Eleições presidenciais

Estou um pouco desligado das próximas eleições presidenciais. Acho tudo demasiado mau para que me sinta atraído por esta democracia enferrujada, sucateira, milagreira e corrupta.

Olho para o senhor de Boliqueime, para aquele sorriso cínico, meço a profundidade dos seus tabus, analiso a obra feita e as desculpas esfarrapadas que vai dando para a sua ineficácia, penso na sua dramática falta de cultura, a colagem que a direita faz à sua candidatura, e a minha desilusão não tem medida. Descarto-o.

A seguir, encaro o poeta Alegre, sempre impecavelmente vestido, e penso no que ele fez pela nossa democracia. Concluo que não fez nada. Enfim, é um poeta de estrofes heróicas, de cuja poesia gosto. E um cidadão culto. Mas o que fez ele, como político, em 35 anos de democracia? Esteve confortavelmente sentado na AR a deputar. Deputa, deputa, lá diz o Millôr Fernandes. A estrema esquerda professoral e funcionária colou-se à sua candidatura. Matou-a à nascença por mais votos que o poeta venha a obter. Descarto-o.

Tenho, depois, o santo Fernando Nobre. Viro-o do avesso, abano-o, parece-me morto. O lugar de um santo é no altar. Ou a evangelizar as populações, o que ele fez bem enquanto o fez, levando-lhes aquilo de que elas precisavam: auxílio na desgraça, cuidados médicos, uma mão amiga. Mas não me parece talhado para presidente da República. Pode ter bons contactos internacionais, mas isso não chega. Não terá conhecimentos suficientes de governação, da vida pública e política, dos dossiers, etc. Descarto-o.

Há, também, aquele autarca de província, que embora se chame Defensor Moura só me lembro que tenha defendido Viana do Castelo. Nem penso nele. Descarto-o.

Enfim, não posso esquecer aquele anónimo funcionário comunista chamado Francisco Lopes, que apareceu na televisão de fato e gravata, colando-o à burguesia, que não é o seu estatuto de defensor da classe operária (seja lá o que for a classe operária nos dias que correm). Apagadito e repetindo a cassete do costume, que até já parece uma cassete pirata. Demasiado enjoativo para o meu gosto. Descarto-o.

E agora, António? Sim, eu sei, ainda há mais uns tantos candidatos ou que se propõem sê-lo, o mais destacado dos quais é o bem-humorado Manuel João Vieira.

Mas isto agora é a sério. E, a sério, não vejo em quem votar.

Voto útil? Para esse peditório já dei.

Quero ficar puro para outras eleições. Voto em branco.

António Garcia Barreto [O voo das palavras]



Publicado por JL às 01:23 de 21.12.10 | link do post | comentar |

5 comentários:
De Mas quê a 21 de Dezembro de 2010 às 10:48
Ora, aqui está um post que muito nos, lhes, deveria fazer reflectir. Mas quê, pensar dá tanto trabalho e é uma canseira danada!
Já não vale a pena, tão pouco, falar em fazer o que quer que seja salvo se for lamuriar ou denegrir o que já vai negro, demasiadamente.


De Os Candidatos e propostas são DIFERENTES a 21 de Dezembro de 2010 às 10:02
Diferenças

Ontem, na apresentação da Comissão de Honra e do Contrato Presidencial da candidatura de Manuel Alegre, Maria de Belém disse, entre muitas outras coisas acertadas, que
a diferença entre DIREITOS e CARIDADE(zinha) reside no facto de os primeiros serem matéria de reivindicação e a segunda de agradecimento e gratidão.

Para quem gosta de dizer que "é tudo igual" já aqui tem uma, senão a essencial, razão para entender que
nem tudo, nem todos, são iguais e que a candidatura de Manuel Alegre contém todo um mundo de diferenças da de Cavaco Silva.

Não se tratam só de diferenças formais ou ideológicas, tratam-se de caminhos diferentes para se obterem resultados diferentes.

Enquanto Alegre fala de boa ou má CIDADANIA e de bom ou mau HUMANISMO, Cavaco mantém-se na boa ou má MOEDA sabendo ele, até pela sua formação de que tanto gosta de falar mas de que não se conhece ciência nova, ou novas soluções, que o dinheiro é todo igual e que essas boas ou más moedas, pelos vistos, dependem só de quem as tem na algibeira.

LNT, [0.487/2010], A Barbearia


De ..Políticos e ''Apolíticos'' de NOJO.. a 21 de Dezembro de 2010 às 14:51
Livrem-nos dos políticos com nojo da política (alterado)

(por Daniel Oliveira, Arrastão, 20.12.2010)

As campanhas eleitorais não dizem muito sobre os candidatos. Dizem mais sobre o que os candidatos acham que os eleitores querem ouvir.
E em tempo de crise, quando o sistema político parece ser incapaz - até pelas limitações impostas por uma União Europeia politicamente paralizada - de encontrar soluções ou apontar caminhos, tudo o que os candidatos à Presidência não querem parecer é políticos.
Apesar de, como é evidente, tendo em conta o cargo a que se candidatam, não poderem ser nem mais nem menos do que isso.

Fernando Nobre, naquele que é o pior tique que um político pode ter - e confesso que esta sua postura me espanta - mostrou como seu principal currículo político não ter currículo político nenhum.
Chegou ao ponto de acusar Francisco Lopes de ser responsável pelo estado em que o País está já que, veja-se o escândalo, é deputado.
Como se ter sido escolhido pelo povo para um cargo que depende do voto democrático tornasse um cidadão cúmplice de tudo o que aconteça de mal. Disse que ele fazia parte do sistema, essa nebelosa que torna tudo indiferenciado e que supostamente distingue quem nunca se meteu nesse nojo que é o confronto democrático.

Defensor Moura também acusou Manuel Alegre de ser político. Coisa feia, bem se vê. Isto, apesar dele ser deputado em exercício, ter sido presidente de câmara e ter uma longa vida partidária.
Temos então os políticos, os não políticos e os políticos só um bocadinho.

Cavaco Silva já tem muitos anos deste discurso.
Ele paira sobre a política mas parece nunca lhe tocar. Não ser político é a sua imagem de marca.
O elemento distintivo de um dos homens que há mais tempo faz política no País.

Todos eles são candidatos à Presidência da República.
Um cargo que nada tem de executivo ou técnico. Um cargo absolutamente político.
Um cargo que, exigindo um enorme conhecimento das instituições e dos equilibrios partidários, deveria exigir um vasto currículo com provas dadas em cargos políticos.
Enfim, um cargo reservado a políticos.

Não a homens que deprezam a política ou querem passar a imagem que dela têm nojo, mas aos que a vêem como a mais nobre das actividades a que um cidadão se pode dedicar.
Até porque, mesmo quem tenha provas dadas de ausência de currículo nesta área (coisa estranha, a de ter na inexperiência uma vantagem), perderia essa virgindade no dia em que entrasse no Palácio de Belém.

Conhecemos de sempre este filme:
políticos que fazem do ódio à política uma arma de propaganda. Acontece-lhes uma de duas coisas. A menos má:
rapidamente se tornam iguais a todos os que criticaram. A pior:
a sua inexperiência, voluntarismo ou falta de consistência traduz-se em incompetência ou desrespeito pelas regras democráticas.

Lembro-me das melhores eleições eleições presidenciais que este país viveu:
Mário Soares, Freitas do Amaral, Salgado Zenha e Maria de Lurdes Pintansilgo.
Todos políticos de primeira água que puxavam dos galões da sua experiência.
O que nos aconteceu para termos chegado a este nível de indigência, onde ter currículo político é tratado como defeito ou motivo de vergonha?

Para não pôr tudo no mesmo saco, há dois candidatos que não têm seguido este caminho: Manuel Alegre e Francisco Lopes.

Os dois assumem o seu passado e a sua militância. São, de formas diferentes, políticos assumidos.

E, num tempo em que a demagogia derrapa para um preocupante desprezo pela democracia que conquistámos há 36 anos, isso só diz bem deles.

Por mim, quero um político como Presidente. E que tenha orgulho nisso.


De Excelente poesia política a 22 de Dezembro de 2010 às 11:07
Espectros

Tenho a impressão de já vos ter falado de um amigo oriundo de Buda, crítico de Peste, que gosta de falar de e com os mortos. Um bom amigo, diga-se, mas como todos os amigos que falam de e com os mortos, um amigo presente, embora do além.

Espanta-se esse meu amigo de Buda que este vosso escrevinhador faça parte da Comissão de Honra de Manuel Alegre e desta forma se apresente ao lado de José Sócrates, Francisco Louçã e outros. Diz esse meu amigo que só não deixou uma nota neste Blog fazendo a menção dessa estranheza porque... é meu amigo.

Ora bem! Começo por esclarecer o meu amigo e os seus fantasmas que não estou ao lado de Sócrates e de Louçã porque se trata de uma lista ordenada por ordem alfabética.

Como Luís é, no alfabeto latino que também foi adoptado pelas línguas urálicas, posterior ao F e ao J, não só não estou ao lado como ainda estou depois, embora seja público que já lhes era anterior no apoio e na honra de fazer parte da lista dos honrados. Estranho seria se nessa dita lista constassem, antes ou depois, alguns dos mortos de que esse meu amigo é fã.

Saltando todos os outros esclarecimentos que darei de viva voz a esse meu amigo que fala e gosta dos mortos e dos bruxos, fixo-me no último porque gostaria de o deixar escrito.

As democracias, mesmo aquelas mais recentes que se livraram do jugo dos ditadores, como p.e. as Ibéricas que o fizeram por mote próprio e as outras que só atingiram esse estatuto por vontade e bondade dos senhores das Rússias, subsistem pelo voto popular.

Sabe-se que quem fala e gosta dos mortos desconfia destas modernices antigas nos países tradicionalmente livres. Não é só o meu amigo de Buda, são também jornalistas como Miguel Sousa Tavares, Henrique Monteiro, Mário Crespo e outros inclinados que se atrevem a afirmar em frente às câmaras, em clara manipulação, que as próximas eleições presidenciais são só uma rotina desnecessária porque o seu príncipe dos silêncios, outro espectro que só fala dos mortos e para os vivos nada diz, já está eleito, embora as eleições ainda estejam por fazer.

Pensa, toda esta gente, o pensamento que aprenderam nos livros, de onde não conseguem mais do que transmitir a doutrina dos mortos, por lhes faltar a esperança de algo novo e o rasgo de novas soluções para o Mundo vivo que temos hoje e que os seus mortos nunca conheceram.

LNT , [0.489/2010] A Barbearia do sr.luís


De Excelente prosa a 22 de Dezembro de 2010 às 11:18
Espectros - direito de resposta

Fazem bem epíteto, os Honrados que fazem uso, Publicando, o que lhe é dito entre Amigos, em privado...

Os Valores Morais e Éticos que persigo, na qual fui educado, sempre praticando o Bem, com empenho e dedicação, pondo os interesses colectivos antes dos interesses individuais ou de corporações, numa luta de mercado de sobrevivência privada, contrariando e opondo-me a todas as tentações da natureza humana.

Mais vale viver no sonho, assente em passado, rico em aprendizagem, do que viver no presente resignado.
Não considero que o óptimo seja inimigo do bom.

Acção local de bem, com humildade, sem busca de protagonismo, partilhando o sucesso têm sido a minha cruzada, não necessito de protagonismos, razão pela qual, cada vez gosto mais do meu caminho, do qual muito me orgulho.

Quero deixar duas considerações finais:
trabalho no sector privado e tenho família numerosa. O quadro que está no spot é da minha autoria e ofereci-o a si em nome da grande amizade que considerava que existia entre nós.
Espero que este meu comentário tenha direito a igual destaque!
Como diz o meu filho de 7 anos “Não tens sentido de Amor”
Peter ('.../...')

Nota de LNT:
Sem querer entrar noutras considerações particulares porque, a fazê-lo, será de viva voz, importa esclarecer que o texto que publiquei abaixo só existe porque a tal mensagem que me serviu de inspiração para o escrever, e que não publiquei, deixava na sua última frase aquilo que refiro no segundo parágrafo do texto.

A ameaça velada de que a mensagem não era escrita publicamente “devido à amizade... etc.” deu-me liberdade suficiente para poder redigir aquilo que eu queria dizer, da forma como o fiz.

Não mencionei nomes, foi uma espécie de “blague privée”.
Isto nada tem a ver (julgava eu, mas pelo visto julgava mal) com relações pessoais.
Tem tudo a ver com o tal “sentido de amor” de que fala o teu filho de 7 anos.

LNT, [0.490/2010], A Barbearia do sr.Luis


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