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Pedro Passos Coelho diz que quer encerrar as empresas públicas que dão prejuízo. Partindo do principio que o líder do PSD não ensandeceu vamos ler esta declaração como uma proposta de mais privatizações. Ficamos assim a conhecer a grande clivagem ideológica entre Sócrates e Coelho: o primeiro quer privatizar as empresas publicas que dão lucro - CTT e ANA -, o segundo quer privatizar todas.

Coelho deu especial atenção às empresas de transportes. E ao fim do passe social, que deveria existir apenas para pobres. Mas isso é assunto que deixarei para a crónica de amanhã. Por hoje, fico-me pela milagre da multiplicação das privatizações.

Os transportes são um excelente exemplo de como a política de privatizações não teve os resultados prometidos. A privatização a retalho da Rodoviária Nacional levou a uma descoordenação geral do nosso sistema de transportes, porque a ela não corresponderam contratos de prestação de serviços dignos desse nome e uma regulação rigorosa do mercado. O dinheiro que o Estado encaixou com este "leilão" irresponsável foi pago em perda de qualidade de vida nas cidades e no interior, aumento da desertificação e prejuízos incalculáveis para a nossa economia. A isto veio juntar-se a demissão do Estado em usar as suas próprias empresas para cumprirem o seu papel.

Dirão:

mas pelo menos o privado não suga dinheiro do erário publico. Falso.

Peguemos num exemplo comparativo: CP e Fertagus. Escolhendo duas linhas urbanas da área metropolitana de Lisboa, a de Lisboa-Sintra e a de Lisboa-Coina. Na primeira, a empresa pública cobra 0,06 euros por quilómetro, nos bilhetes simples, e 1,30 euros no passe mensal.

A Fertagus cobra 0,11 euros por quilómetro, no bilhete simples, e 2,48 euros no passe mensal.

Ou seja, a privada cobra mais 83 por cento do que a pública. Curiosamente, até ao ano passado, a Fertagus, apesar de ser privada e cobrar mais aos seus clientes, recebia mais do Estado, em indemnizações compensatórias, do que a empresa pública: 0,4 euros por passageiro para a Fertagus, 0,3 euros por passageiro para a CP. São estes os números que tornam os negócios privados que se penduram no Estado tão interessantes - mais 83 por cento cobrados aos passageiros e mais 33 por cento sacados ao Estado - e as empresas públicas tão ruinosas.

A conclusão a tirar deste exemplo é obvia: em Portugal, os privados não querem substituir o Estado. Querem garantir uma mesada sem risco.

Querem, antes de mais, ficar com o "filet mignon" e deixar para o Estado o prejuízo.

Veja-se como as seguradoras e os hospitais privados atiram para os hospitais públicos tudo o que exija maior despesa. Se dá prejuízo, o contribuinte que pague o tratamento dos seus clientes. Querem continuar pendurados na mama dos dinheiros públicos:

veja-se o caso das escolas privadas que dependem dos contratos de associação para sobreviver. Estão no mercado, mas o Estado garante a clientela que falta. E querem garantir para si setores onde não têm concorrência: veja-se a EDP e o interesse geral nos CTT e na ANA. O mercado é excelente, sobretudo quando os clientes não podem escolher.

A ideia de que com os privados a substituir o público poupamos dinheiro, conseguimos melhores preços com mais qualidade e temos mais escolha esbarra, em Portugal, com grandes empresas pouco habituadas a viver sem a mão amiga do Estado. Os processos de privatização de serviços públicos têm acabado todos da mesma maneira: privatização do lucro e socialização do prejuízo. É assim na saúde e na educação, foi assim na banca, na energia e nas telecomunicações, assim será nos transportes.

A vontade de privatizar o que sobra nada tem a ver com a proteção do interesse público. Corresponde apenas às necessidades de um capitalismo nacional cronicamente rentista. Um capitalismo formado na mentalidade do condicionalismo industrial e que, incapaz de investir na produção de bens transaccionáveis que compitam no mercado externo, precisa, em tempo de crise, de se expandir para serviços públicos protegidos da concorrência. Com a garantia de uma procura pouco elástica e, já agora, com o brinde de um rendimento mínimo garantido pelo subsídio público da praxe.

Daniel Oliveira [Arrastão]



Publicado por Xa2 às 00:07 de 08.02.11 | link do post | comentar |

7 comentários:
De Escassez de ALIMENTOS ... ou água. a 9 de Fevereiro de 2011 às 12:21
E se ocorrer uma situação de escassez de bens alimentares?

Há dois ou três anos os preços dos cereais subiram exponencialmente conduzindo a aumentos de preços dos produtos alimentares como o pão, as carnes, ovos e produtos lácteos,
a Argentina que é um tradicional exportador de carnes proibiu a sua exportação e houve escassez de alguns produtos no mercado mundial.
No passado mês de Dezembro um pequeno incidente relacionado com a qualidade de um lote de açúcar colocado nas prateleiras de uma grande rede de supermercados conduziu a uma pequena crise de abastecimento que levou semanas a superar.
As notícias sobre o aumento das cotações das matérias-primas agrícolas têm-se sucedido, depois dos cereais foi a vez do açúcar.

É evidente que os mercados de matérias-primas agrícolas são cada vez mais vulneráveis, qualquer situação que afecte a produção desencadeia uma alta de preços.
Para isso concorrem o aumento exponencial na procura de bens alimentares das economias emergentes que no seu conjunto representam uma boa parte da população mundial, o aumento das terras aráveis dedicadas à produção de matéria prima para a produção de biocombustível e, no caso Europeu, a própria reforma da PAC.

Portugal depende cada vez mais da importação de bens alimentares, a produção agrícola não se modernizou, muitas terras aráveis foram abandonadas inicialmente porque não atingiam os padrões de rentabilidade subjacente ao sistema de preços agrícolas e depois em consequência de reformas da PAC que visaram a redução da produção de excedentes.

Para além da riqueza que o país perde ao importar quase tudo o que consome está cada vez mais vulnerável a uma crise internacional no sector e é muito duvidoso que numa situação de crise existam stocks comunitários suficientes para responder às necessidades dos países mais deficitários.
Da mesma forma que agora a senhora Merkel nos dá ordens em matéria de dívida soberana arriscamo-nos a que um dia destes a chanceler alemã no venha dizer que se queremos comer alfaces temos que as plantar, como fazem os alemães.

O país anda tão ocupado em cortar vencimentos, em exportar produtos transaccionáveis e em discutir moções de censura que muitos dos seus problemas são esquecidos, como é o caso da agricultura.
Alguém sabe como se chama o ministro da Agricultura? Consigo enumerar todos os ministros dos últimos trinta anos e uma boa parte dos secretários de Estado da Alimentação, mas do actual não faço a mínima ideia de como se chama. Sei quem é o secretário de Estado da Alimentação que já tem quase tantos anos de governo como o Cavaco Silva, mas mesmo com toda essa experiência não lhe confiaria a gestão de um lagar de azeite.

Se ocorrer uma crise de abastecimento de produtos alimentares o país terá graves problemas, não tem produção, não tem stocks e não tenho a certeza de que tenha capacidade política para responder à situação como, aliás, se viu com o simulacro de crise de abastecimento de açúcar.


De .falta Autonomia Agrícola e industrial. a 9 de Fevereiro de 2011 às 12:27
O tema a comentar (trazido pelo post de O Jumento, 8.2.2011) era a eventual escassez de alimentos,

designadamente com amplitude internacional e a forma como isso poderia afectar o abastecimento à nossa República das Bananas, desgovernada pelo engenheiro dominical que tem arruinado Portugal.

Mas, eis quando, este serviçal ''ccastanho'' e seus sequazes, vêm aqui fazer propaganda partidária a favor daquele que tem arruinado o Bananal,
gerado mais de 600.000 mil desempregados, roubado salários, reduzindo pensões, aumentando preços, taxas, medicamentos e impostos, (por vezes até em dupla tributação, como é o caso da taxa para pagar aos lacaios da RTP, onde ainda incide IVA) e que deixa em Junho o País com mais de 2.000.000 de pobres!.
..Uma vergonha!..
E esta gentinha ainda tem o descaramento de aqui vir, com vil baixeza, fazer elogios àqueles que têm desgraçado Portugal.

Em 2004 a Dívida Pública Directa rondava os 84 mil milhões de euros, neste momento, em 2011, após 6 longos anos de desgoverno e desvario pseudo socialista do pretenso engenheiro, a mesma Dívida alcança a insustentável cifra de mais de 154 mil milhões!...Elucidativo da ruina a que o eng. dominical conduziu Portugal.

Ora, se a isto acrescentarmos o possível colapso do abastecimento de bens essenciais a Portugal, por que não temos mais capacidade de produção própria desses bens, cuja produção começou a ser posta em causa com as políticas da "Democracia de Sucesso" dos anos 90 do Prof. Cavaco reeleito,
agora continuadas e agravadas pelo neoliberal pseudo eng. que arruinou Portugal, temos a mistura adequada para colapsarmos enquanto Nação e consequentemente na nossa unidade social e nacional.

Mas, a estes problemas, o serviçal ''ccastanho'', por fora, mas, lacaio socratino, por dentro, como certamente diria e demonstra Ana Benavente, nada tem a dizer, mas apenas se limita a miseravelmente aqui propagandar o culto da personalidade praticado pelo eng. dominical!

Ah Catalina! Vai embora que incendeias a República!

- Filipa Lencastre


De DD a 8 de Fevereiro de 2011 às 23:19
A Fertagus não investiu praticamente nada, pois os comboios pertencem à CP e aluga-os, ou talvez, seja dos mesmos donos dos comboios do Metro, um grupo bancário liderado pelo BES que os aluga em sistema de leasing, sendo nominalme te da CP.


De Bancos = + lucros mas - fisco a 8 de Fevereiro de 2011 às 10:37
Sem stress?

Está tudo a correr bem:
em 2010, o lucro dos três maiores bancos privados nacionais cresceu 8%, face a 2009, para quase mil milhões de euros.
É a banca, aparentemente, a conseguir transferir o stress para outros. Questão de poder.

Entretanto, segundo o Negócios, e isto até custa a crer, o “encargo fiscal do BCP, BES e BPI caiu 83%” no mesmo período, o que terá ajudado no aumento dos lucros, claro.
Isso e os empréstimos do BCE a taxas de juro quase nulas.
O BCE está aí para as curvas dos bancos, mas não para as dos Estados que amparam os bancos e que depois ficam na sua dependência.

É a vida no capitalismo financeirizado. Os riscos financeiros, que são muitos neste regime, são sempre socializados.
Por isso é que o controlo público dos bancos deveria ser superior.

Postado por João Rodrigues , Ladrões de Bicicletas


De . Capitalismo real... a 8 de Fevereiro de 2011 às 10:45
No capitalismo realmente existente

As vozes e os interesses dos mais pobres contam pouco na política norte-americana (...) os grandes ganhadores de todo o tipo de ‘inovações financeiras’ nas últimas três décadas não foram os pobres (nem as classes médias), mas indivíduos já muito bem pagos (...)

O ajustamento à crise foi transferido para o resto da sociedade, particularmente para os que têm menos formação e menos remuneração, que agora perderam as suas casas, postos de trabalho e a esperança para os seus filhos.
Estas pessoas não causaram a crise, mas estão a pagá-la.
- Simon Johnson, MIT, ex-economista-chefe do FMI

Até há pouco o tópico das desigualdades e suas consequência económicas, políticas e morais negativas, associado ao processo de financeirização do capitalismo, induzido politicamente pela acção de forças que desmantelaram o controlo sobre a finança, só interessava a economistas políticos heterodoxos.

Agora, a economia convencional começa a acordar para a vida no capitalismo realmente existente, embora sem abandonar fixações com equilíbrios gerais e outras fantasias de mercado.
Através do artigo de Simon Johnson, dei com esta apresentação de Daron Acemogolu, um dos economistas ortodoxos mais cotados do momento.
E até no vox já se fala da relação entre aumento da desigualdade, o aumento do endividamento dos mais pobres e a fragilidade financeira.
É claro que nenhuma destas análises se compara à que consta deste livro ( The Crisis of NeoLiberalism ), escrito por quem já anda na economia política crítica, com sensibilidade teórica e empírica impar, há algum tempo.

Postado por João Rodrigues, Ladrões de Bicicletas


De FMI - BIRD - OMC - BIKES a 8 de Fevereiro de 2011 às 12:10
Ó pá, vê lá se me arranjas uma bike que ande sem ser preciso dar ó pedal...


De Simplesmente ninguem a 8 de Fevereiro de 2011 às 08:52
Numa sociedade em condomínio. Quem quer saber dessas coisa? Ninguém , simplesmente ninguém
Quem quer saber quanto as empresas geridas por administrações que não estão mais que três anos nos lugares quanto se obrigam a endividar para suportar encargos que o Estado deveria Assumir?
quem quer saber quanto custam financeiramente tais empréstimos ?
Ninguem, simplesmente ninguém !


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