Sábado, 18 de Dezembro de 2010

A Europa em chamas 

 

 

     Em Atenas, a oitava greve geral degenerou numa guerra campal com centenas de ferido e ataques nas ruas a ex-ministros com responsabilidades na situação actual. De plano de austeridade em plano de austeridade assiste-se à destruição impiedosa de um país. E o desespero toma conta das ruas. 

     Em Roma, a reacção nas ruas ao chumbo da moção de censura da Berlusconi também foi violenta e custou dois milhões de euros em danos materiais. No Parlamento, a arruaça não foi muito diferente.

     O aumento das propinas e das matriculas nas universidades inglesas levou a impressionantes manifestações que acabaram em violência. O resultado político já se fez sentir: os liberais-democratas, no governo com os conservadores, passaram de 23 por cento nas últimas eleições para oito por cento nas sondagens.

    Em Espanha e na Irlanda poderemos vir a assistir a cenas semelhantes. E tal só não acontecerá em Portugal porque ou somos dados a brandos costumes ou a uma obediência resignada, dependendo do ponto de vista.

 

     Independentemente das considerações éticas que cada um resolva fazer sobre protestos violentos, é bom perceber o que se está a passar. Há dois anos, quando rebentou a crise do subprime, fizeram-se promessas de moralização dos mercados financeiros. Jurou-se mudar leis e condenar os culpados. Depois avançaram-se com planos de dinamizarão da economia. A União Europeia incentivou os estados membros a investir e a gastar.

      Mas de repente tudo mudou. Foi preciso salvar a banca europeia com dinheiros públicos e os especuladores tiveram de transferir as suas apostas do mercado imobiliário para as dívidas soberanas. Os interesses de sempre aproveitaram a boleia para vender o emagrecimento do Estado e dos salários e alterações das leis laborais. Começou então um processo quase revolucionário de destruição do modelo social europeu e um ataque como não há memória em décadas aos direitos sociais.

     Alguém teria de pagar esta crise e seguramente não seria quem a causou. Aproveitando a inexistência de liderança política europeia, o domínio da direita na maioria dos governos da Europa e o estado pré-comatoso em que se encontra a social-democracia, começou um processo de engenharia social que promete ser longo e deixar um rasto de destruição no seu caminho.

 

     Perante a violência deste ataque, a fragilidade do movimento sindical - que a crescente precariedade das relações de trabalho ajuda a explicar - e a anemia das oposições de esquerda, os próximos anos prometem ser politicamente perigosos para a Europa. As instituições democráticas de Estados nacionais sem poder e a falta de legitimidade democrática das instituições europeias, associadas à crise, são uma bomba-relógio. Onde há democracia não há soberania, onde há soberania não há democracia.

     Ou seja, é fora das instituições que o combate acontece porque dentro delas não parece haver solução. Não vivemos apenas uma crise económica e social. Vivemos uma crise da democracia. Não é apenas o desespero que explica a multiplicação de protestos violentos. É a ausência de respostas democráticas a este atoleiro.

 

     Em Portugal, em Espanha, na Irlanda ou na Grécia o cenário é o mesmo:  as elites políticas impõem soluções sem as conseguir justificar. Até porque, do ponto de vista económico, político, social e moral, elas são injustificáveis.  E escudam-se na inevitabilidade, ditada por factores externos. A elite eurocrata navega na sua própria irresponsabilidade, mas ninguém a pode punir, porque ela não depende do voto. E é essa nebulosa a que se chama de "mercados" que dita as escolhas políticas.

     Quando o poder que determina as nossas vidas não tem rosto e não pode ser combatido com os instrumentos democráticos está criado o caldo para a revolta na rua. Ou isso ou a ascensão ao poder de movimentos xenófobos (e fascizantes) que escolham a Europa como inimigo a abater.

     Os próximos anos vão ser perigosos. Ou as decrépitas elites políticas europeias percebem o aviso que têm recebido nos últimos dias ou serão a próxima vítima. Ou acordam para o caos social que estão a criar ou terão de vir a lidar com o caos político que geralmente lhe sucede. E aí pode ser tarde demais

-por Daniel Oliveira, Arrastão



Publicado por Xa2 às 00:07 | link do post | comentar

2 comentários:
De DD a 18 de Dezembro de 2010 às 20:02
No Expresso, um gajo qualquer faz um grande elogio aos atuais governantes do Reino Unido que terão ido para o poder com os dossiês prontos e afinados, sabendo o que queriam fazer.
Curiosamente, os estudantes revoltaram-se e destruíram portas, montras, janelas e interiores da sede do Partido Conservador e noutras manifestações até apedrejaram o Rolls do príncipe Carlos e da Camila.
O palerma do Expressa chama a isto saber o que deveriam fazer e ter dossiês preparados.


De Ao ponto q.isto chegou ! a 20 de Dezembro de 2010 às 15:58
Até custa a crer que possa ter credibilidade, reflecte falta de pudor
e é de uma imoralidade assustadora com ou sem crise

Global.



Assunto: Ao ponto a que se chegou!


Por cada reunião do conselho de administração das cotadas do PSI-20,
os administradores não executivos - ou seja, sem funções de gestão -
receberam 7427 euros. Segundo contas feitas pelo DN, tendo em conta os
responsáveis que ocupam mais cargos deste tipo, esta foi a média de
salário obtido em 2009.

Daniel Proença de Carvalho, António Nogueira Leite, José Pedro
Aguiar-Branco, António Lobo Xavier e João Vieira
Castro são os "campeões" deste tipo de funções nas cotadas, sendo que
o salário varia conforme as empresas em que "trabalham".

Proença de Carvalho é o responsável com mais cargos entre os
administradores não executivos das companhias do PSI-20, e também o
mais bem pago. O advogado é presidente do conselho de administração da
Zon, é membro da comissão de remunerações do BES, vice-presidente da
mesa da assembleia geral da CGD e presidente da mesa na Galp Energia.
E estes são apenas os cargos em empresas cotadas, já que Proença de
Carvalho desempenha funções semelhantes em mais de 30 empresas.
Considerando apenas estas quatro empresas (já que só é possível saber
a remuneração em empresas cotadas em bolsa), o advogado recebeu 252
mil euros. Tendo em conta que esteve presente em 16 reuniões, Proença
de Carvalho recebeu, em média e em 2009, 15,8 mil euros por reunião.

O segundo mais bem pago por reunião é João Vieira Castro (na
infografia, a ordem é pelo total de salário). O advogado recebeu, em
2009, 45 mil euros por apenas quatro reuniões, já que é presidente da
mesa da assembleia geral do BPI, da Jerónimo Martins, da Sonaecom e da
Sonae Indústria.



Segue-se António Nogueira Leite, que é administrador não executivo na
Brisa, EDP Renováveis e Reditus, entre outros cargos.
O economista recebeu 193 mil euros, estando presente em 36 encontros
destas companhias. O que corresponde a mais de 5300 euros por reunião.

José Pedro Aguiar-Branco é outro dos "campeões" dos cargos nas cotadas
nacionais. O advogado é presidente da mesa da Semapa (que não divulga
o salário do advogado), da Portucel
e da Impresa, entre vários outros cargos. Por duas AG em 2009,
Aguiar-Branco recebeu 8080 euros, ou seja, 4040 por reunião.

Administrador não executivo da Sonaecom, da Mota-Engil e do BPI,
António Lobo Xavier auferiu 83 mil euros no ano passado (não está
contemplado o salário na operadora de telecomunicações, já que
nãoconsta do relatório da empresa). Tendo estado presente em 22
encontros dos conselhos de administração destas empresas, o advogado
ganhou, por
reunião, mais de 3700 euros.

Apesar de desempenhar apenas dois cargos como administrador não
executivo, o vice-reitor da Universidade Técnica de Lisboa, Vítor
Gonçalves, recebeu mais de 200 mil euros no ano passado. Membro do
conselho geral de supervisão da EDP e presidente da comissão para as
matérias financeiras da mesma empresa, o responsável é ainda
administrador não executivo da Zon, tendo um rácio de quase 5700 euros
por reunião. dn.pt, 16 Abril

Nota: não haverá por acaso qualquer ligação entre isto, o "déficit", e
a situação de total descalabro do país? Se estes senhores são tão bons
para ganharem tanto dinheiro só para assistirem a reuniões e
manifestarem as suas opiniões, como pode o país destes senhores
encontrar-se no estado em que se encontra? Qual é o real valor, a
credibilidade e o reconhecimento internacional destes senhores tão bem
pagos e que andam há tantos anos "por aí" na vida política e
empresarial portuguesa? (estas "dúvidas" estendem-se aos
administradores executivos que sempre farão um pouco mais que assistir
a reuniões e mandar "palpites"... e por isso sempre ganharão um pouco
mais)

É (deveria ser!) urgente varrer este País...


E, ESTOU EU EM CRER, QUE ALGUNS DESTES SENHORES TERÁ CANTADO NA SUA JUVENTUDE...

!... ELES COMEM TUDO, ELES COMEM TUDO!

... E NÃO DEIXAVAM NADA PARA MIM...!!!"

Insurge-te...!!!


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