a ser abanado por sucessivas revoltas, fenómenos como as revoltas nos bairros franceses, a publicação de segredos de Estado, os ataques à segurança do espaço aéreo ou as manifestações dos estudantes gregos poderão não ser fenómenos isolados.

     Não estamos perante fenómenos isolados, é o mundo que está a mudar.

  -por Jumento , em 7.12.2010



Publicado por Xa2 às 00:59 | link do post | comentar

1 comentário:
De DD a 11 de Dezembro de 2010 às 22:34
O poder na China Comunista de Mao passou da espingarda para o Banco Central Chinês, o qual é o principal ator mundial dos chamados mercados financeiros, tanto como investidor em títulos de dívida pública como em obrigações e ações de grupos capitalistas.
O poder, enquanto poder, passou para a exploração máxima do trabalhador, a China comunista com os seus baixos salários mata os postos de trabalho dos trabalhadores pagos com um pouco mais de justiça.
Mas, não é só na China.
A Nokia deslocalizou a sua fábrica principal da Alemanha para a Roménia. Na Alemanha pagava às trabalhadoras e trabalhadores das linhas de montagem ordenados mensais da 1.500 a 2.000 euros; na Roménia paga 300 euros e oferece prémios mensais de 50 a 100 euros para ausência de faltas, comparência atempada e alto rendimento da linha de produção em que estão integrados e não há 14 ordenados para 11 meses de trabalho como em PORTUGAL. Apenas 12 ordenados e 15 dias de férias. Mesmo assim, a Nokia desse país tido por ideal que é a Finlândia não diminuiu os preços dos seus telemóveis.
A Nokia também fabrica no Marrocos e na China e no Brasil, além de outros países, pois domina quase completamente o mercado mundial.
A Ericson, por sua vez, fez um acordo com a Nokia e deixou de fabricar telemóveis para se dedicar totalmente às células, isto é, antenas, transmissores e servidores informáticos dos sistemas de telemóveis. As duas empresas nórdicas formam um monopólio mundial do equipamento em telemóveis.

A Roménia tornou-se na "China" da nião Europeia. Aí a Renault fabrica cada vez mais carros Renault e Dácia, pois é o país onde é possível a maior exploração dã mão de obra.

No fundo há uma lógica nisto tudo. Quando há verdadeiro poder, há exploração máxima do trabalhador e a China é uma ditadura que não respeita os direitos humanos, não permite liberdade de informação, nem na Net, e, menos ainda, liberdade política e sindical.

Mao fez a revolução e matou milhões de burgueses chineses para chegar a isto: a mais acentuada exploração do trabalho que alguma vez se viu.

Sim, em certos países muito pobres, nomeadamente africanos, quase não há exploração por não haver indústria e a agricultura é de subsistência. O Estado é frequentemente alimentado com ajudas externas ou com os lucros de alguma exploração mineira ou petrolífera ou pelos direitos de passagem como acontece em Moçambique.


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