A mentira

Há algum tempo atrás numa qualquer universidade americana fez-se um estudo onde nas conclusões se diziam cobras e lagartos sobre a utilização de computadores por crianças, um daqueles estudos que dão sempre nas vistas porque vão contra a corrente. Ninguém perguntou quem eram os estudiosos, ninguém leu o estudo ou interessou-se por o ler, limitaram-se a usar a mensagem das agências de notícias e correram a sacrificar o Magalhães. Até o Carrilho, acabadinho de chegar de Paris e a dar os primeiros passos nas entrevistas ao Crespo não arranjou melhor do que usar o dito estudo e desfazer no Magalhães e, de caminho, nas Novas Oportunidades.

Mas quando a OCDE publicou o PISA onde se apresentavam conclusões brilhantes sobre a evolução do ensino em Portugal foram todos ler o estudo, analisar as suas premissas, avaliar a forma como foram elaboradas as amostras, questionar as conclusões. Isto é, em relação a um estudo feito sabe-se lá por quem bastou a conclusão divulgada por um tablóide, mas o estudo da OCDE já mereceu todo o tipo de suspeitas.

Poderia dar dezenas de exemplos da falta de honestidade intelectual com que muito boa gente deste país, gente que não faz a ponta de um corno e vive à custa do Pinto Balsemão e doutros barões da comunicação social ou do empresariado que tentam a todo o custos melhorar os resultados das suas empresas à custa do Orçamento de Estado.

Nestes dias o INE divulgou indicadores que apontam para uma redução significativa do abandono escolar que entre 2003 e 2009 caiu 10%. Alguém comentou? Ainda não, mas não me admiraria nada que alguém se lembrasse de inventar uma alteração de critérios estatísticos ou, pior ainda, que o ensino é tão mau que é indiferente se as crianças vão para a escola ou coser sapatos em casa.

O descaramento e a falta de honestidade dominam cada vez mais o debate político inquinando as conclusões e impossibilitando os portugueses de discutirem os seus problemas. Ainda, no debate com Manuel Alegre, o candidato Cavaco Silva deu um bom exemplo de falta da falta de honestidade intelectual que domina o país. Sempre que não tinha resposta para as perguntas de Manuel Alegre ou da entrevistadora o actual presidente mandava ler o que estava no site oficial da Presidência da Repúblicas. Quando questionado sobre o negócio estranho com as acções do BPN teve mesmo o descaramento de mandar ler a sua declaração de rendimentos, quando esse mesmo negócio foi anterior à tomada de posse e só se Cavaco fosse mesmo parvo é que se esqueceria de manter acções tão inconvenientes.

É evidente que o site da Presidência não explica nem os negócios de acções feitos debaixo da mesa com Oliveira e Costa e muito menos a forma como foi montada a operação de intoxicação da opinião pública com as falas escutas a Belém. No site não está a verdade dos factos, estão as explicações que convinha a Cavaco dar. Um exemplo, está no site da presidência a declaração de Cavaco às televisões afirmando a inocência de Dias Loureiro? Estão no site da presidência as actas das conversas de Fernando Lima com os jornalistas do Público ou mesmo com Cavaco Silva?

É grave que o país discuta os problemas com base em argumentos falsos e desonestos, é demasiado grave que o país escolha um presidente com base em mentiras.

[O Jumento]



Publicado por JL às 19:57 de 30.12.10 | link do post | comentar |

1 comentário:
De DD a 30 de Dezembro de 2010 às 22:49
Excelente e verdadeiro texto.
Num debate nenhum dos candidatos que está perante muitos telespectadores pode dizer que vão ler o site disto ou daquilo, tem é que explicar bem o que lá está, se é que está lá algo de significativo
.


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