Carta à maioria do futuro
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Há uma geração que nasceu depois do 25 de Abril, que tem convicções políticas profundas, que não desistiu da democracia e que quer para Portugal algo mais que este cenário triste e bloqueado em que nos encontramos.

Para essa geração o que conta é construir com as suas próprias mãos uma nova esperança, encontrar novas respostas para o beco sem saída em que se encontra, sem emprego e sem perspectivas de futuro. Falo da geração mais qualificada de sempre, a quem o nosso mercado de trabalho tarda em abrir as portas e que nunca teve outra alternativa que não a da precariedade, da falta de reconhecimento e da vontade de partir.

Foi gente desta geração que apareceu na campanha de Manuel Alegre, que desde o seu primeiro discurso se lhes dirigiu apelando a um "pacto de insubmissão". Foi a gente desta geração, dos vários partidos apoiantes da candidatura ou de partido nenhum, que eu ouvi nos comícios os melhores discursos. E foi gente desta geração que eu vi, com admiração e afecto genuínos, tomar Manuel Alegre como a grande referência moral do seu combate. 
Pela primeira vez, eu, que faço campanhas eleitorais desde 1975 e que as fiz todas - constituintes, legislativas, presidenciais e autárquicas -, senti que havia uma verdadeira passagem de testemunho. Para aqueles que, como eu e antes de mim, batalharam para que Portugal fosse uma democracia, esta é a garantia que nos faltava. É certo que cada geração trava os seus combates.

A minha geração conheceu a guerra, a Pide, a prisão, o exílio.

Esta tem pela frente o desemprego, a precariedade, a asfixia do endividamento, a mediocridade das elites mediáticas, o tacticismo dos políticos instalados, a promiscuidade entre negócios e política, a ameaça do ciclo vicioso da austeridade e da recessão.

Foi por esta geração e para ela que Manuel Alegre fez o mais importante da sua campanha presidencial: dar a cara, assumir as suas convicções com orgulho e sem qualquer cedência, recusar as meias-tintas e defender o mesmo ideal de justiça, humanismo e liberdade que norteou toda a sua vida. Mas fez mais do que isso: abriu um caminho que inevitavelmente será um caminho de futuro. 
Falo da convergência das esquerdas num projecto comum para Portugal e para a Europa. Precisamos disso com a maior urgência, num tempo conturbado em que os interesses financeiros e a especulação manipulam o poder económico e dominam o poder político democrático à escala europeia e nacional.

Manuel Alegre há muito que o defende - pelo menos desde a moção "Falar é preciso", que levou ao Congresso do Partido Socialista em 1999. Foram dele tentativas importantes de abrir o seu próprio partido à sociedade e à esquerda, primeiro com o Clube Liberdade e Cidadania, depois com a candidatura a secretário-geral e a moção "Mais igualdade, melhor cidadania" em 2004, finalmente em 2006 com uma candidatura presidencial autónoma que foi entre nós, no século XXI, a primeira grande experiência do poder dos cidadãos num acto eleitoral de escala nacional.

Foi Manuel Alegre o primeiro a abrir e impulsionar estes novos caminhos. Foi na sua experiência precursora que se inspirou o meu próprio movimento em Lisboa, cuja aliança com o PS deu a vitória a António Costa.

Desta vez empenhou-se em algo que ninguém até à data conseguira: promover a convergência das esquerdas em objectivos nacionais comuns, mesmo que as diversidades programáticas e sobretudo a história vivida continuem a separá-las. O resultado ficou aquém do necessário, mas o caminho está aberto. 
Há uma fractura entre as esquerdas que em Portugal decorre, creio eu, do confronto que se travou no PREC, em que o Partido Socialista e o próprio Manuel Alegre tiveram um papel decisivo para garantir que Portugal conseguia passar de uma ditadura à democracia sem cair numa nova ditadura. Mas a geração de Abril não viveu esta fractura e não tem dela nenhuma cicatriz. Para esta nova geração é incompreensível que as esquerdas não dialoguem, que não se entendam e que com isso dêem sistematicamente uma vantagem à direita, que não hesita em unir-se sempre que os seus interesses estão em causa. 
E não me venham dizer que já não há ideologias ou que esta dicotomia entre esquerdas e direitas é coisa do passado. Nunca como hoje foi tão urgente, no mundo, na Europa e em Portugal, contrapor ao pensamento neoliberal dominante uma alternativa mais justa e mais solidária.

Se a democracia parece definhada, é precisamente porque ela precisa do confronto entre alternativas claras e não da simples alternância entre o mesmo e mais do mesmo. Falta uma alternativa à esquerda, com novas propostas e que junte partidos, movimentos e cidadãos de boa vontade. Falta construir a maioria do futuro. 
Mas uma coisa é certa. Ficamos todos a dever a Manuel Alegre a coragem dos pioneiros. Não será ele a colher o que semeou. Mas todas as maiorias de mudança começam algures por uma minoria. Tenho a certeza que a maioria do futuro, que já germina no coração de muita gente e que terá nas novas gerações os seus protagonistas, o terá sempre como exemplo, inspirador e companheiro de viagem.

Helena Roseta Arquitecta, fundadora do Movimento de Intervenção e Cidadania (MIC), que apoiou a candidatura de Manuel Alegre à Presidência [Público, via MIC]



Publicado por Xa2 às 00:08 de 29.01.11 | link do post | comentar |

1 comentário:
De governar à direita é que está a dar a 29 de Janeiro de 2011 às 19:31
A ala "direitista" que hoje controla o Partido Socialista não vai nisso. Alias, o congresso, a realizar em Abril, vai dar conta disso mesmo.
Toda a estratégia ira estar encaminhada para dar cabo de qualquer veleidade ou tentativa de reequacionar o partido à esquerda.
Enquanto o PS estiver com o rabinho sentado no banco do poder a sua ideologia é, e continuara sendo, de centro-direita


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