WikiLeaks : o Interesse público, a Censura ou as Vendas ?

Acordem do suave torpor , por Daniel Oliveira

 

   Através da WikiLeaks, que, diz-se, nos dá informação pouco relevante e que não devia ser conhecida, ficamos a saber que Carlos Santos Ferreira, presidente do Millenium/BCP, propôs aos Estados Unidos "prestar serviços de espionagem" ao "desembarcar no Irão e em troca oferecer a Washington informação sobre as actividades financeiras desta República Islâmica". E que, "no mínimo, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português está a par desta abordagem à Embaixada".   E ficámos a saber que o primeiro-ministro terá "permitido aos Estados Unidos utilizar a Base das Lajes nos Açores para repatriar presos de Guantánamo". Quatro meses depois Sócrates garantiu que o Governo "nunca" tinha recebido qualquer pedido dos EUA.

 

   Ficámos a saber por factos o que suspeitávamos:

 que somos liderados por capachos - os elogios a Luís Amado são dignos daqueles que se reservam a um criado leal - e por gente sem qualquer respeito pela verdade. E têm razões para isso. Nos telegramas revelados sabemos igualmente que o Presidente da República terá tranquilizado os seus interlocutores norte-americanos:   "Portugal tem uma imprensa muito suave". Como se viu no manto de silêncio sobre as suas ligações ao BPN, Cavaco Silva sabe bem do que fala.

 

    Entretanto, entre muitos jornalistas, não se sente, perante a perseguição à WikiLeaks, no que é a primeira tentativa de censura à escala global, o mesmo furor que, justamente, se sentiu com casos bem menos relevantes em Portugal e no Estrangeiro. Porquê? Porque a perseguição não é feita a jornalistas e sem o sentimento corporativo não aquecem algumas almas.

    Muitos jornalistas confundem liberdade de imprensa com direito à informação. A primeira, fundamental, existe para garantir o segundo. Protegemos os jornalistas para proteger o nosso direito a ser informados.

    Se os jornalistas não cumprirem este papel a sociedade não se irá mobilizar para os defender dos ataques do poder. Se forem "suaves" não merecem o nosso empenho. E se, ainda por cima, não forem os primeiros a agir em defesa de quem que cumpra o seu papel, tornam-se num problema.

 

   O debate é quase todo ao lado. Sendo material secreto, é legitimo divulga-lo? Instalou-se a ideia de que tudo pode ser considerado segredo de Estado, desde que o Estado assim o determine, mesmo que estejamos perante crimes, espionagem a aliados ou a instituições internacionais ou cumplicidades com violações dos direitos humanos.

   E chega-se mesmo a confundir o direito à privacidade com os negócios da coisa pública. Como se o que as diplomacias andam a fazer não fosse coisa que dissesse respeito a todos os cidadãos. Como se o jornalismo estivesse obrigado a aceitar as regras éticas (ou a ausência delas) da realpolitik.

 

   Mas o problema não é, na realidade, o que deve ser ou não ser secreto. Não é isso mesmo que está em causa com o segredo de justiça? Ou com informações vindas de fontes anónimas de instituições do Estado? E nestes casos os jornalistas vacilam?

   Não será a ausência do crivo jornalístico a única diferença? Não será a evidência que alguém está a cumprir melhor a função dos jornalistas o único verdadeiro problema de muitos jornalistas?

 

   A outra questão: não há selecção. Mistura-se informação relevante com coisas sem interesse. A informação que nos foi dada veio em bruto. Coube aos jornalistas seleccionar. E, no entanto, foram os jornalistas, e não quem disponibilizou a informação, que começaram por dar o mesmo destaque a irrelevâncias escritas sobre a personalidade de alguns líderes europeus e a verdadeiros escândalos de espionagem e abusos. Ou seja, o papel de selecção que é suposto os jornalistas cumprirem revelou-se, em muitos casos, absolutamente dispensável.

   Mais do que se preocuparem com o interesse público, o primeiro instinto foi saber o que vendia mais. Ou seja, não é fácil descortinar esse papel técnico indispensável que torna a WikiLeaks menos merecedora de respeito do que uma redacção. Até ver, pelo contrário.

 

A guerra virtual que trava na Internet, que começou com a divulgação desta informação, continuou com a prisão do porta-voz da WikiLeak, a tentativa de silenciar a organização e de impedir o seu financiamento e continuou com a reacção de cidadãos, contra-atacando quem aceitou ser veículo da censura (ainda ouviremos alguém a chamar-lhes de ciberterroristas) está, por enquanto, a ser ganha por quem cumpriu a missão de informar. Mas não acaba aqui. Haverá, com toda a certeza, uma tentativa de impor "regras" na Internet (como tem defendido o senador Lieberman) para impedir que outros casos se repitam. Depende de quem vencer esta guerra o que será a liberdade de expressão e de informação no futuro.

 

Mas já existe um derrotado:

grande parte da imprensa nos países democráticos (a outra não conta neste campeonato). Com a sua integração em gigantescos grupos, que dormem na cama e comem na mesa do poder político e económico, a imprensa deixou há muito de ser livre. Por isso, organizações como a WikiLeaks (e muitas mais, para que não lhe aconteça o mesmo) e os cidadãos que as defendem são a esperança para que os poderes não possam viver descansados com uma "imprensa suave". E que acordem a comunicação social tradicional do torpor em que tem vivido. Tudo o que se está a passar dá-nos algumas razões para optimismo. Pode ser que já não seja possível continuar a adormecer tão facilmente as nossas democracias



Publicado por Xa2 às 00:07 de 14.12.10 | link do post | comentar |

7 comentários:
De Dylan a 19 de Dezembro de 2010 às 23:04
Não sei muito bem onde é a fronteira da liberdade da informação mas de certeza que não será no terreno onde a Wikileaks tem actuado. A sua política de terra queimada substitui o jornalismo pelo voyeurismo da opinião pública, ao melhor estilo de se saber qual é a cor do papel higiénico que os diplomatas usam. Como se não houvesse segredo de estado nem a diplomacia não fosse um manual de boas maneiras. Reconheço o papel relevante de Julian Assange na denúncia das violações de direitos humanos mas a sua organização acaba por fazer o mesmo que tanto a sua missão divina e protagonismo reclamam: espiar.


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 15 de Dezembro de 2010 às 14:18
Ao contrário do que fez o sr. Santos Ferreira, eu confirmo tudo o que dizem de mim no wiki...
Sim, é verdade!
Uso sempre duas folhas de papel higiénico quando vou ao WC.
É que eu mando sempre uma cópia para a América.


De Bancos/ $.€.£. SEM ESCRÚPULOS. a 15 de Dezembro de 2010 às 12:25
Espionar ou não espionar ...

[Publicado por AG, CausaNossa, 14.12.2010]

As mais recentes revelações da WikiLeaks respeitantes a Portugal são preocupantes.

A possibilidade de um banco nacional procurar fazer NEGÓCIOS num Irão sob SANÇÕES das Nações Unidas e da UE, à conta de um expediente chico-espertista, é grave.
E não só por poder ter falhado e sido ignominiosamente exposta, mas porque relevaria da mais alarmante FALTA de ESCRÚPULOS – quem se prestasse a espionar o regime iraniano para ganhar dinheiro à sua conta, também poderia trabalhar para CARTÉIS de DROGA, a pretexto de os fazer supervisionar pelas policias… .

O Millenium BCP desmentiu já ontem, na manhã seguinte à publicação no diário espanhol El País, o conteúdo dos telegramas da embaixada americana em Lisboa. Mas o dano à sua credibilidade internacional persiste.
Não basta, por isso, que o banco desminta.
É preciso que as autoridades políticas e judiciais não assobiem para o ar, é vital que esclareçam completamente o que se terá passado, o que propôs o Banco ao Irão e o que propunha o Irão ao Banco, quais as RESPONSABILIDADES do Millenium BCP, do Banco de Portugal e de quem quer que eventualmente estivesse ao corrente no Governo, no MNE, ou em qualquer outro departamento da Administração Pública.


De Porque não se inclui na coluna? a 14 de Dezembro de 2010 às 12:33
Ele sabe que eu sei que ele sabe o que o site WikiLeaks pode divulgar a propósito da sua actuação na compra dos submarinos.

Ele asabe que eu sei o que o WikiLeaks pode divulgar a propósito da sua colaboração nos voos e...

Ele asabe que eu sei o que o WikiLeaks pode divulgar a propósito da sua colaboração nos negocios e processos de corrupção ...

Ele asabe que eu sei o que o WikiLeaks pode divulgar a propósito da sua colaboração nos esquemas eleitorais internos dos partidos...

À cautela Portas e outros politicos da nossa praça vão pensando e dizendo que:
•«Pode ser tentador discutir o que dizem estes ou aqueles telegramas . Nós não discutimos por uma questão de princípio. Se aceitássemos discutir este telegrama ou aquele estávamos a ser cúmplices e a patrocinar a violação da correspondência diplomática que é essencial à segurança dos Estados».
•«Todos sabem que a diplomacia é por natureza reservada, discreta e às vezes secreta. Violar a correspondência diplomática põe em causa a segurança dos Estados, de pessoas, de instalações e de missões».
Esquecem-se de dizer que: divulgar as negociatas põe em causa as mentiras forjadas no âmbito da feitura de tais negocios e põe a nu as carecas corruptivas e corruptas dos respectivos negociantes.
Para o sujeito trazer a terreiro, no meio do repasto, tão indigesto tema alguma coisa augurara para futuro mais ou menos próximo. O que será?

Já agora sugeria aos gestores do LUMINÁRIA para que introduzissem na sua coluna o link do WikiLeaks, potrque não?



De link do WikiLeaks a 14 de Dezembro de 2010 às 14:49
Efectivamente, só dignificaria o Luminária se o inclui-se na sua coluna de referencia da blogosfera, não há divida.
Fico à espera de o consultar via LUMINÁRIA


De WikiLeaks: só escrever o endereço a 14 de Dezembro de 2010 às 17:37
WIKILEAKS está em:

http://wikileaks.liberdadedeexpressao.net/

Este é um link para um 'espelho' (cópia, criado no http://www.esquerda.net/ ) do WikiLeaks, já que o site original está sob ataque.


http://wikileaks.liberdadedeexpressao.net/

HELP WIKILEAKS KEEP GOVERNMENTS OPEN

"Could become as important a journalistic tool as the Freedom of Information Act." - Time Magazine


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 14 de Dezembro de 2010 às 10:40
Já aqui uma vez referi um outro direito. O direito à mentira!
Todos mentem. Uns mais outros menos. Uns por interesse próprio, outros por interesses duvidosos e de outrem, outros apenas porque sim.
Quem nunca mentiu no emprego, ao patrão ou aos colegas, em casa, à mulher ou aos filhos. Na rua, ao arrumador de carros, no banco ou até na declaração dos impostos?
E então quando se fala em privado ou num pequeno círculo onde se julga estar à vontade?
E na política e sobretudo na diplomacia política, em que não há amigos só interesses, quem não mente? Ou como se diz agora com o novíssimo termo de chamar às mentiras inverdades?
Ou na vida pública que independentemente se ser verdade ou mentira a única coisa que interessa à sociedade é o que se consegue provar...
Quem nunca mentiu que atire a "primeira pedra".
Só a mentira dá valor à verdade.
Lutemos pois, pelo direito à mentira!


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