Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

Para que se perceba a verdadeira natureza dos imperativos categóricos da retórica de Assis, que o tornam um autêntico discípulo de Sócrates e justificam, com evidência, a sua escolha para líder da bancada socialista, trago à reflexão um texto que escrevi numa coluna (Educação e cidadania) que, em tempos, dispunha no Jornal de Notícias.

Transcrevo-o:
“Todos iguais, todos diferentes”

Há situações que são paradigmáticas da necessidade de uma profunda reforma dos partidos e do sistema político por forma a dar credibilidade, rigor e transparência à actividade política.

Francisco Assis, nas últimas eleições autárquicas, apresentou-se como cabeça de lista à Assembleia Municipal do Marco pelo PS.

Muitos não acreditaram que esse gesto fosse apenas um “número de espectáculo” para conquistar votos (como alguns já faziam crer), mas uma marca de um novo modo de estar na política, servir a causa da democracia e os ideais socialistas.

Foram, por isso, criadas naturais expectativas que se apoiavam no suposto de que o líder distrital do PS pudesse dar uma outra visibilidade aos problemas de prepotência, caciquismo e má gestão de que era publicamente acusado Ferreira Torres.
Rapidamente, estas expectativas foram frustradas:
por acumulação de faltas, o deputado e líder do PS foi obrigado a renunciar ao mandato.

A justificação avançada pela Federação do PS é digna de ficar registada numa antologia da especialidade:
a presença de Assis na Assembleia Municipal do Marco era susceptível de “limitar e inibir a participação” dos restantes membros do seu partido na assembleia.

Foi, agora, tornado público que Francisco Assis tinha aceitado o cargo honorífico (segundo o mesmo) de presidente da assembleia-geral da Edinorte, empresa ligada a um dos empreiteiros do regime de Ferreira Torres que é compadre de Major Valentim Loureiro.

Uma questão se colocará, entretanto: será que os interesses da luta contra a prepotência, o caciquismo e a falta de transparência da gestão de Ferreira Torres não nobilitavam tanto o deputado e líder distrital do PS, como ser presidente da assembleia-geral da polémica empresa Edinorte?!...

Tal como um rolo compressor, vai-se se impondo a ideia de um centrão político, onde se aplica o slogan “todos iguais e todos diferentes”.

Se o PS quer marcar a diferença tem de promover reformas que evitem que, no seu interior, o sucesso se faça por jactos de verborreia incoerentes, mas pela competência, coerência e rigor.

De contrário, não faltarão razões para seguir a lucidez do “voto em branco” de que nos fala Saramago no último livro.


# posted by Primo de Amarante, http://margemesquerdatribunalivre.blogspot.com/,02,12.2010

 

O da "Retórica e coerência" vai-me desculpar, mas entendo que este assunto é mais um IMPORTANTE contributo para identificar este PS e por isso merece um destaque mais consentâneo.



Publicado por Izanagi às 09:36 | link do post | comentar

2 comentários:
De ... a 13 de Dezembro de 2010 às 09:51
Coerência é com eles!

Sócrates diz que é imoral, o Governo sublinhou o mesmo e, agora, o contrário, Assis demitia-se se a bancada socialista não aprovasse o “contrário” e a golden share só funcionou para retirar da TVI a Manuela Moura Guedes.


No final os DIVIDENDOS milionários da PT e de outras empresas não vão ser taxados e não entram para o PATRIOTISMO exigido pelo Governo para resolver a crise.

O critério de um governo dito socialista é deixar os problemas da crise para os mais desgraçados.
E estão felizes e muito coerentes!

# posted by Primo de Amarante


De deputados: Calar e não fazer ondas... a 13 de Dezembro de 2010 às 11:59
A democracia dos outros
(por Sérgio Lavos, Arrastão)

Em Inglaterra, 21 dos 57 deputados do partido Liberal-Democrata opuseram-se à aprovação da medida que aumenta as propinas dos estudantes do ensino superior, em alguns casos até ao triplo do que era antes (nove mil libras), Contrariando a promessa eleitoral de Nick Clegg, líder do partido e vice-primeiro-ministro.

Dois assessores de ministros demitiram-se para votar contra, depois de Clegg ter afirmado que todos os membros do Governo iriam votar a favor.
O mesmo aconteceu com um assessor Conservador, o outro partido da coligação governamental.
Esta atitude é tudo menos inédita:
o parlamento inglês tem sido pródigo em rebeliões dos deputados contra o sentido do voto imposto pelas lideranças dos partidos
- no tempo de Tony Blair, mais de um terço dos Trabalhistas chegou a votar contra a invasão do Iraque.

Em Portugal, trinta e seis anos depois da chegada da democracia, basta um líder de bancada ameaçar os deputados para estes comerem e calarem, votando contra uma proposta com a qual concordavam.

E é claro que a força dos protestos dos estudantes também deveria servir de exemplo a um povo contentinho, manhoso e com sentimentos de culpa por ter usufruído da bonança passageira dos anos 90.
Comer e calar, não fazer ondas.
Cada povo tem a democracia que merece ter.


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