Avançar pelo PS
Seguro deve avançar contra Sócrates
O ex-deputado Henrique Neto acusa o presidente do partido de censurar os críticos nas reuniões do PS.
Henrique Neto foi dirigente e deputado do PS nos tempos de António Guterres e é uma das vozes mais críticas, no interior do partido, da governação de José Sócrates e da falta de debate no partido. Em vésperas do congresso dos socialistas, o empresário defende que a única solução para o país passa pelo PS afastar José Sócrates do governo e considera que António José Seguro é a pessoa indicada para o substituir. O ex-deputado diz que se assim não for, o partido vai pagar caro os erros do actual primeiro-ministro e corre o risco de ser empurrado para a oposição durante muitos anos.

 

- Tem sido bastante crítico da governação de José Sócrates. Qual é a ligação que tem actualmente ao PS? 
- Sou militante de base e estou atento. Tenho participado numa tendência que existe no PS chamada esquerda socialista. O PS, neste momento, precisa é de gente nova para a mudança.
- O partido vai ter eleições em Março para a liderança e José Sócrates deverá ser reeleito pela esmagadora maioria dos militantes. Isso traduz o sentimento do PS? 
- A partir de António Guterres começou um processo muito forte de centralização e os grupos que tomam conta do partido são cada vez mais pequenos. É sabido que José Sócrates foi escolhido numa reunião entre oito ou nove pessoas. O Jorge Coelho, o António Costa...
- Os militantes têm um papel irrelevante na escolha do líder? 
- Exacto. E por isso defendo a necessidade de eleições primárias dentro do PS. Sem isso os que estão no topo escolhem os que estão na base e os que estão na base agradecem ao líder escolhendo-o a ele. E andamos nisto. Isto aplica-se à comissão nacional, à comissão política e é também assim na escolha dos deputados. Depois existe uma massa de militantes que olham para o partido como se fosse um clube de futebol. Independentemente daquilo que o partido faça está bem feito, porque o partido tem de bater o PSD...
- Nos clubes de futebol, os sócios às vezes conseguem despedir o treinador... 
- É verdade, há mais reacções populares do que nos partidos políticos. A maioria dos militantes, mesmo quando está em desacordo, quando se trata de eleger o líder está sempre a pensar no receio de perder o poder. Eu tenho ouvido alguns militantes dizerem que já não querem José Sócrates, mas acham que se votarem contra ele estão a contribuir para retirar o partido do poder. Não lhes ocorre que essa pode ser a única maneira de evitar que o PSD chegue ao poder, porque, nas actuais circunstâncias, a única alternativa do PS era ganhar consciência dos erros que cometeu e tentar convencer os portugueses de que tem capacidade para os corrigir.
- E isso passaria pela saída de José Sócrates da liderança e do governo? 
- Claro. Era a única maneira de o PS não ficar durante muitos anos conotado com os erros que cometeu nos últimos tempos. Não tenhamos ilusões: a partir do momento em que o PSD tiver acesso ao poder, o PS vai ser martirizado pelos erros cometidos e os portugueses vão ter uma consciência maior disso. O partido vai pagar duramente estes anos de José Sócrates. Os erros são tantos, e de tal maneira graves, que põem em causa a independência nacional. Estamos cada vez mais dependentes do exterior e o PS vai ser penalizado por ter feito muitas asneiras, mas também por não ter feito nada, até à última hora, para as corrigir.
- Quem poderia substituir José Sócrates? 
- Há alguns que são conhecidos. O António Costa, que já disse que não queria por razões tácticas, o líder da bancada, Francisco Assis, que disfarça mal que tem esse objectivo, e o António José Seguro. São os três mais conhecidos. Se eu pudesse escolheria o António José Seguro sem nenhuma hesitação, porque o partido precisa de alguém que não seja um seguidor cego e que, como ele, tenha um pensamento próprio e mais estruturado. Ele também pode cometer o erro de estar sempre a adiar e os socialistas acharem que é táctica a mais.
- Devia candidatar-se nas próximas eleições internas
- Acho que sim. Mesmo que não fosse para ganhar seria útil para marcar o terreno e para que os portugueses o conheçam melhor e conheçam melhor as ideias que ele tem. Não é um drama as pessoas candidatarem-se contra o líder.
- Pode pecar por alguma hesitação? 
- Penso que sim. Ele não é uma pessoa hesitante, mas a maioria das pessoas pode ficar com essa ideia. O que seria uma falsa visão.
- Independentemente de Sócrates vir a ter adversários, a verdade é que essa visão crítica da governação e do PS não é partilhada pela esmagadora maioria dos dirigentes do partido. 
- É verdade, mas também é verdade que nas reuniões da comissão nacional, por exemplo, o presidente do partido, Almeida Santos, controla tudo. Só dá a palavra verdadeiramente a quem quer, corta a palavra, diz que não há tempo....
- Só fala quem o presidente do PS quer? 
- Só. As actas ou não são feitas ou não são votadas. E não são votadas, porque as actas não correspondem minimamente àquilo que lá se passou. Na última reunião houve um dirigente que escreveu uma carta ao Almeida Santos a dizer que as actas estavam erradas e que queria discutir isso. O presidente do partido, nesta última reunião, no domingo, como viu que este dirigente ia falar disse-lhe que depois falaria com ele no final da reunião para que não se desse ali um incidente interno.
- Na última reunião da comissão nacional? 
- Sim, o Almeida Santos tem culpas enormes na falta de democraticidade interna do partido.
- O que está a dizer é que há censura nas reuniões da comissão nacional? 
- Sim, há censura. O presidente do PS, com o estatuto que tem, inibe as pessoas de dizerem aquilo que pensam e mesmo quando dizem há uma censura imediata. Há um clima de pressão, mesmo não sendo preciso, porque seriam críticas isoladas. Tem sido um processo contínuo de limitação da liberdade interna.
...
O problema é os deputados estarem lá e não fazerem nenhum. Não terem ideias, não terem propostas nem capacidade crítica. O problema é serem escolhidos pelas direcções partidárias em vez de serem escolhidos pelos eleitores, ou pelo menos pelos militantes dos partidos.

Jornal i via MIC



Publicado por Xa2 às 07:07 de 09.02.11 | link do post | comentar |

20 comentários:
De H.Neto e a decadência do PS a 15 de Fevereiro de 2011 às 16:42
Discutir a democraticidade no P.S. e as causas de decadência

Carta aberta ao presidente do PS
Convido-o a organizar um debate aberto aos militantes, com a participação de ambos, sobre a democracia interna e sobre as causas da inexistência de debate político no PS
[Henrique Neto, Jornal i, 14-02-2011, via MIC ]
Estou feliz por o Presidente do PS ter vindo a terreiro discutir a democraticidade interna do Partido Socialista, coisa rara, ainda que tenha utilizado duas páginas de jornal para dizer muito pouco e esclarecido ainda menos. Além de tentar julgar a verdade dos outros em causa própria, o que nem sempre é uma boa prática. Porque de facto o Dr. Almeida Santos sabe melhor do que ninguém de que falei verdade, limitando-me a dizer em voz alta o que muitos militantes do PS dizem em surdina.
E como me pede respostas aqui as tem:

1. Aquilo que denunciei, e que se passou na última Comissão Nacional, foi confirmado pelo próprio Dr. Almeida Santos na sua carta aberta, ou seja, que um dirigente do PS se queixou ao Presidente do partido de que as actas não são entregues aos militantes antes de serem votadas e que, com demasiada frequência, não condizem com as intervenções feitas. A declaração deste nosso camarada apresenta casos concretos e a única via para o esclarecimento e a reposição da verdade é publicando o texto no jornal do partido, o que naturalmente lhe peço que seja feito. Sei que o nosso camarada concorda com essa publicação.

Como isso não bastará para se saber quem fala verdade, sugiro também a publicação das datas de aprovação das actas e do número e orientação dos votos expressos em cada uma das votações. É ainda importante clarificar as razões de as actas não serem distribuídas antes da sua votação, para que os dirigentes presentes as possam consultar e votar em consciência. Aliás se, como confessa na sua carta, " o presidente propõe ao plenário o necessário mandato à mesa para poder aprovar a acta", antes mesmo de ser redigida, é óbvio que estamos em presença de, no mínimo, uma lamentável ausência de pedagogia democrática, que, como sabemos, conduz ao hábito dos militantes se autolimitarem nos seus direitos e nas importantes funções para que foram eleitos.

2. Por outro lado, o facto de o Presidente do PS, ou a Mesa da Assembleia, não aceitarem o pedido escrito de um dirigente eleito para que seja distribuído um seu texto crítico sobre a condução dos trabalhos, se não é censura o que acha que será?

3. Para informação do Presidente do PS, iniciei a minha militância contra o anterior regime aos quinze anos e folgo que também o tenha feito cedo, todavia isso não nos dá, a ambos, qualquer direito especial e menos ainda o de usar esse estatuto para limitar a participação democrática seja de quem for. Apenas nos dá o dever acrescido de sermos mais escrupulosos e mais rigorosos, dando o exemplo de ética e pedagogia das boas práticas democráticas. A este respeito, talvez o Manuel Maria Carrilho se recorde tão bem como eu do que se passou no XIII Congresso do Partido Socialista realizado na Expo sob a direcção do Dr. Almeida Santos.

3. Concedo que a censura praticada no PS é feita com a passividade, porventura com o acordo, da maioria dos militantes nos órgãos do partido, mas ninguém desconhece que esses militantes foram, na sua esmagadora maioria, escolhidos a dedo pela direcção, que o debate interno não existe, que as sedes estão vazias e que as poucas reuniões partidárias existentes, mesmo em Lisboa, se realizam com meia dúzia de militantes. Ou, já agora, porque acha o Presidente do partido que não existe oposição interna ao actual secretário-geral e as votações são praticamente unânimes, recordando-nos o triste passado contra o qual lutámos?

4. Ou porque terá o PS alterado as condições anteriormente existentes no regulamento eleitoral, no sentido de, no próximo congresso, apenas os candidatos à liderança poderem apresentar moções? Será que é para facilitar o debate interno no partido com o objectivo de surgirem "as novas ideias" que o secretário-geral reclama?

5. ...


De H.Neto e a decadência do PS a 15 de Fevereiro de 2011 às 16:45
Discutir a democraticidade no P.S. e as causas de decadência

Carta aberta ao presidente do PS
...
5. Tenho na minha frente o "Diário de Leiria", em que o militante Cândido Ferreira, que tinha anunciado a sua candidatura à liderança do partido no próximo congresso, diz agora, depois de ter falado com o Presidente do PS:

"É com natural repúdio que verificamos que a candidatura ''natural'' de José Sócrates já está a utilizar os meios que insistentemente temos solicitado e nos têm sido sistematicamente negados." Acrescentando: "Violação grosseira das regras que devem presidir a eleições dentro de qualquer estrutura democrática e respeitadora de princípios universalmente aceites." O que me pode dizer o Presidente do PS sobre isto, ou, já agora, sobre as últimas eleições para a Federação de Coimbra?

6. Se, como espero, o Presidente do PS está interessado em contribuir para a democraticidade do partido e para a reposição da verdade, convido-o a organizar um debate aberto aos militantes, com a participação de ambos, sobre a democracia interna e sobre as causas da inexistência de debate político no PS, nomeadamente quando isso mais falta faz ao nosso partido, neste tempo em que os portugueses expressam a sua desconfiança nos partidos políticos e nas pessoas que, como o Dr. Almeida Santos, os dirigem.

Lamento profundamente que o debate interno no nosso partido se limite às "missas" previamente organizadas, cujo resultado final só pode ser a decadência e a irrelevância. É isso que procuro contrariar e se o Presidente do PS não gosta, paciência.
Apresento-lhe as minhas cordiais saudações democráticas e socialistas.


MARCADORES: democracia, eleições, partido socialista - publicado por Xa2, Luminária, 15.2.2011


De Separar águas no PS. a 14 de Fevereiro de 2011 às 11:52
Post de RN sobre a entrevista de HN «ESQUERDA SOCIALISTA - separar as águas» http://ograndezoo.blogspot.com/
em 12.02.2011
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JGama disse...

Clarificação absolutamente necessária, sob pena de estarmos na política como as rãs em água pantanosa. Eu compreendo os estados de alma de muitos socialistas, mas esses estados de alma não podem justificar as posições que HN vem assumindo há muito tempo.

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Anónimo disse...

Discordo.
Há que ter coragem para se afirmar que José Sócretes não é Socialista e está a afastar o PS da sua matriz ideológica...está a destruir o Partido.
Espero, sinceramente, que a COES apresente um candidato a secretário-geral, para dar sentiso à sua existência...

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Rui Namorado disse...

Aprecio o seu apelo à coragem, compreendendo o seu sofrimento por não ter a suficiente para sair do anonimato.

Mas o principal problema não está em ter ou não ter coragem para se afirmar seja o que for. O problema está em saber se o que afirmamos está certo, se reflecte uma abordagem de um problema pelo ângulo mais adequado e se é uma base segura para uma acção política com alguma hipótese de fecundidade.

Se cada um de nós se imaginar um socialistómetro que distribui anátemas e certificados de socialismo pelos outrso membros do PS, atingirá talvez um patamar elevado de íntima beatitude, mas será politicamente de uma esterilidade absoluta. Para além de poder cair no ridículo.

Uma coisa é combatermos politicamente adversários exteriores, outra coisa é combater dentro de um mesmo partido. Neste caso, nós queremos continuar em conjunto com aqueles de que discordamos embora com um rumo mais ou menos diferente, pelo que não devemos tomar perante eles a mesma atitude que tomaríamos contra adversários exteriores, sob pena de estarmos a prejudicar o efeito das ideias que defendemos pelo modo como as defendemos.

Se ler os documentos fundadores da COES, perceberá que não pessoalizamos as nossas divergências com a actualmente linha dominante no PS, nem as situamos fundamentalmente num plano conjuntural, cientes de que é preciso o envolvimento de todos os socialistas ( impuros, incertos, sólidos, puros e até puríssimos ) para se poder fazer o que deve ser feito; e convencidos que alguns dos problemas que mais perturbam a eficácia política do PS não nasceram com esta liderança.

Por isso,julgo poder dizer que se a COES apresentar ou apoiar um candidato alternativo ele não mercerá certamente o seu apoio, já que a moção que a COES apresntaria nessa hipóteses não seria certamente compatível com a posição que sustenta.

No entanto, sempre lhe digo que, nas actuais circunstâncias políticas e organizativas, e com o tempo de que se dispõe, se o plenário da COES resolver apoiar um candidato a secretário-geral, não se envolverão nessa aventura todos os seus membros.

14 de Fevereiro de 2011


De Aberração de género ? e Falha Cívica a 7 de Março de 2011 às 14:44
Menino não entra

Não será o DNMS (Dep.Nac. Mulheres Socialistas), uma aberração sem sentido depois das alterações estatutárias implementadas que obrigam à paridade na constituição de listas para eleições internas do partido?

A sua existência na estrutura do PS, não será um atestado de menoridade às Mulheres Socialistas?
Aproveite-se o próximo congresso para dar um fim digno à coisa.

http://cadsf.blogspot.com/ 4.3.2011


De Onde está o ''S'' ? a 11 de Fevereiro de 2011 às 14:53
Onde está o s?
-por João Rodrigues, 7.2.2011, Arrastão.org

Ana Benavente aponta os sete pecados mortais que fizeram com que o PS perdesse o S:
da adesão ao neoliberalismo à aceitação de uma integração dependente,
passando pelo centralismo político que é indissociável destas transformações ideológicas e institucionais.

A economia política da austeridade ilustra os pecados na perfeição: Manuel Esteves aponta oito medidas cuja lógica é
reduzir salários directos e indirectos, o poder de compra das classes trabalhadoras.

De resto, a subserviência de Sócrates face ao ordoliberalismo alemão ficou também patente na véspera do último conselho europeu, apodado de “histórico” com a precipitação de quem não tem parece ter qualquer referência socialista,
qualquer noção da regressão socioeconómica em curso,
qualquer rebeldia face às grandes potências do centro que mantêm a mesma intransigência de sempre, no que é aliás acompanhado por todos os governos dos países periféricos.

Entretanto, a neoliberalização do PS e esta estrutura europeia de constrangimentos ajudam à radicalização do PSD, ao progresso das utopias liberais caucionadas pelos idiotas úteis do costume e à acentuação do histórico enviesamento de direita da política no nosso país.

Só o encontro e convergência de todas as esquerdas socialistas pode eventualmente travar este desgraçado processo.


De Partido canibalizado pelo poder a 11 de Fevereiro de 2011 às 14:57
Retrato de um partido rendido ao poder
- por Miguel Cardina

O PS abdicou da defesa dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos.
Trocou a sua matriz socialista pela adesão às teses neoliberais.
Demonstra-se incapaz de questionar o poder do capital financeiro enquanto dono e árbitro do desenvolvimento económico.
É dominado internamente por uma liderança autoritária que seca tudo à sua volta, que distribui lugares e se alimenta de promiscuidades.
O PS acabou por se instalar no espaço do centro, tornando o país mais pobre, política e socialmente.

As considerações não são minhas. São de Ana Benavente, histórica militante socialista e antiga secretária de Estado da Educação.

Reflectem o desencanto de uma significativa camada de militantes que não encontra em José Sócrates e na actual direcção do PS o arrojo político que caracterizou historicamente a social-democracia.

Que, mais triste ainda, não vislumbram aí qualquer hipótese de reabilitação de um padrão ético que reequacione igualdade, liberdade e solidariedade.

Não é um problema específico do centro-esquerda português, mas não há dúvida que no P português a erosão do S vai bastante adiantada.
Veja-se, por exemplo, a inexistência de promoção de debate ideológico,
o modo como maioritariamente se buscam diálogos e acordos com a face direita do espectro político,
a forma como as estruturas dirigentes se mostraram enfastiadas com uma campanha presidencial que assumia claramente a defesa do Estado social e a crítica à chantagem dos mercados financeiros.

Será interessante perceber se no Congresso de Abril alguém se chegará à frente para fazer a figura de crítico do socratismo.
António Costa e António José Seguro acham que ainda não chegou a sua hora.
Manuel Maria Carrilho e Carlos César não estão disponíveis para desempenhar esse papel.

É bem provável que ninguém se disponha a isso: os tempos futuros adivinham-se difíceis para um potencial sucessor de Sócrates e todos os militantes sabem que este eucaliptou bem o terreno em redor.

Um adversário talvez desse jeito para que houvesse um simulacro de debate, mas o mais provável é Sócrates ter de ocupar-se sozinho do calor dos holofotes.
Um passeio que dirá muito sobre o estado a que chegou um partido cada vez mais canibalizado pelo poder.


De . pensar o depois... agora. a 11 de Fevereiro de 2011 às 15:04
O PS depois de Sócrates
- por Daniel Oliveira

Que José Sócrates está a prazo já não é assunto de debate para ninguém. Que será sucedido por Pedro Passos Coelho também deixa poucas dúvidas.
E que o extremismo ideológico do novo PSD ainda permitirá ao líder do PS fazer uns brilharetes à esquerda também parece óbvio.

Uma coisa é certa: os socialistas terão de se preparar para uma longa travessia do deserto.

O próximo congresso do PS, em que ninguém com relevo surgirá para se confrontar com o primeiro-ministro em fim de festa, apenas tornará mais evidente o autismo socialista e a sua incapacidade em fazer debates políticos que não se resumam a mercearia de lugares.
Mas vêm aí outros tempos.
A crise promete ser longa e a ofensiva contra o Estado Social, que o próprio Sócrates começou e que Passos Coelho levará até a limites até agora desconhecidos,
obrigará o PS, quando passar pela cura de oposição, a refletir sobre o papel que quer continuar a ter na política portuguesa.

O PS pode esperar que o poder lhe volte a cair no colo. Mas desta vez é um jogo arriscado.

O descontentamento e a crise podem levar à desagregação da geografia eleitoral, deixando o centro-esquerda em estado comatoso prolongado.
Já aconteceu em Itália e em França, nada nos diz que não possa acontecer em Portugal.

Ou o PS, depois de se ver livre do vazio ideológico socratista, quer ter um papel nos grandes confrontos políticos que, por toda a Europa, se avizinham, ou poderá passar por uma crise semelhante à que o PSD conheceu desde a saída de Cavaco Silva.
Pior: pode vir a ter o destino do centro-esquerda italiano e francês.

Apesar de não ser o mais importante, interessa saber quem será o próximo líder do PS.
Se um gestor passageiro da derrota, se um reconstrutor do centro-esquerda,
aproveitando os anos de oposição que aí vêm para transformar a federação de interesses em que o PS se tornou
num partido político com capacidade de polarização ideológica e social.

Com a guinada à direita a que a política nacional (e europeia) vai assistir, o bloco central não tem qualquer futuro.
Ou o PS ocupa o lugar centrista que o PSD deixará solto, fazendo crescer, com o descontentamento social, os partidos à sua esquerda,
ou é capaz de construir uma alternativa verdadeiramente social-democrata à razia que aí vem.

As duas opções têm riscos, mas são inconciliáveis. Não me parece que a sedução ao centro e à direita com chantagem à esquerda volte a funcionar nos próximos anos.

Não sei se ainda há gente capaz de libertar o PS da tralha acumulada por anos de clientelismo no aparelho de Estado.
Dos ruis pedros soares, varas, lellos, coelhos e vitorinos desta nossa triste sina.
Não sei se sobrará densidade política e ideológica aos socialistas para começar um processo de clarificação urgente que os tire do vácuo em que se encontram.
Sei que os portugueses demorarão alguns anos a esquecer José Sócrates.
Com os maus tempos que aí vêm, a rotatividade ao centro já não é coisa garantida.
E já não vai bastar a indignação retórica com as privatizações quando privatizou,
a defesa intransigente, em palavras, do Estado Social quando se fragilizou o Estado Social,
as reflexões sobre a necessidade da Europa mudar de rumo enquanto se aceita um papel passivo dos países periféricos.

O que falta ao PS é consistência e consequência.
E estas são as qualidades que um novo líder do PS teria de lhe emprestar. Ele existe?

Depois de Sócrates, o PS ficará em escombros.
Os seus mais fieis e acríticos seguidores irão tratar das suas vidas.
Uns com passagem direta para o novo poder,
outros de licença em empresas privadas e públicas, à espera de uma nova vitória.
Se o PS os deixar partir de vez e tentar reconstruir-se como alternativa política num tempo que tem de ser de clareza, quer dizer que aprendeu alguma coisa.

Se fica apenas à espera do desastre que será Passos Coelho, então esperemos que a travessia do deserto seja mesmo muito longa


De Militantes e candidatos... a 11 de Fevereiro de 2011 às 11:50

Afinal não votarei em Sócrates - declaração de voto


Afinal, pensando bem, ainda não será desta que proporei, e nem sequer votarei, em José Sócrates.

Continuarei a votar (consciente e orgulhosamente) no Partido Socialista, como sempre votei, mas continuarei a não ser eleitor de Sócrates. E como só há uma altura para não votar em Sócrates, que é quando ele se candidata a Secretário-Geral do PS, lá terá de ser.

No entanto espero que Sócrates tenha, se não 100% dos delegados no Congresso, pelo menos 99%. Espero que a sua lista seja mega-hiper-extra maioritária, coisa a rondar a unanimidade, mesmo que os delegados se apresentem em dezenas de listas diferentes e contraditórias nas mesmas estruturas.

E antes que me desafiem a candidatar-me a Secretário-Geral (coisa vulgar cada vez que alguém do PS diz que não é apoiante de Sócrates) informo desde já que não serei candidato.
LNT , [0.035/2011], A Barbearia
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Eu também NÃO proporei nem votarei Socrates para SG do PS (e também não o fiz no passado) embora continue a pagar quotas, a votar, militar, a propor ... e a criticar.

E espero que haja alternativa ... para evitar voto branco nulo ou abstenção.

Também não me proporei para candidato a SG (creio que há alguns militantes melhores, embora eu sem falsa modéstia me considere apto e melhor que metade do universo elegível...)
e se alguém me propor (hipótese quase absurda) para um cargo partidário (ou cívico ou político ou técnico nas minhas valências) não recuso e farei o melhor possível, com principios, empenho e meios democráticos.


De Só por causa do virus... a 11 de Fevereiro de 2011 às 12:28
Eu também não, embora até me tenham enviado, para prencher, a proposta de prepusitura da sua candidatura que de emidiato ileminei do meu computador. Só por causa do virus... social democrata!


De anónimo a 11 de Fevereiro de 2011 às 14:49

se o vírus fosse verdadeiramente social-democrata talvez ajudasse na cura...

o problema é que o vírus que chegou com a propositura é de características ''neo-liblair'' / ''social-demoderno'' / ''estratégico-mkt'' / ... e com muitos telhados de vidro-baço.

S. faria um grande favor ao partido se não concorresse a s-g.


De Zé das Esquinas, o Lisboeta a 10 de Fevereiro de 2011 às 14:49
É preciso reformar e democratizar os partidos políticos.
Não basta dizer que se é democrata. é necessário praticá-la no dia a dia.
Os partidos políticos são necessários para, através das eleições a que concorrem, tornar efectiva a representatividade do povo.
Mas os eleitos têm de ser responsabilizados pelo que não cumprem e pela formem como o cumprem. E não pode ser essa responsabilização somente da esfera do partido tem de ser também assumida pelo cidadão eleito por ele.
Uma eleição não pode criar a impunidade futura dos actos praticados. Isso não é o exercício da democracia. Isso será quanto muito a crise do regime dito democrático.
Portanto àque reformar o sistema democrático começando pelos partidos políticos que não são mais do que as figuras/pessoas que nele se exibem.
Estamos perto de ouvir os políicos referirem-se a si próprios na terceira pessoa, como se outra pessoa se tratasse e não deles próprios, um pouco à triste figura que fazem muitos dos futeolistas actuais.
A democracia não pode continuar a alimentar-se da sipria porque corremos o risco de se extinguir. O exercício da democracia tem que ser virado para os outros e nós beneficiaremos dela enquanto nos comportarmos como iguais a esses outros.


De Os partidos são os seus dirigentes a 9 de Fevereiro de 2011 às 19:44
Já não há regeneração possível , a esmagadora maioria dos responsáveis que hoje em dia têm o poder e o controlo partidário são originários das Jotas onde se habituaram a fazer malabarismos e negociatas que destruem a própria democracia interna partidária.

Com tais praticas os partidos, conforme actualmente realizam a sua actividade interna, são eles mesmos um subversão da democracia.

Simplesmente os partidos não prestam na exacta medida em que quem os controla também não presta, ponto final


De . Vencidos e co-Responsáveis ! . a 11 de Fevereiro de 2011 às 10:24

- Militantes (activos ou 'adormecidos'), votantes e abstencionistas, todos somos co-RESPONSÁVEIS !

- Somos uns convencidos e, de facto, já VENCIDOS !

...
todos os mais variados ditos militantes somos igualmente co-responsaveis pela demissão individual e colectiva da vida partidária a que sistematicamente nos remetemos, apesar dos proprios estatutos possibilitarem as mais variadas formas de organização interna.

O próprio Mário Soares sempre afirmou que "só são vencidos os que se demitirem de lutar".
No PS a grande maioria somos, efectivamente , vencidos.


De .Glasnost e Directas. a 9 de Fevereiro de 2011 às 13:34
Parabens a H.Neto por expôr de forma clara e transparente o que se passa no interior do seu partido, o que está mal, os seus responsáveis, e o que deve ser feito
para o PS voltar a ser um partido vivo, democrático, pluralista,
e com políticas de defesa dos interesses da maioria do povo português
e não ao serviço das oligarquias de 'marajás' e dos tachistas do centrão de interesses (servidores do capitalismo usurário, rentista e mamão do Estado e dos contribuintes).

No Luminária já tinham aparecido vários comentários sobre a vida interna do «partido socialista», seus problemas, falta de transparência, de democracia, militância, ...
mas HNeto tem a coragem de chamar ''os bois pelo nome''.

Mas não se pense que este é um problema específico do PS... o PSD (+CDS) não lhe fica atrás e as suas práticas, seus barões e as políticas neoliberais que quer impôr (a coberto de populismo, demagogia, ...) ainda são piores do que aquelas que o governo PS tem praticado.


De Atacar os críticos ...em vez de melhorar a 11 de Fevereiro de 2011 às 10:33
"Ressentidos" & "zangados"

A reacção da actual direcção do PS ao pensamento crítico que, surpreendentemente, ainda sobrevive no partido, tem-se limitado a repetir o velhíssimo e primário método de, em vez de discutir as críticas, desautorizar os críticos.

Assim, Manuel Maria Carrilho comete o grande e horrível crime de pensar porque - diz Almeida Santos, actual presidente do PS (ou, talvez melhor, presidente do actual PS) - "está zangado" "por ter sido apeado do lugar que tinha [embaixador de Portugal na UNESCO]".

Por sua vez, a ex-secretária de Estado da Educação Ana Benavente, que acusa Sócrates de coisas como "autocracia", "incompetência" e "falta de credibilidade", estará - garante Capoulas Santos, director da campanha do secretário-geral para o próximo congresso - ressentida porque "aspirou a ser deputada (...), um objectivo que aparentemente não foi atendido".

Começa, por isso, a ser preocupante a ausência de explicação para a recente entrevista do ex-dirigente e ex-deputado Henrique Neto ao "i". Alguém que diz que Almeida Santos censura as reuniões da Comissão Nacional e que Sócrates tem uma "visão totalitária", tendo cometido "tantos erros, e de tal maneira graves, que põem em causa a independência nacional", tem que estar, de certeza, "ressentido" ou "zangado" com qualquer coisa. Veremos nos próximos dias se Capoulas Santos e Almeida Santos desvendam o mistério. Ou então se Henrique Neto terá que ser internado.

Manuel António Pina [Jornal de Notícias]


De . Ana Benavente critica... a 9 de Fevereiro de 2011 às 11:56
[Nuno Simas, Público.pt, 07-02-2011]
É um retrato arrasador do PS, do Governo e de José Sócrates. Entrevista de Ana Benavente, à Revista Lusófona de Educação.

...O PS tornou-se "neoliberal" - "fazer do capital financeiro o dono e árbitro do desenvolvimento económico é uma capitulação face ao neoliberalismo que não é digna de um partido socialista".
Mas há mais. No PS, há falta de debate interno e Ana Benavente critica "o autoritarismo da actual liderança". "Tornou-se autocrata, distribuindo lugares e privilégios, ultrapassando até o "centralismo democrático" de Lenine. Alimentando promiscuidades que recuso".

É pedido à antiga governante que aponte "sete pecados mortais" do PS. Ana Benavente fá-lo (ver caixa) e, entre eles, aponta a "falta de ética democrática e republicana".

Na lista de divergências ... a acusação de o PS de Sócrates ter assumido "políticas de direita" - termo muito usado pelo PCP ou pelo Bloco - através das privatizações ou das reduções drásticas no sector público. Ou ainda de o PS ter abdicado "da defesa dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos".

O Orçamento do Estado de 2011, aprovado depois de uma negociação com o PSD, é "o revelador máximo" das divergências: "Estado abusador, castigo para os pobres, poupanças nas políticas sociais".

O futuro é encarado com algum cepticismo pela ex-dirigente nacional do PS, que integrou o secretariado quando Ferro Rodrigues foi líder.

E de pouco valeria, perante estes "pecados", "a confissão e a absolvição com mais ou menos "castigos" e rezas". O problema é "mais grave".

"O PS hipotecou o seu papel na sociedade portuguesa e deixou-nos sem perspectivas de um futuro melhor. Assumiu o papel que antes pertencia aos centristas do PSD, ocupou o seu espaço e tornou o país mais pobre, política e economicamente."

O caminho passa, para Benavente, por o PS partir do seu "papel histórico" de conseguir um "reforço dos direitos dos trabalhadores, desenvolvimento dos direitos de cidadania e do consumidor, reforço da assistência pública, mudança do paradigma energético, desenvolver um sistema de saúde solidário e alargar o sector público". "Novas vagas de democracia" serão exigidas por todos os que, "assustados pelo eventual desemprego, comprados por um hiperconsumo esmagador e com medo da anunciada recessão", vão "querer respirar livremente e reconstruir a paz".

Na área da Educação, a ex-governante acusa Sócrates e o Governo de, nos últimos seis anos, terem "maltratado" a escola pública com políticas educativas "marcadas pela centralização" ou pelo "questionamento da qualidade" dos professores através do sistema de avaliação ou da publicação de rankings de escolas.

[1] Para reflectir...
Armando Caldas, 2011-02-07 19:12:41

Penso que se trata de uma importante chamada de atenção ao rumo do PS durante o mandato de José Socrates que através de um socialismo envergonhado tem pouco a pouco asfixiado o estado social,

cada vez mais um estado social mínimo e residual, mas atafulhado de Boys acriticos e servis que parasitam as empresas públicas/ppp's com salários escandalosos e funções questionáveis, deixando desencantados todos aqueles que anos e anos se bateram pelos ideais de um Portugal mais justo, fraterno e solidário,
enfim os ideais que justificam o Partido Socialista como um grande partido da esquerda portuguesa.

O ciclo político de José Socrates parece estar a chegar ao fim e para bem do PS ele próprio deveria programar a sua sucessão dentro do partido em vez de se tornar um lastro que o vai afundar, entregando por largos anos o poder à direita (o mesmo lastro que afundou a candidatura de Manuel Alegre à presidência da República...).
O PS deve olhar para si e para o país e repensar o seu rumo, infelizmente condicionado pela crise financeira global.

Poderá ir mesmo mais longe e ser um contributo para os desafios que enfrenta a esquerda europeia chamando a si os partidos socialista europeus para uma estratégia conjunta que dê resposta ao fatalismo da globalização capitalista.


De 'pecados do PS'... a 9 de Fevereiro de 2011 às 13:51
Os sete pecados mortais (e capitais) do PS, segundo Ana Benavente :

1. Adoptou "políticas neoliberais e, portanto, abandonou a matriz ideológica socialista";

2. "Autoritarismo interno e ausência de debate, empobrecendo o papel do PS no país";

3. "Imposição de medidas governativas como inevitáveis e sem alternativa, o que traduz dependências nacionais e internacionais não assumidas nem clarificadas para o presente e o futuro";

4. "Marketing político banal e constante, de par com uma superficialidade nas bandeiras de modernização da sociedade portuguesa";

5. "Falta de ética democrática e republicana na vida pública e na governação";

6. "Sacrifício de políticas sociais construídas pelo próprio PS em fases anteriores";

7. "Falta de credibilidade, quer por incompetência quer por hipocrisia, dando o dito por não dito em demasiadas situações de pesadas consequências".

http://jornal.publico.pt/noticia/07-02-2011/os-sete-pecados-mortais-do-ps-segundo-ana-benavente-21233172.htm
# posted by Primo de Amarante , via MargemEsquerda


De Xa2 a 9 de Fevereiro de 2011 às 11:39
Entrevista a Henrique Neto (jornal I., 8.02.2011):
...
-Quando se discutiu o Orçamento do Estado para este ano houve um debate sobre onde o governo deveria cortar, com o PSD a pedir mais cortes no aparelho de Estado. Há margem para cortar na máquina do Estado?

Enorme. Não apenas para poupar, mas para delinear políticas que não sejam dependentes do Estado.

- O PS tem algumas resistências?

Claro que tem. O próprio primeiro-ministro disse, numa reunião interna do partido, que se o partido for mexer muito no Estado está a mexer na base de apoio do PS. Honra lhe seja feita, foi muito claro. E aí o Passos Coelho tem razão. Há que dar uma volta ao Estado, porque isto é insustentável. Era preferível fazer uma reforma destas a reduzir os salários ou o subsídio dos desempregados. Eu, nas moções que fiz há cerca de dez anos, digo que é urgente acabar com os serviços paralelos ao Estado e que é urgente profissionalizar os dirigentes de topo do Estado. Isso é essencial, porque permite garantir a continuidade das políticas. Há reformas, mas não se destrói tudo o que foi feito, como tem acontecido. Isso só é possível com profissionais. Não é isso que acontece, porque foram os chefes políticos ou os amigos políticos que foram colocados em toda a administração pública. Os relatórios do Tribunal de Contas, por exemplo, são um mergulho na realidade. Qualquer pessoa percebe que estamos a caminhar para o desastre.

- É possível fazer essas reformas sem despedir funcionários públicos?

Chegados aqui, e não tínhamos necessidade de ter chegado a esta desgraça, o sacrifício devia ser para todos e devíamos resolver o problema o mais depressa possível, provavelmente com o FMI, com a União Europeia, com todos. Se não o fizermos, em vez de termos dois ou três anos de sacrifícios vamos ter dez ou 15. O que é triste é que as classes mais desfavorecidas estão sozinhas a pagar a crise. Há uma frase que detesto, que é dizerem que temos vivido acima das nossas possibilidades. É verdade, mas as pessoas que ganham 400 euros por mês têm vivido acima das possibilidades? Uma família que ganhe mil euros consegue viver acima das possibilidades? Têm de me explicar como é que isso se faz.

- A classe média vai começar a ser atingida por algumas medidas do Orçamento do Estado deste ano.

É verdade, e vai começar a mexer-se

- E vai ser preciso o apoio do FMI?

O governo transformou esse problema, que devia de ser de racionalidade, num problema de patriotismo. Quem quer o FMI é antipatriota. Eu acho que é um problema de racionalidade, mas não tenho todos os elementos. O que eu penso é que é preciso fazer alguma coisa e o meu receio é que, em vez de irmos mais cedo pedir ajuda, pelo nosso próprio pé, com propostas nossas e negociando ou não e aceitando aquilo que nos querem impor, cheguemos lá fragilizados, e nessa altura temos de aceitar tudo.

- Já estamos a ser ajudados.

É verdade, e o governo não tem crédito internacional. O primeiro-ministro é acusado de ser mentiroso nos jornais. Isto não é normal e tem efeitos internacionais. O futuro do país está dependente do cumprimento do Orçamento, porque ninguém acredita que ele o vá cumprir. O natural seria acreditar que o governo o vai cumprir e a questão da credibilidade é determinante neste momento. Eu acho até que há mais desconfiança externa que interna.

- Deu apoio a Manuel Alegre nas presidenciais. Estava à espera de uma derrota tão pesada?

Era previsível, porque os portugueses estão a afastar-se da política. As pessoas também votaram contra os políticos. O resultado do José Manuel Coelho devia ser estudado. Os portugueses vão pela via da desilusão. Há uma desilusão grande e isto é perigoso. O que nos vale é estarmos na União Europeia. Quando oiço algumas pessoas, por exemplo, a dizerem que podemos sair do euro, penso logo que estão a abrir o caminho para um aventureiro qualquer.

- É impensável para países como Portugal sair do euro?

No outro dia não tínhamos o que comer. Criámos uma dependência alimentar, a partir do professor Cavaco Silva, de tal ordem que a gente compra uma boa parte daquilo de que precisa lá fora. Se sairmos do euro, não temos dinheiro para pagar.

- O que espera de C.
...


De Xa2 a 9 de Fevereiro de 2011 às 11:41
...
- O que espera de Cavaco Silva neste segundo mandato?

Não espero nada. Pelas características pessoais e por conveniência política. Não vai fazer o que fez o Jorge Sampaio, que dissolveu o Parlamento e afastou o governo. O problema vai pôr-se na Assembleia da República. É imprevisível, mas se calhar vamos viver numa paz podre.

- As eleições antecipadas poderiam ser uma solução?

Acho que é impossível resolver qualquer problema com o José Sócrates à frente do poder. Nestas condições qualquer solução é melhor que a actual. Um governo PS sem José Sócrates, um governo de coligação, um governo do PSD. Ele hoje é o poder, os ministros não contam para nada. O partido não conta para nada. O que ele quer é o que se faz e o que ele quer infelizmente é quase sempre errado.

- Falou alguma vez com José Sócrates acerca da opinião que tem sobre a governação?

Não. Eu conheço-o há alguns anos e sempre fui contra ele ser secretário-geral. Quando ele assumiu o cargo de primeiro-ministro mandei-lhe uma carta com vários documentos que vinham do tempo do Guterres e de coisas que eu achava que deviam ser implementadas. E ele, ao contrário do Guterres, que agradecia sempre estas coisas, nunca reagiu. Ele não gosta de mim, eu também não gosto dele, mas não é nada de pessoal. Costumo dizer que só tenho um país e detesto as pessoas que dão cabo dele.

- Qual é a sua avaliação deste governo no seu conjunto?

Com excepção do dia-a-dia nas Finanças, o governo não existe. É interessante que o primeiro-ministro tenha tanta fama de ser determinado e duro e depois o governo seja a bandalheira que é. Quando sai nos jornais que uma empresa ou instituto não está a cumprir as regras, o governo vai a correr tentar resolver o problema. Parece que há uma lei para isso. Ou seja, é um governo que anda a correr atrás dos problemas. Isto é o pior que se pode fazer. O governo eficaz é aquele que consegue prever. E, portanto, este governo é pior que os outros porque é mais improvisador e tem mais competência a improvisar, porque o José Sócrates tem competência a vender ideias que de repente lhe surgiram como se fossem a solução. E o partido vai atrás daquilo convencido de que ele tem mesmo a solução. Mas ao fim de algum tempo esquece essa ideia e parte para outra.

- Mas também houve boas decisões, ou não?

Se eu tivesse de escolher aquilo que foi mais bem feito no governo, escolheria a Educação no início do primeiro governo do PS, mas depois veio uma segunda fase que mostrou que se tratava de um impulso e não de uma estratégia ou de uma filosofia para o sector. Por último começou a fazer asneiras, que contrariaram tudo o que de bom tinha sido feito. Por exemplo, na avaliação dos professores aquela proposta só seria apresentada por uma pessoa que quisesse acabar com a avaliação. Não há uma ideia consistente. Talvez a única ideia consistente fosse na área da Saúde com o Correia de Campos, mas ele não soube vender aquilo.

- Se calhar era difícil...

Não. O Sócrates chegou ao poder com a convicção de que os portugueses gostam de coisas afirmativas. E tinha alguma razão, porque não se pode ser tão indeciso como o Guterres, mas também não se pode pensar que se sabe tudo, como este governo. E ele criou uma cultura de ausência de crítica, quer no país quer no partido. Quando ele desafia o Carrilho e aqueles que têm criticado o governo a assumirem-se como candidatos à liderança do PS mostra que tem uma visão totalitária, porque a crítica é útil independentemente de se querer ou não ser primeiro-ministro. Ter pessoas à nossa volta que nos alertam para os problemas é essencial. E esta visão totalitária do poder marginaliza todo o pensamento criativo, porque as pessoas querem manter o lugar, querem por exemplo ser deputados na próxima legislatura, e preferem não criticar. Os melhores pensadores portugueses valorizam o pensamento crítico.

- Foi deputado, ...


De Xa2 a 9 de Fevereiro de 2011 às 11:43
...
- Foi deputado, durante quatro anos, no tempo em que António Guterres era primeiro-ministro. Como foi essa experiência?

Pensei que podia ser útil, mas não. Apresentei várias ideias para a economia, mas os líderes parlamentares estavam mais preocupados com a luta do dia-a-dia. Se olhar para a bancada do PS neste momento, não há lá ninguém que tenha a mínima ideia sobre o que é a economia. Um dos poucos deputados que tinham alguma perspectiva disso - o Afonso Candal - acabou por sair. Os deputados não têm experiência de vida.

- Nesse sentido concordaria com a diminuição de deputados, tal como defendeu o ministro dos Assuntos Parlamentares?

Um dos problemas que corroem a vida política é confundir o essencial com o acessório. Esse é um dos problemas graves. O país para mudar do ponto de vista económico precisa que sejam definidas quatro ou cinco prioridades, mas se estivermos a discutir 300 temas ao mesmo tempo cada um fala para seu lado e daí não resulta nada. E isso resulta da falta de experiência, nomeadamente internacional, dos políticos portugueses. Falamos da globalização, mas não sabemos o que os outros países estão a fazer. O que estão a fazer as empresas dos outros países. E desconhecendo tudo isto é difícil saber quais devem ser as prioridades. Discutir, por exemplo, o número de deputados como um grande objectivo é ridículo. Do ponto de vista do custo é ridículo e o problema não é haver 230 deputados ou 180 deputados. O problema é os deputados estarem lá e não fazerem nenhum. Não terem ideias, não terem propostas nem capacidade crítica. O problema é serem escolhidos pelas direcções partidárias em vez de serem escolhidos pelos eleitores, ou pelo menos pelos militantes dos partidos.


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